Capítulo 06 Jane

1184 Words
Jane narrando O alívio que eu senti quando vi a tia Helena e o Vulcano se impondo na frente do Guilherme foi tão grande que minhas pernas quase cederam ali mesmo. Eu conheço o olhar do Guilherme. Eu conheço aquele jeito dele. Aquele silêncio que não é silêncio. Aquela calma que nunca é calma. Ele sempre foi louco. Sempre foi imprevisível. Sempre foi do tipo que age primeiro e pensa depois — quando pensa. E, mesmo sabendo que a tia Helena é cria do morro, que ali ninguém mexe com ela, que o Vulcano não é homem de deixar barato… o medo ficou. Ficou grudado em mim como suor frio. Ficou nas entranhas. Ficou no osso. Porque eu sei o que o Guilherme é capaz de fazer quando se sente desafiado. Eu vi. Eu senti. Eu vivi. Mas ele foi embora fácil demais. Rápido demais. Calmo demais. E isso me deixou inquieta. Mais inquieta do que se ele tivesse gritado, esperneado, ameaçado. Porque quando o Guilherme sai calmo assim, é porque ele já tá planejando o próximo passo. É porque ele já tá arquitetando alguma coisa. Tomara que ele tenha, finalmente, caído na real. Tomara que ele entenda que eu não sou mais a mesma Jane de antes. Tomara que ele me esqueça. Porque, dessa vez, se ele vier pra cima de mim, eu não vou tremer. Eu não vou congelar. Eu não vou pedir pelo amor de Deus. Eu vou pra cima também. O desfile foi um sucesso. Eu ouvi os aplausos, senti os flashes, os olhares, as câmeras, o barulho. Mas, no fundo, a única coisa que ecoava na minha cabeça era a voz grossa do Vulcano no meu ouvido, aquele sussurro que parecia ter vindo de dentro do meu peito: — Se precisar, é só chamar. Gente da minha mãe é gente minha também. Aquilo me arrepiou mais do que qualquer elogio. Mais do que qualquer palma. Mais do que qualquer flash. Eu saí do evento com o meu empresário, entrei no carro com os seguranças, tentando respirar fundo, tentando convencer a mim mesma de que tudo estava sob controle. O vidro escuro. O motorista calado. O ronco do motor. A cidade passando pela janela. O carro seguiu para um hotel em Copacabana. Não um motel. Um hotel. Com portaria. Com chave. Com segurança. Assim que chegamos, ele desceu primeiro, olhou em volta, fez sinal. — Você vai ficar bem? — ele perguntou, a testa franzida, o olhar preocupado. — Vou, sim. — respondi, com uma firmeza que nem eu sabia de onde tinha vindo. O motorista nos deixou na entrada. Um dos seguranças desceu com as malas — a minha e a dele. Subimos de elevador. O espelho do elevador refletia meu rosto pálido, meus olhos cansados, meu sorriso que não existia. — Quer que eu fique no mesmo quarto? — ele perguntou, a voz baixa, discreta. — Não precisa. — respondi, balançando a cabeça. — Vocês vão estar no quarto ao lado. Eu vou ficar bem. Acho que o Guilherme não vai querer aprontar. Ele respirou fundo. O peito subiu e desceu devagar. — Eu também acho que não. — ele falou, coçando a nuca. — Se ele ficou quieto esse tempo todo… não vai colocar as asinhas de fora agora. Por quê? — Pois é… — suspirei, sentindo o peso do dia nas costas. — Então eu vou tomar um banho e descansar. Eles colocaram a mala dentro do meu quarto. O segurança deixou a bagagem no canto e saiu. Dei um beijo na bochecha do meu empresário, um beijo rápido, cansado, de quem não tem mais energia pra nada. — Boa noite, Jane. — ele falou. — Boa noite. Eles ficaram na porta esperando eu entrar. Entrei. Fechei a porta. Ouvi o clique da fechadura. E senti o peso do dia cair sobre mim como um tijolo nas costas. Aliviada, comecei a me despir. O vestido preto pesava catorze quilos, mas o peso que eu tirei junto com ele era muito maior. Arrastei a mala até a cama, coloquei no puff aos pés dela, abri e já peguei o baby doll. Um tecido leve. Solto. Confortável. Tudo o que eu precisava. Conectei o carregador na tomada e mandei mensagem pra minha mãe. "Já tô no hotel." Ela respondeu na mesma hora. Minha mãe nunca demora. Nunca. "Tá tudo bem?" Respirei fundo antes de responder. "O Guilherme apareceu no final do desfile." Ela não acreditou. Eu vi pelos três pontinhos que apareceram e sumiram, apareceram e sumiram. Ela não sabia o que responder. O telefone tocou. Ligação On — Jane, como você tá se sentindo? — a voz da minha mãe saiu acelerada, preocupada, daquele jeito que só ela consegue. — Tô bem, mãe. — respondi, sentando na cama. — O medo de voltar pro Rio foi grande… mas eu venci essa barreira. — E o Guilherme? — Tô viva, né? — tentei sorrir, mas não saiu. — Não morri antes, não vai ser agora. Espero que ele fique no lugar dele. — Se qualquer coisa estranha acontecer, me liga. — a voz dela ficou séria. Cortante. — Mãe, a senhora tá do outro lado do mundo. — suspirei. — Se precisar, eu chamo o Lucas ou os seguranças. Ela suspirou. Aquele suspiro de mãe que quer estar perto mas não pode. — Já comeu? — Não… — respondi, honesta. — Mas também não tô com fome. — Não fica sem comer, Jane. — ela falou, firme. — Pede alguma coisa. Ou pede pro Lucas pedir. — Tá bom, mãe. — falei só pra ela parar de preocupar. — Beleza. Desligamos. Coloquei o telefone na tomada, ao lado da cama. Peguei a camisola e fui pro banheiro. Ligação Off Eu estava tão cansada que nem liguei por não ter trazido meus produtos de higiene. Usei os shampoozinhos do hotel mesmo. O cheiro genérico. O cheiro de lugar passageiro. Usei sem vontade, só pra limpar o corpo, só pra tirar o suor do desfile, o cheiro do medo. Fechei os olhos com a cabeça debaixo do chuveiro. A água quente escorrendo pelo rosto, pelo pescoço, pelos ombros. O vapor subindo. O barulho da água abafando o mundo lá fora. E, do nada, a voz do Vulcano invadiu minha mente de novo. Grossa. Firme. Quente. "Se precisar, é só chamar." Eu me arrepiei inteira. Os pelos do braço ficaram em pé. Um calafrio subiu pela espinha mesmo com a água quente batendo nas costas. Balancei a cabeça, como se pudesse expulsar aquilo. Como se pudesse afastar aquela voz da minha cabeça. Terminei o banho. Fechei o chuveiro. O silêncio voltou. Me enrolei na toalha branca, felpuda, de hotel. Fui até o quarto pegar desodorante, perfume, escova de dente. Tudo em cima da cômoda. Tudo arrumado. Voltei pro banheiro. Escovei os dentes. Devagar. A espuma branca nos lábios. O gosto de menta. Passei desodorante. O spray gelado na pele quente. Quando eu tirei a toalha… Dois braços me envolveram por trás. Eu ia gritar. A boca abriu. O ar ia sair. O som ia vir. Uma mão tampou minha boca. Continua...
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