Capítulo 04 Vulcano

1394 Words
Vulcano Narrando Eu nunca fui de perder a postura. Cresci no morro aprendendo uma parada simples: quem se descontrola primeiro, perde. Quem grita, já entregou que não tem argumento. Quem parte pra violência antes da hora, já mostrou fraqueza. Isso eu aprendi com os mais velho, aprendi na prática, aprendi na porrada, aprendi na laje de madrugada quando o rádio chiando é a única coisa que separa a paz do caos. Mas naquele corredor… foi por muito pouco. Muito pouco mesmo. Aquele tal de Guilherme não precisou falar muito pra eu entender que tipo de homem ele era. Na real, o que ele falou foi o de menos. Não foi o tom. Não foi a pose. Não foi o sorriso debochado. Foi a mão. A forma que ele segurava o braço da Jane. Aquilo ali falava mais alto do que qualquer palavra. Era um aperto de dono. Era um aperto de quem tá acostumado a ter o controle. Era um aperto de quem já fez pior. Homem que trata mulher como coisa se entrega nos detalhes. E eu vi. Vi a marca dos dedos afundando na pele dela antes mesmo de soltar. Vi o jeito que o corpo dela tremia. Vi o medo que não era de hoje. Aquilo ali era antigo. Era enraizado. Era trauma. Era história m*l resolvida de anos. E a minha vontade? Era de enfiar a mão na cara dele ali mesmo. Sem pensar duas vezes. Mostrar pra ele como é que se trata uma mulher. Mostrar pra ele o que acontece com homem que levanta a mão pra quem é mais fraco. Mostrar pra ele que no Rio de Janeiro, no mundo que eu vivo, isso tem preço. Mas eu não tava ali como qualquer um. Eu tava ali como filho da Helena. Como o homem que comanda a Rocinha. Como o cara que tem nome e história dentro e fora do morro. Eu tava ali com a minha mãe do lado. Eu tava ali representando muito mais coisa do que só eu. Cada movimento meu ia ser visto. Cada gesto ia ser interpretado. Cada vacilo ia ser lembrado. Então eu me segurei. Me segurei no limite do limite. Respirei fundo. Engoli a raiva. Fechei os punhos dentro do bolso do terno. Contei até dez mentalmente. E me mantive ali, plantado, com a postura de quem não se abala. Mesmo por dentro querendo explodir. Quando ele virou as costas e saiu — com aquele passo firme, com aquela arrogância de quem achou que ganhou alguma coisa — eu soltei o ar que eu tava prendendo fazia minutos. Dei uma gargalhada seca de canto, botei a mão na cintura e olhei pra minha mãe. Um olhar só. O suficiente pra ela entender que eu tinha segurado a onda na unha. Ela me lançou aquele olhar. Aquele olhar que diz tudo sem falar nada. Aquele olhar que ela aperfeiçoou em 35 anos de convivência comigo. "Se controla. Não agora. Não aqui. Não desse jeito." Eu tirei a mão da cintura e cruzei os braços. Respirei mais uma vez. Fiquei olhando a Jane. Ela não tava legal. Tava tentando parecer forte, mas o corpo dela ainda tremia. Os ombros caídos. A respiração curta. O olhar perdido no chão. — Jane, você tá bem, minha filha? — minha mãe perguntou, a voz mansa, aquele tom de mãe que acalma qualquer criança. — Tô sim, tia… — a voz da Jane saiu fraca, trêmula. — Eu sabia que isso podia acontecer. Sabia… mas não tava pronta. Dava pra ver na cara dela. Dava pra ver nos olhos. Dava pra ver no jeito que ela ainda tava com o braço encostado no corpo, protegendo o lugar onde ele apertou. O empresário dela se aproximou. Um cara de terno também, mas de um terno diferente. Terno de asfalto. Terno de quem nunca pisou num morro de verdade. — Tá tudo preparado pra ela ficar bem. — ele falou, direto, profissional. — A gente não vai ficar muito tempo no Rio. Ela tem desfile em São Paulo e outro no Paraná. Eu balancei a cabeça devagar, processando a informação. Depois virei um pouco pro lado e falei baixo, só pra minha mãe ouvir: — Tenho a impressão que eu conheço aquele arrombado. Ela me olhou de lado. Aquele olhar de "cuidado com o que você vai dizer". — Pode ser que sim. — ela respondeu baixo. — Mas vamos. Já fizemos o que tinha que fazer aqui. A Jane veio se despedir. Primeiro da minha mãe. Um abraço demorado. Um beijo no rosto. Depois ela virou pra mim. Eu botei a mão no ombro dela — um toque leve, sem aperto, sem força, do jeito que ela precisava naquele momento — e inclinei a cabeça, beijando o alto da cabeça dela. Senti o cheiro do cabelo. Senti ela pequena ali perto de mim. Senti o quanto ela tava frágil mesmo tentando parecer forte. — Se precisar de alguma coisa, não hesita em ligar pra minha mãe. — falei baixo, perto do ouvido dela. — Ela te tem como filha. Então se é gente da minha mãe… é gente minha também. Ela levantou os olhos pra mim. Os olhos dela tavam marejados. Não de choro. De cansaço. De peso. — Obrigada… — ela falou. — Eu não vou precisar. — Beleza. — dei um sorriso de canto. — Tu mandou bem lá em cima. Ela deu um sorrisinho fraco, daqueles que não enganam ninguém. Agradeceu mais uma vez com um aceno. Deu um beijo no rosto da minha mãe. Virou com o empresário e saiu pelo corredor. O salto fazendo click-click no piso. As costas retas tentando manter a postura. Minha mãe ficou olhando até ela sumir. Só quando a porta giratória fechou atrás dela é que minha mãe explodiu. — Eu não acredito que ele teve a audácia de vir aqui! — ela falou, a voz alterada, os olhos arregalados. — Eu ainda duvidei da Gisele! Falei que ele não ia ter coragem de aparecer. Ainda mais depois do jeito que ela tirou a Jane de dentro daquela casa quando eles ainda eram casados! Nunca mais ouvi falar dele! Nem a Jane, nem a Gisele falavam nada! Eu dei outra gargalhada. Uma gargalhada de quem já viu de tudo nessa vida. — É, coroa… — falei, balançando a cabeça. — Esses são os piores. Os quieto. Os que esperam. Os que guardam rancor por anos. Olhei em volta. O povo ainda olhando. Os olhares tortos. Os sussurros. A roupa de playboy naquele ambiente já tava chamando atenção demais. — Bora meter o pé. — falei, ajeitando o paletó. — Enquanto essa galera ficar me olhando atravessado, não. — Vamos, meu filho. — minha mãe respondeu, já pegando a bolsa. Chamei os seguranças com um movimento de mão. Dois caras grandes, de preto, que tavam plantados na entrada. Eles se aproximaram, formando um corredor pra gente sair. Mas antes de dar o primeiro passo, eu olhei pra onde a Jane tinha ido. Pra porta giratória. Pra direção que ela sumiu. E me deu uma sensação esquisita. Uma sensação r**m. Como se ela não quisesse ir. Como se ela tivesse precisando ficar. Como se os olhos dela tivessem pedindo alguma coisa que a boca não conseguiu falar. E, ao mesmo tempo, eu sabia que não podia simplesmente virar pra ela e falar "fica". Não era meu lugar. Não era meu papel. Não era minha história. Se ela não quisesse ir, ela não precisava. Mas ali não era lugar pra isso. Ali era corredor de camarim. Ali era o mundo dela. Não o meu. Saímos do espaço, indo em direção ao carro. No carro, minha mãe já tava no telefone com a Gisele. A voz dela saía acelerada, contando tudo que tinha acontecido, os detalhes, o aperto de braço, a cara do Guilherme, a reação da Jane. Eu fui dirigindo calado. Cabeça longe. Olhar fixo na estrada. Mãos no volante. Quando subi o morro, deixei minha mãe na casa dela. Ela desceu do carro ainda falando no telefone, me mandou um beijo com a mão e entrou pelo portão. Assim que eu encostei o carro, enfrentei a garagem, meu telefone tocou. Regente. — Tô chegando no bar. — a voz dele saiu chiando no viva-voz. — Cola aqui pra gente beber uma, chefe. — Tô indo. — respondi curto. Continua...
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