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— O que está acontecendo? — perguntei, mais assustado que antes. — Vocês estão bem?
— Sim, nós estamos. Mas mamãe precisa da nossa ajuda! — ele falou olhando dentro dos meus olhos, enquanto passava Ester para meu colo.
— O que está acontecendo!? — gritei. já estava ficando agoniado.
Ester se contorceu em meu braço, pedindo para descer. Eu olhei rapidamente para ela. Estava tão tenso que nem havia reparado nos seus lindos olhos cor de mel. Eu a coloquei no chão e afastei uma das mechas douradas de seu cabelo que estava caida no olho.
Perguntei novamente para Gregory, que estava balançando a perna, devido a agitação e medo. — Gregory! Me responde, o que houve!? — Ele olhou para mim, com um olhar que transbordava angústia.
— Ester, meu amor. Fique aqui, tá bom? — Ele falou para a nossa irmã, agachando-se para ficar em uma altura próxima a dela. — Nós vamos lá na aldeia, rapidinho, mas logo voltamos. Precisamos que você fique aqui, tudo bem?
Ela olhou nos olhos pretos dele, fez uma cara estranha, mas assentiu. Não a julgo pela expressão com o rosto, pois os olhos de Gregory eram realmente muito intensos. Era como se penetrassem em nossa alma, nos envolvendo com a escuridão e a correnteza fria da noite. Mas de uma forma boa... inexplicável, eu diria.
Eu dei um beijo na testa de Ester, acariciando suas bochechas rosadas, e saí, seguindo Gregory que já estava alguns passos à frente. Quando cheguei no topo da estrada, pouco antes de perder Ester do meu campo de visão, virei-me para conferir se tudo estava certo. Jamais me perdoaria se algo acontecesse com ela. Estava sentada na beira do lago Valddrer, passando as mãos na água que a leve correnteza trazia e levava. Estava tudo bem. Continuei seguindo Gregory até a aldeia.
Desespero. Foi isso que eu consegui enxergar no rosto dos moradores da aldeia. Apenas isso. Tinha muita gritaria, sangue para todo lugar, corpos de pessoas que eu conhecia e...e homens estranhos. Eram altos e pálidos. A maioria usavam roupas de couro pretas, mas era possível avistar um ou outro com estilos diferenciados. Devia ser a moda na cidade grande. Nunca tinha ido até lá. Na verdade, nunca tínhamos saído da aldeia. O máximo que chegamos a ir, foi até o lago Valddrer. Esses homens estavam matando cruelmente os bruxos da aldeia, sem um pingo de piedade.
Onde estava minha mãe? Eu precisava encontrá-la!
Eu e Gregory ficamos paralisados com aquela cena. Era assustador. c***l.
Senti uma mão tocar meu ombro. Acho que naquele momento tive um leve queda de pressão. Não me julgue, sei que você também teria. Mas o susto logo passou quando eu vi quem era. Elizabeth, a curandeira da aldeia. Uma das minhas pessoas favoritas daquele lugar, sem dúvidas. Ela dizia ter 50 anos, porém eu sempre desconfiei. Chutaria uns 65 anos. As rugas não aparentavam ser de uma mulher de 50 anos. Ela estava com as mesmas roupas de sempre, o vestido folgado acima do joelho com um jaleco verde claro por cima. Ah, e também tinha o turbante com a cor próxima a do jaleco.
— Venham meninos. A mãe de vocês está esperando lá dentro. — Ela falou, nos segurando pelo braço e apontando com a cabeça para o templo da Octar. Nós fomos levados até lá.
Antes de qualquer coisa, devo explicar a vocês o que é uma Octar. Octar é a pessoa que tem o controle sobre toda a magia da aldeia. Ou seja, essa pessoa é uma espécie de fonte de magia para todos os outros bruxos do mundo. Bom, não sei explicar muito bem, isso é ensinado no 5° ano da escola. Sim, nós temos uma escola que ensina magia na aldeia, mas eu estou no 3° ano ainda, e não não sei muito sobre a origem da magia e nem sobre Octar. Mas, algo que todos nós sabemos, é que a sala do Octar é selada com a magia do mundo todo. É literalmente impossível alguém que não foi convidado pelo próprio Octar entrar lá. De forma não tão agressiva: se você tentar entrar sem ser convidado, seus órgão são completamentes dissolvidos no próprio ácido do seu estômago, fazendo você ser destruído em poucos segundos. Logo em seguida, sua alma é torturada eternamente. É, digamos que não é tão agradável.
O nosso Octar era, na verdade, a nossa Octar. Uma mulher. O nome dela é Hayla. Bonito o nome. Ela tem 112 anos. Sim, 112. Mas ela é bem mais forte do que você imagina, meu caro. Não recomendaria que você a desafiasse para uma batalha. A não ser que queira visitar o Pós-mundo, se é que me entende...
Elizabeth nos levou até a sala do Octar, o que foi completamente novo e estranho. Nenhum morador da aldeia entrou lá, somente a Octar e seus guardiões. Então digamos que foi uma honra botar os pés lá.
Elizabeth estava tensa. Dava para perceber que fez a gente correr bastante para os assassinos não perceberem nossa presença no meio de tantos outros bruxos. Quando chegamos lá, senti algo que nunca tinha sentido antes. Uma força sobrenatural, uma paz... Me senti tão bem que nem parecia estar acontecendo um m******e lá fora.
Continuamos andando pelo corredor de pedras vazio e silencioso. Aquilo era bem maior do que aparentava por fora. Continuamos andando por alguns minutos, até chegar em uma longa escadaria que ia em direção ao subterrâneo. Conforme íamos descendo a escada, era possível enxergar os próximos degraus, mas era impossível enxergar o que vinha depois. E foi assim por alguns minutos. Eu estava começando a ficar assustado com o local. Eu imaginava a sala da Octar como uma sala com um trono, um jardim, uma cachoeira e borboletas coloridas. Ah, e não podiam faltar os pães quentinhos com queijo derretido. Mas só tinham escadas e mais escadas.
Nós ainda estávamos descendo a escada, quando um barulho ecoou em meu ouvido. Era um som meio abafado. Pareciam... como eu posso dizer... pessoas!... Pessoas conversando!
De repente a escuridão que engolia nossa visão dos próximos degraus sumiu e uma luz forte ardeu em meus olhos.
Quando abri os olhos novamente, estava em um lugar lindo. Uma vila, talvez. A grama era verdinha, e tinham as borboletas como eu imaginara durante toda a minha vida. Flores, plantas, cogumelos... Era lindo!
Tinham também algumas mesas de madeira pelo meio do jardim florido. E era de lá que vinham as vozes que eu ouvira quando estava na escadaria. 8 pessoas. Todas com roupas brancas, cintos de prata e com tiaras na cabeça que também eram de prata. Eles pareciam guerreiros. As peles de tom escuro brilhavam à luz do sol. Eram lindos. Nunca os vira antes. Eles estavam em volta da mesa de madeira olhando um pergaminho. Deviam estar bolando um plano para combater os assassinos que estavam lá em cima, na aldeia. Uma das mulheres olhou para mim e sorriu, como um gesto acolhedor. Mas rapidamente se voltou para o pergaminho aberto na mesa de madeira.
— Venham, depressa! A mãe de vocês está no aguardo. — Elizabeth falou, andando rápido na minha frente.