Kate.
— Existe outro artigo?
A pergunta paira entre nós como uma lâmina suspensa por um fio.
— Não.
Minha voz sai firme, mas não fria. Ele não me conhece o suficiente para perceber a diferença.
— Mas poderia haver.
Ele não está me acusando. Está constatando. Isso é pior.
Oliver respira fundo, passando a mão pela nuca como faz sempre que está tentando manter o controle.
— Poderia — ele admite. — Há uma razão para eu não ter enviado os outros para edição. Eu escrevi porque me comprometi como jornalista. Escrevi porque era catártico. Porque transformar você, sua organização, seus segredos… em palavras era a única forma que encontrei de manter distância. Mas, antes mesmo de te ver naquela noite, eu já sabia que iria desistir. Eu encontraria um jeito de dizer ao meu editor que não podia continuar.
Ele se afasta meio passo, como se confessar isso exigisse espaço.
— O editor-chefe era contra desde o início. Disse que era perigoso demais, que mexer com você era brincar com dinamite. Meu supervisor direto me deu permissão. Só ele sabia da extensão do projeto. Só ele leu os rascunhos completos. E alguém quis te machucar ainda mais do que eu quis.
Eu passo a mão pelo cabelo, sentindo os fios se embolarem entre meus dedos. Meu couro cabeludo arde, como se a tensão tivesse se alojado ali.
— Kate… eu sei que você se encontrou com Sergei e Anton. Eles não são o vazamento.
— Eu sei.
A palavra pesa. Porque saber não significa entender. E entender não significa estar segura.
Quando abro os olhos novamente, sinto a tristeza ali. Não pela vingança que construí por anos. Não pelos artigos que escrevi com tanta precisão quase c***l. Mas pela possibilidade de perdê-lo agora que, pela primeira vez, ele está ao meu alcance sem mentiras entre nós.
— Você disse que há um futuro — murmuro. — Como?
Ele não desvia o olhar. Não há ironia, nem superioridade. Só convicção.
— Porque há. Se você quiser.
O “se” é delicado, mas real. Ele não me prende. Não me exige.
— Como você pode me perdoar?
Ele não hesita. Não calcula.
— Você pretende me machucar de novo?
— Não.
A resposta sai antes mesmo de eu pensar. É instintiva. É verdadeira.
Ele se aproxima, reduzindo o espaço até que eu possa sentir o calor que irradia do corpo dele. Não é uma ameaça. É uma presença.
— O que você quer, minha pequena?
A palavra me atinge no peito. Não como posse. Como cuidado.
Eu engulo em seco.
— Você.
É a primeira vez que digo isso sem raiva misturada.
Ele me puxa para o colo, com naturalidade, como se esse fosse o lugar onde sempre estive destinada a ficar. O calor do corpo dele é real. Sólido. Nada como o fantasma que eu persegui por anos, alimentando ódio para sobreviver. Nada como a imagem distorcida que eu construí para justificar cada passo que dei.
Seus braços se fecham ao meu redor. Não com força. Com firmeza.
Eu apoio a testa na dele.
— Oliver… o que isso significa?
Ele fecha os olhos por um instante, como se saboreasse o fato de que estou ali.
— Significa que vamos descobrir juntos. Sem mentiras. Sem jogos. Pela primeira vez.
Eu hesito.
— Eu disse que me sentia observada…
O maxilar dele endurece.
— Aqueles não eram meus homens na sua rua. Eu sabia que algo estava errado quando descobri seus encontros com Anton e Sergei. Eu não confiava em ninguém ao seu redor. Mas quem vazou seus artigos… pode ser mais perigoso. Eles podem te machucar para me atingir.
— Ninguém vai me intimidar.
Ele segura meu queixo com delicadeza, obrigando-me a encará-lo.
— Pode não ser intimidação. Pode ser uma ameaça real.
O peso das palavras desce pela minha coluna.
Se essa pessoa acha que sou fraca depois de me infiltrar na sua organização, trabalhar com a bratva e publicar aqueles artigos… vai se decepcionar.
Os olhos dele escurecem.
— Sua coragem não é o problema. Sua falta de cooperação pode te colocar em mais perigo.
Eu me afasto o suficiente para respirar melhor.
— Eu já escolhi. Não vou continuar com esses textos. Não vou terminar os outros. Se isso significa ficar do seu lado… então é isso que vou fazer.
O silêncio que se segue é avaliador. Ele me estuda como se estivesse lendo um relatório invisível no meu rosto. Procurando inconsistências. Medindo riscos.
Eu sustento o olhar.
Ele acredita.
Vejo no modo como seus ombros relaxam apenas um pouco.
— Eu ainda tenho medo pela sua segurança — ele admite, mais baixo. — Otávio, Alessandro e Tommy te seguiram porque estavam furiosos. Foi iniciativa deles. Eu deixei claro pra você que não era uma ordem minha. Mas eu vi o medo nos seus olhos naquela noite. Não era por eles. O que está acontecendo?
Demoro a responder. Porque dar forma ao medo é convidá-lo a ficar.
— É intuição — digo por fim. — Um pressentimento de que alguém está mais perto do que seus homens jamais estiveram. Não é algo que eu consiga explicar. Só… sinto.
Ele fica rígido sob mim.
— Quero que você aceite uma equipe de segurança. Você não vai a lugar nenhum sem mim ou um homem da minha família.
— Sua família vai me odiar.
A imagem é clara: olhares frios, sussurros, desprezo.
— Eu não me importo — ele responde, sem hesitar. — Eu comando esta família.
Eu o encaro.
— E se algo acontecer com você? Se você for preso? Baleado? Se alguém decidir que te tirar do caminho é mais fácil do que me usar contra você?
O silêncio que se instala é espesso.
Ele não gosta de cenários onde não está no controle.
Mas eu vi algo.
Algo mínimo.
Eu congelei.
Foi menos de um segundo. Um reflexo involuntário. Mas ele percebeu.
Seus olhos se estreitam.
— Kate.
Meu coração dispara.
Há uma razão.
Há sempre uma razão.
— O que foi isso? — ele pergunta, agora com a voz baixa demais.
— Nada.
— Não minta para mim.
Eu fecho os olhos por um segundo, buscando equilíbrio.
— Você quer me proteger? — pergunto, desviando.
— Quero.
— Então confie em mim quando eu digo que não é algo que eu possa explicar ainda.
— Ainda. — A palavra escapa antes que eu consiga segurá-la.
Ele percebe.
— Ainda?
Droga.
Eu me levanto do colo dele, andando até a janela para ganhar tempo. A rua lá embaixo parece tranquila demais. Normal demais. Como se o mundo não estivesse à beira de virar do avesso.
— Quando comecei isso — digo, sem me virar — eu tinha um plano. Cada passo calculado. Cada aproximação estratégica. Eu sabia exatamente o que estava fazendo.
— E agora?
— Agora… não sei mais onde termina o plano e onde começa o que eu sinto.
Ele se levanta também. Sinto sua presença atrás de mim, próxima, mas sem tocar.
— Isso não respondeu à minha pergunta.
Eu seguro o parapeito com força.
— E se o vazamento não for apenas sobre os artigos? E se alguém souber de algo que você não sabe? Algo que possa te destruir não por fora… mas por dentro?
O ar muda.
Ele não responde imediatamente.
— Você está me escondendo algo.
Não é uma acusação furiosa. É uma constatação fria.
Eu me viro lentamente.
— Se eu estivesse… você ainda diria que há um futuro?
Ele me observa como se estivesse desmontando cada camada da minha pergunta.
— Depende do que é.
Eu rio, mas não há humor.
— Claro que depende.
Ele se aproxima mais uma vez.
— Você acha que eu não sobrevivi a traições antes? Que eu não lidei com segredos piores? Eu posso enfrentar muita coisa, Kate. O que eu não posso enfrentar é ser mantido no escuro por você.
Isso atinge.
Porque foi exatamente isso que fiz desde o começo.
— Eu não queria que chegasse a esse ponto — sussurro.
— Que ponto?
Eu o encaro. E, por um segundo, quase conto tudo. Quase deixo cair a última peça que falta. Quase destruo o equilíbrio frágil que acabamos de construir.
Mas o medo me segura.
Não por mim.
Por ele.
— O ponto em que eu teria que escolher entre a minha vingança… e você.
Ele não pisca.
— E o que você escolheu?
Eu dou um passo em direção a ele.
— Você.
A palavra ecoa no quarto como uma promessa e uma sentença ao mesmo tempo.
Ele segura meu rosto com as duas mãos, os polegares quentes contra minhas maçãs do rosto.
— Então confie em mim o suficiente para me deixar te proteger.
Eu fecho os olhos sob o toque dele.
Quero confiar.
Quero acreditar que, seja o que for que esteja vindo, podemos enfrentar juntos.
Mas há algo que ele ainda não sabe.
Algo que pode transformar tudo isso — esse começo, essa possibilidade de futuro — em ruína.
Eu sinto novamente aquele frio na espinha.
A sensação de estar sendo observada não apenas de fora… mas por alguém que conhece movimentos demais. Que sabe demais.
— Kate.
Abro os olhos.
Ele está me estudando outra vez.
— Quando eu descobrir o que você está escondendo — ele diz, com calma perigosa — eu preciso que seja porque você escolheu me contar. Não porque fui forçado a arrancar de você.
Meu coração tropeça.
Há uma razão.
Há sempre uma razão.
E, pela primeira vez desde que comecei essa jogo de vingança, eu não sei se quero que ele descubra a verdade.
Porque quando ele descobrir…
Quando entender a peça que ainda está fora do tabuleiro…
Santa Mãe.
Nada disso vai permanecer como está.