O sol já tinha virado brasa no céu do morro, descendo devagar entre as lajes e os fios embolados. O calor fazia o ar parecer pesado, e o cheiro de carvão, comida e cigarro se misturava em tudo. Era o tipo de tarde em que ninguém queria trabalhar — mas Jéssica, sim. Aquela mulher não deixava o cansaço vencer. Não podia. Era o primeiro sábado desde que começara a trabalhar no mercadinho, e ela já conhecia metade dos fregueses, o nome de dois dos vapores e a rotina de cada um que subia e descia o beco principal. Ninguém desconfiava dela — e isso era o primeiro sinal de que o plano tava funcionando. Enquanto passava o pano no balcão, o olhar dela varria o movimento lá fora. Um grupo de moleques rindo, um cara vendendo cigarro de procedência duvidosa, outro passando com um engradado de cervej

