Capítulo 4 - Um passeio na floresta

2454 Words
Sienna seguiu Alvar Caputo por uma trilha estreita demais para duas pessoas caminharem lado a lado. "Por que escolheu caminhar?" ela perguntou, seguindo-o. "Porque no meio da cidade, o mundo escuta. Todas as paredes têm ouvidos, todas as telas têm olhos, e todos são espiões. Entrar em Los Angeles é complicado para mim. O software de reconhecimento facial do governo me identificaria em uma multidão se eu não o adulterasse o suficiente. Eu vivi quarenta anos neste planeta sem ser preso. Não pretendo ser agora." Ele acenou para a paisagem ao redor. "Caminhar na floresta, em uma trilha pouco conhecida, sem dispositivos, nos permite conversar livremente, sem medo de sermos ouvidos", ele apontou. "Também tenho um programa satélite nesta área que interrompe o serviço celular. Mesmo que encontremos alguém, o telefone deles não funcionará, limitando qualquer transmissão ao vivo ou chamadas, e meus homens estão por perto, prontos para intervir se necessário." "Entendi", ela considerou suas palavras. "Você controla satélites?" "Sim." Ela sorriu para ele quando ele olhou para trás, "é impressionante." "Não é apenas impressionante, é muito impressionante", ele respondeu animado. "Ela é como?" ela perguntou de repente, quebrando o silêncio após vários minutos de caminhada em direção a um destino desconhecido. "Quem?" "A namorada de Jonas", ela engoliu em seco. Por que ele não tinha mencionado isso antes? "Você realmente quer saber?" "Sim." Não. Ela preferia não saber. Ela concordou externamente enquanto internamente sacudia a cabeça em frustração. "Ela é alta, loira, magra, trabalha como bartender e garçonete. Ela é extrovertida, barulhenta, e de acordo com minhas fontes, os vizinhos do prédio de apartamentos reclamaram várias vezes sobre o barulho que ela faz durante o sexo. Ela é, de acordo com o que observei ontem à noite, uma mulher muito vocal." Ela parou e o encarou. "Eu não precisava de todos esses detalhes. Você poderia ter parado em 'bartender'." "Sim, mas você precisa saber a verdade antes de seguir em frente. Minha intuição diz que ele não te contou sobre ela, porque terminou com ela ontem à noite. Hoje ele disse que quer recomeçar do zero, como se hoje fosse o primeiro dia do relacionamento de vocês. Isso significa que tudo o que ele fez até ontem é coisa do passado." "Ele não faria isso." "Vou verificar com você em uma semana. Quando isso acontecer, me avise se ele te contou." Ele parou no topo de uma pequena colina e olhou para ela enquanto ela subia atrás dele. "Ou você vai confrontá-lo?" "Você acha que eu deveria esperar que ele me conte?" "Acredito que você vai esperar para sempre antes que ele conte por livre e espontânea vontade." Ela gemeu, "não posso dizer nada?" "Nada demonstra mais a confiabilidade de alguém do que conhecer um de seus segredos e esperar para ver se ele confessa." "Eu acho que sim", resmungou. "Mas eu não entendo. Ele sabia como eu me sentia desde o momento em que ele descobriu a verdade. Ele me beijou naquele dia. Ele tem me repreendido por dois meses sempre que converso com outra pessoa ou me envolvo em atividades que ele não gosta, mas ele tinha uma namorada?" "Diria que é uma daquelas situações em que alguém projeta seu próprio comportamento em seu parceiro. Ele nunca acreditou que conseguiria ficar com a garota, e agora que a oportunidade surge, o momento está errado porque ele está de volta com a namorada intermitente. Ele a acusou de se comportar de forma inadequada, dançando e tomando café com outros homens, porque ele próprio estava envolvido com outra mulher." Ele estendeu a mão para ajudá-la a subir até o planalto. "Você está fora de forma." Ela colocou as mãos nos quadris e o encarou, "Não estou. É falta de oxigênio. Devemos estar em um local alto." "Você está fora de forma porque nos últimos meses não subiu escadas na biblioteca nem dançou em clubes. Eu tenho vários clubes e salões. Se quiser apenas dançar, posso providenciar." "Estou bem, obrigada. Miklos tem Laskaris, e ele tem uma barra em uma das cabines." "Sim, mas você precisa manter suas roupas lá." "Eu não gostei de dançar sem a blusa." Ela franziu a testa para ele. Seus olhos passaram por ela, de cima a baixo, "você está mentindo." "Como é?" ela notou pela primeira vez uma pequena cicatriz ao longo da borda do olho dele, que desapareceu quando ele sorriu para ela, como está fazendo agora. "Você está mentindo. Você não gosta de como os homens te olham ou jogam dinheiro em você, mas gosta da sensação de liberdade ao assumir o controle do seu corpo e dançar. Você gosta de como seus s***s mexem quando você dança." "Oh", ela o empurrou e continuou caminhando mais adiante na trilha. "Me conte sobre a mulher que roubou o seu dinheiro. O que você lembra sobre ela?" "Ela tinha minha altura. Loira. Olhos verdes. Era um pouco maior do que eu, talvez dez ou quinze quilos mais pesada do que eu era naquela época, então talvez por volta de sessenta quilos?" Ele a observou, "você não pesa sessenta e cinco quilos." "Eu disse naquela época!" ela rosnou enquanto ele dava um sorriso largo. "Sua b***a claramente faz você parecer ter uns sessenta e oito quilos." "Cala a boca!" ela gritou enquanto se virava para encará-lo. "Você não é gentil." "Imagina", ele zombou dela. "O que mais você lembra?" "Ela cheirava estranho." Ela odiava a maneira como isso soava. "Ela sempre cheirava a suor e alho." "Alho?" ele franziu a testa com sua descrição. Ela fez uma careta. "Minha avó ensinou minha mãe a cozinhar. Um dos meus pratos favoritos que minha mãe costumava fazer era um camarão Fra Diavolo. Era muito cheio de alho. Na primeira vez que conheci a enfermeira, eu me perguntei se ela também tinha uma avó italiana." Ela suspirou. "Mas o cheiro nunca desapareceu. Nunca. Era como se ela tivesse embalado suas roupas e as guardado nele." Ele riu. "Eu tinha uma avó, e a cozinha dela sempre cheirava a tomate e alho. Sempre." "Sim, bem, a desgraçada arruinou o alho para mim." "Você precisa recuperá-lo", ele estava caminhando com passos largos como se estivesse apenas passeando em um caminho perfeitamente plano, sem uma gota de suor em seu corpo. "A vida é muito curta para não comer alho." "Tenho quase certeza de que o ditado é que a vida é muito curta para não comer bolo." "Concordaremos em discordar." Ele notou sua respiração ofegante e fez um gesto para ela se sentar em uma grande pedra. "Ela era loira, fedorenta e maior do que você. Você me deu o nome dela, Melissa, que você supôs ser um nome falso, quando conversamos rapidamente ontem. Quantos anos ela tinha? Mais ou menos." "Eu tinha dezoito anos. Naquela época, qualquer pessoa com mais de vinte e cinco anos parecia velha. Ela tinha pelo menos trinta, talvez um ano a mais, mas eu era péssima em julgar idade." Ela mexia na casca do tronco caído perto de onde estava sentada. "Eu não sou boa em observar pessoas de perto. É por isso que eu estudo civilizações passadas e as comparo com as atuais. Prefiro estudar textos do que uma pessoa real. Há algumas pessoas com as quais me sinto à vontade o suficiente para olhá-las tempo suficiente para reconhecê-las em uma fila. Minha mãe. Estudei cada aspecto do rosto dela, até aquela pequena sarda que ela tem do lado do nariz. Dimi, Darya, Magda, eu conheço seus rostos. Aposto que eu também consigo desenhá-los vendada. Jonas também, eu aposto. Há alguns colegas de classe com quem estive durante quatro anos e fiz trabalhos com eles. Aposto que eu posso identificá-los." Ela esfregou as mãos nos joelhos. "Mas o resto do mundo, eu não consigo me conectar. É difícil pra mim fazer pequenas conversas ou manter contato visual." "Por quê? Eu nunca tive esse problema. Estou curioso para saber por que você é tão tímida?" Ela olhou para os sapatos caros dele, encarando os cadarços pretos. "Meu pai." "Seu pai? Sua certidão de nascimento dizia pai desconhecido." "Minha mãe colocou isso lá para me proteger, eu acho. Meu pai, segundo ela, não era um homem bom. Ela disse que quando eu tinha cerca de três ou quatro anos, ele veio até a casa. Eu não me lembro disso, mas eu acho que olhei diretamente para o rosto dele, bem nos olhos, e ele me bateu. Minha mãe disse que ele tinha uma regra sobre contato visual. Eu não sei o nome dele. Eu não sei como eles se conheceram ou para onde ele foi. Tudo o que sei é que eu o conheci uma vez, fiz contato visual e ele me bateu por isso. Minha mãe disse que eu virei uma garotinha diferente depois disso, sempre com medo de olhar alguém nos olhos. Eu tentei superar, mas cresci em uma cidade pequena, não tive realmente amigos enquanto crescia, minha mãe me deixava sozinha com frequência, porque não tinha uma babá enquanto ela trabalhava, e o medo que ele colocou em mim, tudo isso deixou impressões. Eu sou introvertida e tudo bem para mim." Ela protegeu os olhos do sol quando olhou para cima para ele. "É aqui que você me diz que eu preciso amadurecer e abrir meus olhos?" "Não", ele franziu o rosto olhando para ela, balançando nos calcanhares. "Você não pode mudar quem você é assim como não pode mudar a pedra em que está sentada." Ele inclinou a cabeça. "Você se lembra do nome do seu pai?" "Damien. Não sei o sobrenome. Não tenho vontade de procurá-lo ou descobrir qualquer coisa sobre ele." Ela sacudiu a cabeça com raiva. "Ele não era um homem bom. Minha mãe mandou ele ir embora e nunca mais voltar. Eu sei que ele visitou algumas vezes, mas nunca quando eu estava lá. Sempre sabia porque ela se movia devagar. Tenho certeza de que ele a machucou." Ela sussurrou. "Cerca de um ano atrás, eu estava sentada com ela no quarto dela no asilo em Boston e um dos enfermeiros, da minha idade, talvez um pouco mais jovem, devia parecer com o meu pai quando ele era mais jovem. Ela entrou em pânico e tentou me fazer me esconder debaixo da cama. Eles tiveram que implementar uma regra para que esse cara não trabalhasse na ala dela porque ela entrava em pânico sempre que ele passava. Ele ficou m*l é claro, mas não foi culpa dele." "Como ela está agora? Você a visitou hoje?" "Não. Eu deveria ter ido depois de me encontrar com o Jonas." Ela lhe deu um sorriso meio de lado, "bem, você acha que pode encontrá-la?" "Uma mulher com nome falso, cabelo loiro e cheiro de alho. Não é muito para começar, mas vou ver o que posso fazer." Ela deu risadinhas, "posso te perguntar algo? Agora que estamos no meio do nada? Só entre nós? Eu sei guardar segredos e estou realmente curiosa." "Não posso prometer responder, mas você pode perguntar qualquer coisa." "Você está apaixonado por Magda Onassis?" "Não." Ele balançou a cabeça seriamente. "Você sente atração s****l por ela?" "Eu sinto atração s****l por muitas mulheres", ele deu de ombros. "Isso não significa que seja amor, Sienna." "Então o que é? Por que você ainda a segue?" "Na verdade, não a estou seguindo, mas para responder à sua pergunta, Magda é uma pessoa genuinamente doce e tenho muito respeito por ela. A forma como ela consegue lidar com as merdas que pessoas como Darya Pappas jogam nela e ainda assim se sobressai, me deixa curioso para saber como ela faz isso." "Você sabe que Darya não é a vaca que você acha que ela é, não é?" Ele bufou incrédulo. "Você não acha?" "Eu sei que ela não é. Ela é direta, vou dar isso a você, e muitas vezes diz coisas que nos fazem parar e prestar atenção, mas noventa e nove por cento do tempo, ela está certa. Sua maneira de falar não é perfeita, inferno, nem mesmo boa, mas quando ela diz algo, seja nos chamando para fora por besteiras ou apontando quando as besteiras de outra pessoa estão afetando negativamente um de nós, ela quase sempre está certa. Ela nos ama. Você não a viu quando levou a Magda. Ela e Magda são como duas peças de um quebra-cabeça se encaixando. Elas discutem muito, brigam constantemente e implicam como duas menininhas, mas é só porque uma encontra na outra as irmãs que gostariam de ter tido na infância." "Onde você se encaixa?" ele perguntou baixinho. "Além de ser a sósia da Dimitra." "Fui colega de quarto da Magda no primeiro semestre da faculdade. Ela descobriu que, se me desse álcool, eu me transformava em uma festeira. Eu poderia falar sem parar. As meninas me acolheram e me tornaram parte do grupo." Ela sorriu suavemente, "elas fizeram tantos sacrifícios por mim ao longo dos anos. Darya uma vez trabalhou dezoito horas seguidas no clube para pagar a estadia no hospital da minha mãe. Ela tinha uma prova no dia seguinte e tirou um 10. Elas me salvaram várias vezes, minha mãe também. Eu morreria por qualquer uma delas." Suas sobrancelhas escuras se ergueram, e ele a encarou seriamente, "são palavras fortes. Se eu colocasse uma arma na sua cabeça agora e dissesse para escolher entre você e a Dimitra, o que você diria?" Ela se sentou com a pergunta, de repente insegura se era hipotética, "você tem algum problema com ela?" "Nada em especial, mas ela tem investigado meu passado. Ela não gosta de ser impedida. No entanto, se o homem que está vigiando-a agora recebe a ordem de colocar a bala na cabeça dela ou você leva a bala, quem leva a bala?" "Eu levo", ela disse decisivamente. "Ela tem toda a vida pela frente. Ela tem marido, família para cuidar e uma família para planejar. Eu sou dispensável. Ela não é." Ela acenou para o paletó dele, "é aqui que você saca uma arma e participa desse teste?" "Não. No entanto, esta é a parte do dia em que começamos a caminhar de volta. Eu tenho as informações que preciso para começar. Você precisa voltar para seus amigos." A caminhada de volta foi em silêncio, mas não desconfortável. Mais de uma vez ele a ajudou a passar por uma raiz de árvore ou a pular pequenas inclinações, mas não houve palavras. O silêncio foi mantido no carro até que estivessem quase no centro da cidade. Ela olhou para cima quando a divisória da janela subiu e uma nuvem de fumaça explodiu em seu rosto, vinda do que ela pensou ser um alto-falante. Seus olhos ficaram pesados e ela rapidamente sucumbiu ao sono induzido pela droga sem sonhos.
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