Capítulo 07 Jane

1343 Words
Jane Narrando Meu corpo travou. Inteiro. Da cabeça aos pés. Não conseguia me mexer. Não conseguia respirar. Não conseguia pensar. Eu virei devagar. O corpo tremendo. O coração batendo tão forte que eu sentia nas têmporas. Pelo perfume, eu não identifiquei na hora. Não era o cheiro do Vulcano. Não era o cheiro do Lucas. Não era nenhum cheiro que eu queria sentir. Mas o jeito que meu corpo reagiu… o arrepio que subiu pela espinha… o medo que gelou meu sangue… Eu comecei a tremer. Aquela pegada. Aquela força nos dedos. Aquele aperto que eu conhecia melhor do que a minha própria pele. — Como foi que você entrou aqui? — minha voz saiu falhando, quase sem som. Ele sussurrou no meu ouvido. O hálito quente. A voz aveludada. A mesma voz de sempre. — Vou tirar a mão da sua boca. Mas não grita. Senão é pior pra você. Eu só balancei a cabeça. Um movimento pequeno. Trêmulo. Desesperado. Ele tirou a mão devagar. Me virou pelo braço. A força nos dedos. A marca que ia ficar. O olhar dele passeou pelo meu corpo. Nu. Vulnerável. Exposto. Ele deu um selinho em mim. Eu travei os lábios. Não deixei entrar. Não deixei passar. — Eu tenho a chave da tua vida, meu amor. — ele falou, a voz baixa, macia, venenosa. — Você saiu do Rio, foi embora… mas não se divorciou de mim. Você ainda é minha esposa. Lá embaixo, eu só mostrei meu documento… mostrei umas fotos suas. Sou seu marido. Meu estômago revirou. O sangue ferveu. O medo deu lugar à raiva. — Para com isso. — falei, a voz firme, mais firme do que eu imaginava que conseguiria. — Sai daqui. Deixa eu me trocar. Ele sorriu daquele jeito que eu conheço. O sorriso de quem acha que ainda tem controle. O sorriso de quem acha que pode tudo. — Você sempre foi linda… mas tá mais ainda. — ele falou, a voz cheia de posse. — Que mulherão você virou, meu amor… — Sai de perto de mim. — repeti, mais alta. — Eu tava com saudade. — ele disse, dando mais um passo na minha direção. — Vim matar a saudade. Meu coração batia tão forte que eu sentia na garganta. O medo voltou. Mas, junto com ele, uma coisa nova nasceu dentro de mim. Raiva. Ódio. Nojo. E, dessa vez, eu não estava mais disposta a ser a mulher que abaixa a cabeça. — Eu não tenho saudade nenhuma de você. — falei, os dentes cerrados. A mão dele deslizou pela lateral do meu corpo. Devagar. Como se ainda tivesse direito. Como se ainda pudesse tocar. Meu corpo se arrepiou. Mas não foi de desejo. Foi de ódio. Foi de raiva. Foi de nojo. Lembrei de quantas vezes ele bateu em mim. Lembrei de quantas noites eu chorei escondida. Lembrei de quantas desculpas eu inventei pras marcas no corpo. A mão dele parou em cima do meu peito. — Esse corpo não te pertence mais. — falei, a voz trêmula de raiva, não de medo. — Eu posso dizer que eu nunca senti saudade de você. Nunca. Nem um dia. Nem uma hora. Nem um segundo. O sorriso dele sumiu. O olhar endureceu. — Então pertence a quem, esse corpo? — ele perguntou, a voz baixa, grossa, ameaçadora. O silêncio caiu entre a gente. Pesado. Perigoso. Eu não respondi. Mas, na minha cabeça, uma imagem surgiu. Terno preto. Olhar pesado. Mão na nuca. Vulcano. O olhar do Guilherme acompanhou o meu desvio. Ele percebeu. Ele sempre percebe. — Tá com outro? — ele perguntou, a voz mudando. — Tá, Jane? Eu não respondi. Só o encarei. E, pela primeira vez na vida, eu não vou deixar ele ter a última palavra. Serei eu. — O que você tem a ver com a minha vida? — falei, a voz firme, mais firme do que eu imaginava que conseguiria. — Nós já estamos oito anos separados. — Isso não muda nada. — ele respondeu, a voz ainda calma, ainda aveludada, ainda doentia. — Você ainda é minha mulher. Você não assinou divórcio. Então, perante a lei, você é minha. E eu nunca te esqueci. Eu dei uma gargalhada. Uma gargalhada seca. Amarga. Sem humor nenhum. — Tenho certeza que você não parou a sua vida pra ficar esperando eu voltar. — falei, olhando bem nos olhos dele. — Tenho certeza que você teve outras mulheres nos seus braços. Na sua cama. O rosto dele mudou. O sorriso desapareceu. O olhar endureceu. — Eu não esperei nem você sair. — ele respondeu, a voz grossa, sem vergonha nenhuma. — Eu tinha você e todas. Por que eu mudaria? Já foi você que me deixou. Foi como se um soco tivesse acertado meu peito. Não por ciúmes. Por nojo. Por nojo de ter amado aquilo. — Sai daqui. — falei, a voz trêmula de raiva. — Deixa eu me trocar. Ele sorriu daquele jeito que eu conheço. O sorriso de quem acha que ainda tem controle. O sorriso de quem acha que pode tudo. — Você sempre foi linda… mas tá mais ainda. — ele falou, a voz cheia de posse. — Que mulherão você virou, meu amor… — Sai de perto de mim! — repeti, mais alta, mais firme. — Eu tava com saudade. — ele disse, dando mais um passo na minha direção. — Vim matar a saudade. Eu juntei toda a força que eu tinha. Toda a raiva. Todo o ódio. Toda a noite que ele me fez chorar. Todo o sangue que ele fez derramar. E empurrei ele. Com as duas mãos. Com todas as minhas forças. Ele caiu para trás, tropeçou, bateu com as costas na porta do banheiro e escorregou, sentando no chão com um baque seco. Eu não pensei. Não hesitei. Peguei o pijama em cima da cama e vesti rápido. Meus olhos procuraram desesperados pela necessaire aberta em cima da pia. Guilherme se levantou com tudo, o rosto vermelho de raiva, os olhos vidrados de fúria. Eu enfiei a mão dentro da necessaire. Meus dedos fecharam no que eu precisava. Spray de pimenta. Apontei. Apertei. Enfiei na cara dele. Ele gritou. Levou as mãos aos olhos. Recuou cambaleando. — Aí, caralhø! — ele berrou, tossindo, espirrando, se dobrando. — Que pørra é essa? Você queimou meus olhos. — Sai daqui agora! — gritei, com o spray ainda apontado pra ele. — Eu vim na paz! — ele falou, a voz chorosa, os olhos ardendo. — Você tá sendo muito desumana, Jane! — Desumana? — eu ri, sem humor nenhum. — Desumana sou eu? Ele tentou abrir os olhos, mas não conseguiu. As lágrimas escorriam pelo rosto dele. — Como é que você entrou? — perguntei, a voz tremendo. — Como é que o Lucas e os outros não te viram? Ele não respondeu. Só ficou ali, se dobrando, tossindo, tentando limpar os olhos com as costas da mão. — Eu vou chamar a segurança. — falei, com a voz mais firme do que eu me sentia. — Sai agora ou eu grito. Ele levantou a cabeça. Os olhos vermelhos. O ódio estampado. — Isso não acabou, Jane. — ele falou, a voz rouca. — Você acha que um spray vai me impedir? — Sai! Ele deu um passo pra trás. Depois outro. Abriu a porta do quarto com a mão trêmula. — Você vai se arrepender. — ele falou, antes de sair. A porta fechou. O silêncio voltou. Meu corpo desabou na cama. O spray ainda na mão. O coração batendo tão forte que eu achava que ia explodir. Eu não sei quanto tempo fiquei parada. O celular vibrou. Minha mãe: — Tá tudo bem? Responde, Jane. Eu não respondi. Não agora. Não com a mão tremendo. Não com o cheiro do spray ainda no ar. Não com a imagem do Vulcano na minha cabeça. Porque, pela primeira vez em oito anos… Eu não queria que minha mãe me salvasse. Não sei porque mais eu queria que fosse ele. Continua...
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