Oliver.
Eu acordo antes do despertador.
Não porque preciso.
Mas porque penso nela.
Imagino Kate despertando no pequeno apartamento acima do pub — o quarto ainda meio escuro, a luz da manhã entrando tímida pelas frestas da cortina. Ela deve se virar na cama primeiro, irritada com o frio. Kate odeia sair debaixo das cobertas. Sempre demora alguns minutos até aceitar o dia.
Consigo vê-la passando a mão pelo rosto, os cabelos espalhados no travesseiro, os olhos ainda pesados de sono. Talvez ela fique alguns segundos olhando para o teto, respirando fundo, como se organizasse os próprios pensamentos antes de levantar.
Será que pensa em mim?
A ideia me atravessa como uma pontada incômoda.
Ela finalmente se senta na cama. Imagino seus pés tocando o chão frio, o arrepio subindo pelas pernas. Kate não é do tipo que reclama em voz alta. Ela suporta. Sempre suporta. Mas eu sei reconhecer o momento exato em que ela fecha a expressão e decide que o mundo não vai vê-la vulnerável.
Ela atravessa o quarto, entra no banheiro, liga o chuveiro. Vapor subindo. Silêncio quebrado apenas pela água caindo. Talvez encoste a testa no azulejo por um segundo, talvez respire fundo de novo.
E então ela se recompõe.
Quando sai do banho, já não é a mulher sonolenta. É a versão que o mundo conhece.
Escolhe as roupas com precisão. Nada muito chamativo. Nada que pareça esforço demais. Shorts escuros, meia-calça, blusa justa o suficiente para marcar o corpo — não por vaidade, mas porque ela sabe o efeito que causa e prefere controlar isso a fingir que não existe. O avental do pub dobrado sobre a cama como um uniforme de guerra.
Ela prende o cabelo.
Passa batom.
Se encara no espelho.
Eu conheço aquele olhar.
Desafio.
Independência.
E uma teimosia que me provoca mais do que deveria.
Hoje ela vai trabalhar.
E eu não vou estar lá.
Decidi isso enquanto a madrugada ainda estava alta. Não aparecerei esta noite. Nem amanhã. Talvez nem depois.
Não é desistência.
É cálculo.
Eu sempre estive ali — encostado no balcão, pedindo uma bebida que m*l toco, observando cada movimento dela. O jeito como seca os copos. O modo como evita meu olhar por segundos demais. A tensão no maxilar quando percebe que estou analisando mais do que o cardápio.
Ela finge que não se importa.
Mas o corpo dela denuncia.
E eu quero ver o que acontece quando eu sumir.
Quando ela erguer os olhos esperando me encontrar no mesmo lugar de sempre… e eu não estiver.
Quero saber se vai sentir alívio.
Ou falta.
Cruzo os braços diante da janela, observando a rua que leva ao pub. Sei o horário exato em que ela sai. Sei o ritmo dos passos dela.
Eu poderia ir.
Poderia continuar o jogo de provocações silenciosas.
Mas não vou.
Porque às vezes a ausência fala mais alto do que qualquer palavra.
E quando eu voltar — porque eu vou voltar — quero que o reencontro não seja casual.
Quero que seja inevitável.
Eu voltei ao trabalho como se nada tivesse acontecido.
Como se não tivesse passado um dia inteiro com Kate na minha cama, perdendo completamente o controle — da razão, do tempo, de mim mesmo. Como se a memória do corpo dela contra o meu não estivesse marcada na minha pele.
Tomei banho frio. Coloquei um terno impecável. Ajustei os botões do punho com a mesma precisão de sempre.
Chefe.
É isso que eu sou ali.
Quando entro no pub, o cheiro familiar de madeira, álcool e conversa baixa me recebe. Tudo parece igual.
Menos ela.
Kate está atrás do balcão, anotando um pedido. O cabelo preso. A postura firme. Profissional. Intocável.
Mas eu sei.
Eu sei como ela soa quando perde o fôlego.
Sei como os dedos dela agarram meus ombros.
Sei o gosto da pele dela.
E ainda assim… aqui dentro, eu não posso saber nada disso.
Ela sente minha presença antes mesmo de me ver. Eu percebo pelo modo como o corpo dela enrijece por um segundo quase imperceptível.
Então ela levanta os olhos.
E eles se cruzam com os meus.
O mundo não para.
A música continua.
Os clientes seguem falando.
Mas entre nós dois, algo vibra.
O olhar dela não é suave. Também não é arrependido.
É intenso.
Quente.
Controlado com esforço.
Eu mantenho a expressão neutra. Fria. Avaliadora. Como faço com qualquer funcionário. Dou um leve aceno de cabeça — o suficiente para reconhecer que ela está ali, fazendo o trabalho dela.
Nada mais.
Nenhum sorriso.
Nenhuma aproximação.
Porque ali eu sou o chefe.
E ela é minha funcionária.
Kate desvia o olhar primeiro. Volta a servir as bebidas como se não tivesse passado a madrugada inteira presa nos meus braços. Como se eu não tivesse decorado cada reação dela.
Mas os dedos dela apertam o pano com força demais.
Eu percebo.
E ela sabe que eu percebo.
Eu sigo até o escritório no fundo do pub, cada passo calculado, a mandíbula rígida. A disciplina é a única coisa que mantém tudo sob controle.
Mas enquanto fecho a porta atrás de mim, uma verdade ecoa clara na minha mente:
O fato de não podermos nos tocar aqui…
Só torna a espera insuportavelmente mais deliciosa.
Eu tentei ficar no escritório.
Tentei me concentrar em números, fornecedores, relatórios que normalmente eu resolveria em minutos. Mas cada som do lado de fora me distraía. Cada vez que a porta do salão abria, eu pensava que podia ser ela entrando.
Ridículo.
Eu sou o chefe. Tenho controle sobre tudo aqui.
Exceto sobre ela.
Quando vejo pelo monitor que Kate desaparece do balcão e segue pelo corredor estreito que leva ao banheiro dos funcionários, eu já estou de pé antes mesmo de perceber a decisão sendo tomada.
Não penso.
Só vou.
O corredor está vazio. A música do salão chega abafada. Bato uma vez na porta do banheiro feminino — não por educação, mas por aviso — e entro logo em seguida.
Ela está diante do espelho.
Sozinha.
Os olhos dela encontram os meus pelo reflexo. Não há surpresa ali. Só aquela tensão elétrica que sempre surge quando estamos a menos de um metro de distância.
— Isso é uma péssima ideia — ela diz, mas não se afasta.
Eu fecho a porta e giro a chave.
— Concordo.
Dou dois passos até ela.
O ar fica pesado. Íntimo demais para um lugar tão pequeno.
Sem desviar o olhar, levo a mão até o elástico que prende o cabelo dela. Puxo devagar. Os fios caem pelos ombros em uma cascata desordenada. Do jeito que eu gosto.
Do jeito que estavam ontem.
Os dedos dela apertam a borda da pia, mas ela não manda eu parar.
Eu seguro a nuca dela, inclino o rosto e a beijo.
Não é delicado.
É contido.
O tipo de beijo que tenta esconder a urgência, mas falha miseravelmente. A boca dela se abre para mim com a mesma fome que reconheci durante aquelas horas intermináveis na minha cama.
Minha outra mão desliza pela cintura dela, contorna o quadril e aperta a curva da b***a por cima do tecido do uniforme.
Ela solta um som baixo contra minha boca.
— Oliver… — é um aviso fraco.
Eu pressiono o corpo contra o dela por um segundo a mais do que deveria. Só para lembrar. Só para marcar.
Então me afasto.
Respiro fundo.
Endireito o próprio terno como se estivesse apenas ajustando um detalhe banal.
Ela está ofegante, os cabelos soltos, os lábios mais vermelhos do que deveriam estar.
Eu me aproximo de novo, mas apenas para falar baixo no ouvido dela:
— Cinco minutos. Depois você volta para o balcão como se nada tivesse acontecido.
Destranco a porta primeiro e saio.
Ela espera.
Inteligente.
Quando finalmente caminhamos de volta pelo corredor, há alguns metros de distância entre nós. Profissionais. Impecáveis.
Mas Connor está encostado perto do estoque, braços cruzados.
Meu primo.
Os olhos dele descem para o cabelo solto de Kate. Depois para mim. Depois para ela de novo.
Ele não é burro.
Um canto da boca dele ameaça subir, mas ele segura.
Fica em silêncio.
Não diz uma palavra.
Eu sustento o olhar dele por um segundo — firme, claro, direto.
Connor entende o recado.
Ele apenas descruza os braços e volta para o salão como se não tivesse visto absolutamente nada.
Kate retorna ao balcão.
Eu sigo para o escritório.
E o pub continua funcionando como sempre.
Só que agora, todo mundo que realmente importa sabe que há algo acontecendo.
E ninguém ousa comentar.