Jane narrando
Quinze dias.
Quinze dias que pareceram meses. E, ao mesmo tempo, passaram voando igual vento. O Rio de Janeiro deixou de ser aquele lugar apertado no peito e virou só mais uma cidade. Quase.
O Guilherme apareceu praticamente todos os dias.
Não foi escroto. Não foi agressivo. Não foi ignorante. Não fez cena. Não gritou. Não ameaçou. Mas estava sempre ali. No fundo do restaurante, tomando um café que ele nem bebia. Do outro lado da rua, encostado no carro com os braços cruzados enquanto eu saía do salão. Parado perto da entrada do hotel, mexendo no celular, fingindo que não estava esperando. Sempre olhando. Sempre lá. Sempre presente.
Eu não sei se ele queria me amedrontar. Não sei se ele queria mostrar que sabia onde eu estava. Não sei se ele só queria estar por perto. Mas eu não dei espaço. Não parei. Não conversei. Não dei palco. Não alimentei o monstro.
Conversei com o Lucas e pedi para a gente trocar de hotel depois daquele dia que o Guilherme invadiu o quarto. Ele pediu para segurar mais dois dias, ver se o Guilherme voltava a aparecer no hotel. Como ele não apareceu mais, ficou tudo "normal". Continuamos aqui. No mesmo lugar. Nas mesmas paredes. Com o mesmo medo guardado na gaveta.
Apesar da tia Helena já ter providenciado um apartamento para mim na Barra da Tijuca. Minha mãe perguntou por que eu não escolhi uma casa. Mas eu e a tia Helena chegamos à conclusão de que apartamento seria mais seguro. Porteiro. Controle. Câmera. Monitoramento 24 horas. Vizinhos que não se metem. Quando eu sair daqui, vou ter um lugar fixo para voltar sempre que vier ao Rio. Um lugar que é meu. Um lugar que ele não conhece.
E, pela primeira vez desde que cheguei ao Rio… eu quase esqueci o medo.
Quase.
Semana de desfile sempre me dá aquele frio gostoso no pé da barriga. Aquela ansiedade boa. Aquela sensação de que eu tô viva, de que eu tô no meu lugar, de que eu nasci para estar ali. Fui para o spa. Fiz unha. Fiz cabelo. Fiz tudo o que eu precisava fazer para me sentir eu de novo. A Jane. Não a sobrevivente. Não a vítima. Não a fugitiva. A modelo. A mulher. A que escolheu estar ali.
A única coisa que eu não consegui esquecer…
Foi ele.
Vulcano.
Eu tentei falar com ele. Liguei. Esperei. Deixei tocar. Ninguém atendeu. E ainda não entendi por que ele não atendeu. Ele mesmo disse: "Se tiver em perigo, me liga." Eu não tava em perigo. Não tava sendo perseguida. Não tava sendo ameaçada. Eu só precisava conversar. Ouvir uma voz que não fosse de empresário, não fosse de segurança, não fosse de mãe preocupada. Só isso.
Tomei um banho demorado. A água quente escorrendo pelo corpo, levando embora a tensão, o cansaço, as horas de viagem. Coloquei o roupão branco do hotel. Sentei na frente da TV só de maior, com as pernas cruzadas, o cabelo ainda molhado, esperando a maquiadora e a cabeleireira chegarem para os toques finais.
Comi minha salada de fruta. Tomei um açaí que eu tava morrendo de vontade. Joguei a cabeça para trás no sofá e desliguei a TV por um instante.
O silêncio encheu o quarto.
Foi quando o telefone tocou.
Quando olhei na tela, o contato estava salvo com um V. Só a letra. Nada mais.
Respirei fundo. Segurei o telefone na mão. Deixei tocar. Uma vez. Duas. Na terceira, eu atendi.
Ligação On
— Desculpa aí não ter atendido antes. — A voz dele veio rouca do outro lado, pesada, diferente. — Eu precisava descarregar para esquecer uma mina.
Fiquei em silêncio um segundo. Processando.
— Descarregar? — respondi, a voz seca, direta. — Eu presumo que seja algo referente a algo fisiológico.
Silêncio do outro lado. O barulho de uma respiração pesada.
— Jane? — ele perguntou, como se não tivesse certeza se era eu.
— Eu mesma. — falei, sentindo um nó na garganta. — Mas não precisa mais. E desculpa atrapalhar o seu… descarregamento. Não foi minha intenção. Eu também não posso falar agora. Tenho que me preparar para o desfile.
— Espera aí, deixa eu falar… — ele tentou, a voz mais rápida.
— Não esquenta não. — cortei. — Não precisava ter se incomodado em retornar a ligação.
— Você ficou com raiva? — ele perguntou, direto.
— Não. — menti. — Não fiquei. Vou ficando.
Silêncio de novo.
— Que foi? — a voz dele mudou, ficou mais grave, mais séria. — Aquele arrombado do seu ex te incomodando?
— Pode deixar. — respondi seca. — Tô me virando. Há duas semanas eu tô me virando. Consigo me virar sozinha.
Desliguei.
Ligação Off
O telefone vibrou na minha mão. Ele ligou de novo. Desliguei. Vibrou outra vez. Desliguei de novo.
A campainha tocou.
Respirei fundo. Levantei. Abri a porta.
Era a maquiadora e a cabeleireira. As duas sorrindo, com os estojos nas mãos.
A gente conversou durante o processo. Elas perguntaram como eu tava.
— Dá para perceber que você tá mais tranquila. — a cabeleireira comentou, alisando uma mecha do meu cabelo. — Na semana passada você parecia uma pilha.
— Estou mais. — respondi, e era verdade.
Rimos. Falamos de moda, de desfiles, de fofoca. O clima ficou leve. Quase normal. Quase como antes.
Quando elas terminaram, foram até a porta. Agradeci. Dei tchau. Abri a porta para elas saírem.
Assim que elas passaram…
Eu senti a porta sendo segurada.
Meu estômago gelou na hora. O corpo travou. A respiração prendeu.
Guilherme.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, a voz saindo mais firme do que eu me sentia.
— Nada. — ele respondeu, com aquele sorriso calmo que eu conhecia bem demais. — Só vim te desejar boa sorte. E dizer que a gente se vê depois do desfile.
— Obrigada por me desejar boa sorte. — falei, seca. — Porque eu sei o que eu tô fazendo agora. Se a gente vai se ver depois… isso eu não sei.
Ele sorriu. Aquele sorriso de quem sabe de alguma coisa que você não sabe.
— Pois eu sei.
A mão dele puxou minha cintura. Rápido. Forte. As minhas mãos foram direto no peito dele, tentando manter distância. Ele deu um selinho rápido — um toque seco de lábios — e eu afastei o rosto na hora.
A mão dele deslizou pela lateral do meu rosto. Os dedos frios. O olhar fixo.
Olhei torto para ele. Aviso. Limite.
Quando ele tentou me beijar de novo, eu empurrei. Com força. Com as duas mãos. Com todo o nojo que cabia dentro de mim.
Ele caiu para fora do apartamento. O salto do sapato arranhou o piso do corredor.
— Mais tarde a gente se vê. — ele falou, ainda sorrindo.
Bati a porta. Firme. Seca. O barulho ecoou pelo quarto.
Meu coração tava disparado. Dei dois passos em direção ao closet para me vestir.
A campainha tocou de novo.
Suspirei irritada. Virei. Fui para a porta.
— Eu não quero falar com você, Guilherme! — gritei, já abrindo a porta com raiva.
O ar sumiu dos meus pulmões.
Vulcano.
Parado na minha porta.
A cara fechada. O olhar duro. A camisa preta com botões de cima abertos. A barba feita. O cabelo no lugar. A altura dele preenchendo todo o batente da porta.
E eu aqui. Só de body. O roupão jogado no sofá. A maquiagem pronta. O cabelo arrumado. A pele nua.
O olhar dele desceu devagar. Do meu rosto para o meu pescoço. Do meu pescoço para o meu peito. Do meu peito para as minhas pernas.
E subiu de novo.
Sem pressa.
Sem vergonha.
— Guilherme? — ele perguntou, a voz baixa, perigosa.
Eu não respondi. Só fiquei parada. Com o coração acelerado.
Sentindo o peso do olhar dele em cada centímetro do meu corpo.
— Não vai me convidar pra entrar, não? — Ele perguntou, a voz rouca, grave, daquele jeito que fez meu corpo se arrepiar inteiro antes mesmo de eu pensar em responder.
Continua...