Kate.
Acordar com Oliver na cama é diferente de tudo que eu imaginei.
Não há tensão imediata. Não há frieza calculada. Não há aquele silêncio estratégico que ele costuma usar como armadura.
Há calor.
O braço dele está pesado sobre a minha cintura, a respiração lenta contra meu pescoço. Por um momento, fico imóvel, apenas sentindo. Como se qualquer movimento pudesse quebrar algo raro.
Ele desperta antes que eu consiga decidir se devo me afastar.
Os dedos dele deslizam devagar pelo meu braço, num carinho distraído, quase… tímido. Oliver não é um homem tímido. Mas aquele toque é diferente. Não é posse. Não é controle.
É cuidado.
Ele se inclina e beija minha têmpora, depois a linha da minha mandíbula. Um beijo suave demais para um mafioso implacável.
— Bom dia, pequena — ele murmura, com a voz ainda rouca de sono.
Eu engulo em seco.
— Bom dia.
Ele me observa como se estivesse estudando uma obra delicada demais para tocar. Depois sorri de lado.
— Vou fazer o café da manhã.
Eu quase rio.
— Não precisa.
— Eu quero.
Há algo estranho na forma como ele diz isso. Não é obrigação. Não é uma tentativa de impressionar. É… escolha.
— Desde quando você faz café da manhã para alguém?
Ele fica quieto por um segundo. O olhar escurece, mas não de forma ameaçadora. É introspectivo.
— Nunca fiz.
Eu arqueio a sobrancelha.
— Oliver.
Ele solta um pequeno sopro de riso.
— Nunca acordei com uma mulher antes.
— Isso é impossível.
— Dormir ao lado de alguém significa baixar a guarda. Significa permitir que vejam você quando não está no controle. E eu sempre estive no controle.
Ele toca meu rosto de novo, o polegar traçando meu lábio inferior.
— Nunca fiquei.
A palavra pesa mais do que deveria.
Eu quero duvidar. É lógico que quero. Um homem como ele, com o poder que tem, com a reputação que carrega… nunca acordou com ninguém?
Mas quando olho nos olhos dele, vejo algo que não sei nomear.
Vulnerabilidade.
Não completa. Não desarmada.
Mas real.
— Você quer que eu acredite que sou a primeira?
— Quero que acredite que é a primeira que eu quis que estivesse aqui de manhã.
Isso me desmonta mais do que qualquer declaração grandiosa.
Ele se inclina e encosta a testa na minha.
— Eu não faço coisas “normais”, Kate. Nunca trouxe mulheres para dormir aqui. Não faço café. Não acordo… assim.
O silêncio que se instala é diferente dos outros que já tivemos.
Não é tenso.
É novo.
Eu estudo o rosto dele, procurando sinais de manipulação, jogo, estratégia. Não encontro nenhum.
O que encontro me intriga.
Porque há verdade ali.
E talvez seja isso que mais me assuste.
Oliver não está tentando ser o monstro que eu esperava.
Ele está tentando ser um homem.
E eu ainda não sei o que fazer com isso.
— Eu quero ficar mais um pouco.
Assim que as palavras saem, sinto o peso delas. Fecho os olhos. É diferente dizer isso olhando para ele. Diferente porque ele não parece o monstro que eu construí na minha cabeça durante todos esses anos.
— Por que você não pôde ser o monstro que deveria ser? — eu sussurro. — Por que é tão… normal, Oliver? Tão gentil?
Ele passa a mão pelo rosto, exausto.
— Ao contrário do que você escreveu sobre mim, eu não acordei um dia e decidi me tornar isso. — A voz dele é baixa, controlada. — Eu herdei uma guerra. Não tive escolha em assumir o comando. Mas tenho escolha sobre o tipo de homem que sou enquanto lidero.
Eu sustento o olhar dele.
— E as outras famílias? As que caíram depois que você assumiu?
Um músculo da mandíbula dele se contrai.
— Aquilo já estava em curso antes de mim. Dois homens iniciaram aquela avalanche. Eu apenas impedi que ela soterrasse os meus. — Ele inclina levemente a cabeça. — Você sabe disso. Investigou o suficiente para saber.
O golpe é preciso. Ele está dizendo: eu sei que foi você.
Meu peito aperta.
— Então por que estou aqui? — minha respiração falha por um segundo. — Se eu fosse um homem… já estaria morta.
Ele dá um passo à frente. Não há fúria. Isso seria mais fácil. Há algo pior: conflito.
— Se você fosse um homem, eu teria eliminado a ameaça no momento em que descobri. Sem conversa. Sem explicação. — A voz dele endurece. — Mas você não é apenas uma ameaça.
Engulo em seco.
— Estou viva porque sou mulher?
Ele me encara demorando, como se estivesse decidindo o quanto revelar.
— Se você fosse homem, eu não teria perdido noites relendo cada linha que escreveu. Não teria tentado entender suas motivações. Não teria sentido… isso. — Ele passa a mão pelo próprio rosto, frustrado. — Parte de mim quer destruir você pelo que fez. A outra parte quer mantê-la exatamente onde está.
— Então é isso? — sussurro. — Atração?
Ele se aproxima o suficiente para que eu sinta o calor dele.
— É atração. É curiosidade. É o fato de você ter entrado na minha casa, na minha vida, na minha organização… e ainda assim ter ficado. — A voz baixa ainda mais. — Você não está viva só porque é mulher. Está viva porque eu não consigo decidir se você é minha inimiga… ou algo muito mais perigoso que isso.
O silêncio entre nós pesa.
Porque agora nós dois sabemos:
Ele poderia me matar.
E eu poderia destruí-lo.
E, ainda assim, estamos ali.