Vulcano Narrando
Manobrei o carro com uma mão só, desci a ladeira devagar, parei na praça. O movimento de sempre. Gente na calçada. Criança ainda correndo. Música alta saindo de algum lugar.
Tirei o terno dentro do carro mesmo. Joguei no banco de trás. Dobrei a manga da camisa até o cotovelo. Abri dois botões. O ar da noite batendo no peito. A corrente de prata brilhando no pescoço.
Assim que eu pisei na praça, os cria já começaram.
— Aí, ó! Chegou o pinguim! — Carrasco gritou de longe, apontando o dedo na minha direção, os outros tudo rindo.
— Pinguim é meu paü, filha da püta! — respondi no mesmo tom, dando um sorrisão.
Eles caíram na gargalhada. Carrasco quase virou a cadeira pra trás. Regente balançou a cabeça rindo baixo.
Sentei na mesa. Regente já tava com o copo cheio, a garrafa de whisky no centro, um balde de gelo derretendo. Os copos sujos de dedo. O cheiro de bebida e cigarro.
— E aí, como é que foi o desfile, chefe? — Regente perguntou, empurrando um copo na minha direção.
Eu peguei a garrafa, enchi meu copo devagar. O líquido âmbar subindo, o gelo estalando.
— Se eu falar pra vocês, vocês não acreditam. — respondi, sem olhar pra eles.
Eles ficaram me olhando. Carrasco arqueou a sobrancelha. Regente inclinou o corpo pra frente.
— Grande pra pørra, assim como a modelo! — Soltei e eles me olharam. — Não é preconceito não… — continuei, levantando o copo e dando um gole. — Porque a modelo, o que ela tem de grande ela tem se linda e bota linda nossa, é linda pra caralhø.
— Ihhh… — Carrasco já fez a cara, os outros começaram a rir.
— Mas é irmão, digamos que ela é totalmente fora do padrão. — terminei, enchendo o copo de novo.
O cria — um moleque novo, cabelo cortado na régua, corrente de prata igual a minha — chegou com mais um balde de bebida e largou na mesa. As garrafas tilintaram umas nas outras.
Carrasco pegou uma, abriu com os dentes, cuspiu a tampa no chão.
— Que cara foi essa mesmo, chefe? — ele perguntou, os olhos estreitos.
— Não, nada não… — respondi, dando mais um gole.
Mas eu sorri.
Porque na minha cabeça veio a imagem dela. Nítida. Cristalina. Como se tivesse gravado.
Vestido preto. A f***a subindo pela lateral das duas pernas até em cima. O salto alto. O cabelo solto balançando. O jeito que ela andava devagar, elegante, como se a passarela fosse dela. O corpo ocupando espaço sem pedir licença.
E eu não vou mentir…
Eu tava doido pra saber se realmente não tinha uma calcinha ali.
Dei mais um gole no copo. Fiquei quieto. O gelo estalando. O whisky queimando a garganta.
Mas a imagem dela não saía da minha cabeça.
E pior que não foi nem a modelo. Não foi o corpo. Não foi a f***a. Não foi o vestido.
Foi ela tremendo no corredor. Foi o medo no olho. Foi o jeito que ela respirava curto, ofegante, como se o ar tivesse faltando. Foi a mão do arrombado marcando o braço dela.
Regente me cutucou com o cotovelo.
— Tu tá longe, chefe. — ele falou, o copo na mão.
Eu balancei a cabeça, tirei o olhar do nada.
— Tô nada.
Mas eu tava.
E muito.
Regente não desistiu. Pegou o celular no bolso da calça, começou a digitar rápido, os dedo voando na tela.
— Qual é o nome dela mesmo, chefe? — ele perguntou sem levantar o olho.
— Jane. — respondi curto. — Modelo plus size.
— Só isso?
— É o suficiente.
Regente deu um sorriso safadø, continuou digitando. Carrasco se inclinou pra tentar ver a tela. Os outros crias ficaram olhando, curiosos.
— Achei. — Regente falou depois de uns segundos. — O perfil é privado.
— Privado? — Carrasco fez cara de decepção.
— É. Só mostra a foto de perfil. — Regente virou o celular na minha direção. — Olha aí, chefe.
Eu olhei. A foto de perfil era ela. Rosto de lado. Cabelo solto. Iluminação profissional. O olhar dela na foto era diferente do olhar no corredor. Na foto ela tava confiante. No corredor ela tava assustada.
— Quero entrar nesse perfil. — Regente falou, os olhos brilhando. — Tô doido pra ver as foto dessa mina.
Foi quando o Regente levantou a mão e acenou pra alguém na calçada.
— Ei, Andressa! — ele gritou. — Vem cá!
Andressa atravessou a rua na nossa direção. Cabelo preso. Short jeans. Sandália rasteira. A prima do Gerente. Cresceu junto no morro e tratamos como família.
Ela chegou perto da mesa, as mãos na cintura.
— O que foi, primo? — ela perguntou, já com um sorriso no rosto. Depois olhou pra mim. — Oi, Vulcano. Tá bonitão hein? Cadê o terno?
— Já era. — respondi seco, sem graça.
— Cadê seu celular, Dessa? — Regente se adiantou.
Ela puxou o celular do bolso de trás do short.
— Tá aqui. Por quê?
— Entra no Ïnstagram e procura esse perfil aqui. — Regente falou, mostrando o celular pra ela. — E começa a seguir.
— Que isso? É a sua nova paixão? — Andressa perguntou rindo, já digitando no celular dela.
— Só segue, pørra. — Carrasco falou, impaciente.
Andressa fez o que pediram. Os dedos dela deslizando na tela. A gente ficou olhando. Ela seguiu o perfil. A Jane seguiu de volta. Quase instantâneo.
— Abriu. — Andressa falou, entregando o celular na mão do Regente.
Regente pegou o celular como quem pega um troféu. Os olhos dele brilharam. Ele começou a rolar as fotos devagar, com calma, como quem aprecia cada detalhe.
— Caraca… — ele sussurrou.
O olho dele arregalou. A boca abriu um pouco. Ele virou o celular na minha direção.
— Olha isso, chefe.
Eu peguei o celular da mão dele.
A foto ocupava a tela inteira.
Era ela.
Jane.
Ela quase sem nada. Nas de costas com um detalhe. Uma asa de pena enorme preta saindo das costas dela. As penas pretas se espalhando pro lado como se fosse um anjo. Só que não era anjo não. Era coisa de outro mundo.
E o conjunto de lingerie.
Perfeito.
Preto. Renda. O fio da calcinha subindo na curva da cintura. Com uns detalhes. O sutiã sustentando tudo no lugar. A perna grossa, torneada, firme. O cabelo solto. A pose de quem sabe exatamente o poder que tem.
Eu travei.
— Mano que pørra é essa? — a voz saiu baixa, quase sem ar. — Caralhø. Putä que pariu.
Carrasco se levantou da cadeira pra tentar ver a tela.
— Gostou do que viu, né, chefe? — ele perguntou rindo, a voz cheia de deboche.
Eu não conseguia tirar o olho da tela. A foto não é só sexy. É artística. É poderosa. É ela no controle total da imagem. Diferente do corredor. Diferente da mulher tremendo de medo. Ali ela era dona de si.
— Se ela já tava perfeita daquele jeito na passarela… — falei devagar, ainda olhando a foto. — Imagine desse jeito.
Regente riu. Eu balancei a cabeça encarando a tela.
— Mas assim, nas redes sociais pra geral ver! — soltei, aprontando pro celular. — Coragem, hein?
Andressa se aproximou, tentando entender o que tava acontecendo.
— Do que que vocês tão falando mesmo? — ela perguntou, confusa.
Eu entreguei o celular de volta na mão dela.
— Deixa baixo. — falei curto.
Ela pegou o celular, olhou pra tela, viu a foto. Os olhos dela arregalaram.
— Uai, você parou de seguir e apagou a busca? — ela perguntou, o rosto confuso. — Por que você fez isso?
Eu não respondi. Só peguei meu copo e bebi mais um gole. O whisky desceu queimando, mas não queimou tanto quanto a imagem que ficou na minha cabeça.
Regente se inclinou na cadeira, o copo na mão, o sorriso safado estampado na cara.
— Já tá com ciúmes da mina, chefe? — ele perguntou.
Os outros crias caíram na risada.
Carrasco bateu na mesa. O cria novo quase engasgou com a bebida.
Eu não ri.
Enchi meu copo de novo. Bebi mais um gole.
E fiquei quieto. Porque ciúmes não era. Não era ciúmes. Era outra coisa.
Era a certeza de que aquela mulher…
Não era só um corpo bonito num vestido preto. É problema. E eu não posso começar a querer me meter nele.
Continua...