Capítulo 03 Jane

2199 Words
Jane narrando O sorriso morre no meu rosto. Não gradual. Não devagar. Morre. Como se alguém tivesse apertado um botão invisível no meu corpo, um botão que só ele conhece, que só ele sabe onde fica, que só ele aprendeu a apertar depois de anos de treinamento silencioso. O ar trava no meu peito. Os pulmões pedem passagem. A garganta fecha como se tivesse alguém apertando por fora. Meu braço tenta puxar para trás. Não consegue. Os dedos dele apertam firme. Firme demais. Familiar demais. Meu estômago vira. Meu ouvido começa a apitar. A visão embaça pelas laterais, como se o corredor estivesse escurecendo das bordas para o centro. Tia Helena está aqui. A dois passos. Vulcano está aqui. A um passo. Todo mundo está vendo. E ninguém está fazendo nada. Porque ninguém sabe. Ninguém sabe o que aquela mão significa. Ninguém sabe o que aquele aperto já fez. Ninguém sabe que eu fui treinada por anos a sorrir enquanto doía. Ninguém sabe que eu ainda acordo no meio da noite sentindo aqueles dedos no meu pescoço. — Achei que você tinha ido embora, meu amor. A voz dele. Aveludada. Controlada. Educada. A mesma voz que um dia me fez acreditar que amor para sempre existia. A mesma voz que pedia com carinho antes de gritar com raiva. A mesma voz que pedia desculpas depois de machucar. Meu corpo começa a tremer antes mesmo do meu cérebro processar. É automático. É físico. É memória de pele. É memória de osso. É memória de quem aprendeu que aquela voz pode virar qualquer coisa a qualquer momento. — Me solta… por favor… — eu sussurro. Quase sem mexer os lábios. Quase sem som. Quase sem ar. O sorriso dele não muda. Continua largo. Continua educado. Continua aquele sorriso de homem bonito que todo mundo acha simpático. Os dedos apertam mais. — Se você gritar, é pior. — ele fala baixo, perto do meu ouvido, tão perto que eu sinto o hálito quente na minha pele. — Até onde eu saiba, a gente não se separou. Então você ainda é minha mulher. Minha pele gela. Meu sangue para. Meu coração dá um pulo que dói no peito. — Você vem comigo. O mundo desaparece. O corredor some. As pessoas somem. A luz some. O som some. Só existe a mão dele no meu braço. Só existe o cheiro do perfume importado que eu passei anos tentando esquecer. Só existe o medo. E nesse segundo, eu entendo. Entendo tudo. Eu entendo agora por que a minha mãe não queria que eu viesse sozinha para o Brasil. Eu entendo agora por que ela insistiu tanto para que a tia Helena estivesse no desfile. Eu entendo agora o medo nos olhos dela quando eu disse que ia encarar essa viagem sozinha. Porque ela sabia. Ela sabia que ele ia descobrir. Ela sabia que ele ia aparecer. Ela sempre soube. E eu, na minha ingenuidade de oito anos longe, achei que ele tinha desistido. Achei que o tempo tinha curado. Achei que o silêncio significava paz. Não significava. Nunca significou. Ele só estava esperando. Esperando eu baixar a guarda. Esperando eu voltar. Esperando eu ficar vulnerável de novo. Meu corpo tenta hesitar. Tenta puxar o braço. Tenta reagir. Mas a memória é mais forte que a força. Muito mais forte. Eu sei o que acontece quando eu resisto. Eu sei. Aprendi da pior maneira possível. Aprendi com hematomas que demoravam semanas para sumir. Aprendi com noites de choro escondida no banheiro. Aprendi com fraturas que ninguém via porque eu aprendi a esconder. — Jane… — tia Helena chama, mas a voz dela sai fraca. Assustada. Diferente da mulher forte que me recebeu no camarim. Guilherme vira o rosto devagar para ela. O sorriso muda. Fica debochado. Fica venenoso. Fica aquele sorriso que eu conheço tão bem, que eu vi tantas vezes, que sempre aparecia antes de ele fazer alguma coisa c***l. — Boa noite, tia Helena. Quanto tempo. — ele fala com educação falsa, com respeito fingido. — Vejo que continua se metendo onde não deve. Ele puxa meu braço um pouco mais, como se estivesse me mostrando para a plateia. Como se eu fosse uma coisa. Um troféu. Uma propriedade. — Viu? Continua a mesma. Sempre gostou de plateia. Eu tento puxar o braço de novo. O salto quase vira. Meu tornozelo dói. Minha respiração começa a falhar de vez. O ar não entra. O ar não sai. O ar virou vidro. — Me solta… por favor… — repito, porque não sei mais o que dizer, não sei mais o que fazer, não sei mais o que pedir. Ele aperta mais. Os dedos cavam fundo. Vão deixar marca. Ele sabe que vai deixar marca. Ele sempre sabe. — Você sempre faz isso, Jane. — ele fala como se estivesse cansado, como se eu fosse uma criança fazendo birra. — Essa ceninha. Esse teatro. Depois diz que eu sou o errado. Sinto. Uma presença. Do lado direito. Não é tia Helena. Tia Helena está paralisada, com os olhos arregalados, a boca semiaberta, as mãos trêmulas ao lado do corpo. É ele. Vulcano. Ele não tocou. Não falou. Não se moveu. Mas ele está mais perto. E eu sinto. Sinto que o ar mudou. Sinto que o corredor ficou pequeno. Sinto que o medo… O medo agora divide espaço com outra coisa. E pela primeira vez em oito anos… Eu não estou sozinha nesse aperto de braço. Vulcano não olha para o rosto do Guilherme. Ele nem olha para o Guilherme. Ele olha para a mão. Para os dedos que apertam meu braço. Para a força que eu não consigo romper sozinha. E os olhos dele mudam. O que era pesado vira denso. O que era denso vira perigoso. O que era perigoso vira mortal. Eu vejo. Vejo claramente. Vejo que aquele homem não é só grande. Ele não é só forte. Ele está parecendo uma bomba relógio, pronto a explodir. — Larga ela. A voz de Vulcano é baixa. Tão baixa que parece um segredo. Tão baixa que parece mais ameaçadora do que qualquer grito. É o tipo de voz que não precisa de volume para ser ouvida. É o tipo de voz que entra pelos ossos. Guilherme ri. Ri de verdade. Ri com a boca aberta. Ri com deboche. Ri como se aquilo fosse a maior piada que ele já ouviu. — E você é quem pra mandar em mim? — Ele pergunta encarando Vulcano, apertando o meu braço entre os dedos dele. Vulcano não responde. Dá um passo. Só um. A sola do sapato faz um som seco no piso do corredor. Mas é o suficiente. O suficiente para o corpo dele ocupar todo o espaço entre mim e a saída. O suficiente para Guilherme perceber que não está mais no controle da cena. O suficiente para o sorriso dele diminuir um pouco. — Eu tô falando com a minha mulher. — Guilherme diz, puxando meu braço de novo, mais forte, mais agressivo. — Isso aqui é assunto nosso. — Me solta… — minha voz falha. O choro quer vir. Não deixo. — Por favor… Guilherme inclina o rosto perto do meu ouvido de novo. O hálito quente. O cheiro do perfume. A memória de todas as noites. — Para de fingir. — ele sussurra. — Você sempre gostou disso. Eu fecho os olhos. Não tenho forças para abrir. Meu corpo inteiro começa a tremer. Os ombros. As mãos. Os lábios. As pernas. — Ela não vai com você. — Vulcano fala de novo. A frase não é alta. Mas ecoa no corredor inteiro. Ecoa nas paredes. Ecoa no meu peito. Guilherme vira o rosto devagar. Olha Vulcano da cabeça aos pés. Avalia. Mede. Calcula. Eu conheço esse olhar. É o olhar que ele fazia antes de decidir se valia a pena bater ou não. — Quem é você mesmo? Silêncio. Pesado. Denso. Aperta o ar. — Até onde eu saiba… — Guilherme continua, recuperando o deboche — ela é minha mulher. Tia Helena finalmente encontra a voz. Sai trêmula. Sai fraca. Sai diferente. — Guilherme, você sabe que você e a Jane estão separados há anos! — ela fala. Guilherme nem olha para ela. A cabeça nem vira. O olhar continua fixo em Vulcano. — Isso não me importa. O braço dele ainda está no meu. Os dedos ainda apertam. A marca já está formando. Minha respiração está curta. Minha visão escura pelas bordas. Meu corpo está desistindo. E Vulcano… Vulcano dá mais um passo. Agora ele está perto demais. Perto o suficiente para Guilherme sentir o tamanho. Perto o suficiente para eu sentir o cheiro do perfume dele — um cheiro diferente, um cheiro de homem que não precisa provar nada. Perto o suficiente para eu perceber que alguma coisa muito séria vai acontecer se alguém não interromper aquilo. — Solta ela. — Vulcano fala. Sem gritar. Sem alterar o tom. Mas agora não é um pedido. É uma ordem. É a voz de quem está acostumado a ser obedecido. É a voz de quem não repete. Guilherme hesita. Pela primeira vez. Os dedos afrouxam. Não por vontade. Por instinto. Por medo. Porque o corpo dele também sabe quando está diante de um perigo maior. Ele me solta devagar. Como se estivesse me devolvendo. Como se eu fosse um objeto emprestado. Ele ajeita o paletó. Passa a mão no cabelo. Sorri. O mesmo sorriso que um dia me fez acreditar que amor era aquilo. — A gente ainda vai conversar, Jane. — Guilherme fala, dando dois passos para trás. — Vocês não têm nada para conversar. — Vulcano responde, a voz subindo um tom. O primeiro tom que ele elevou desde que chegou. Guilherme para. O sorriso some. O olhar endurece. — O que eu tenho para conversar com a Jane não é da conta de estranho. — a voz dele sai mais alta agora, provocando, testando os limites. — Ela é minha mulher. Vulcano dá mais um passo. A altura dele agora é uma parede entre mim e Guilherme. — Ela não é sua mulher. — a voz de Vulcano sobe também, grossa, firme, inegociável. — Não mais. O olhar dos dois se prende. Pesado. Perigoso. Impossível de quebrar. Foi quando um segurança apareceu correndo pelo corredor, o rádio na mão ainda chiando, a respiração ofegante. — Chefe! — ele falou, olhando para Vulcano. — Tá cheio de polícia na entrada. Tão ouvindo os gritos Já já esse aqui tá cheio. Tia Helena levou a mão à boca. — Vulcano, aqui tá cheio de polícia. — ela falou rápida, o medo tomando conta do rosto dela. A voz dela saiu aguda, preocupada. Vulcano não desviou o olhar de Guilherme. Nem piscou. — Já sei. — ele respondeu para o segurança, a voz controlada de novo. — Pode ir. O segurança hesitou, olhou para Guilherme, depois para mim, depois correu de volta pelo corredor. Guilherme sorriu. Um sorriso lento. Vitorioso. c***l. — Parece que seu tempo acabou, amigão. — ele falou, a voz cheia de deboche, provocação, superioridade. — A polícia tá aqui. O que será que eles vão fazer? Vulcano não respondeu. Não se mexeu. Não mudou a expressão. Apenas ficou ali. Plantado. Imóvel. Uma muralha. — Jane. — Guilherme chamou, estendendo a mão na minha direção. O braço esticado. Os dedos abertos. — A gente termina essa conversa em outro lugar. Sozinhos. Do jeito que sempre foi. Minha pele arrepiou. Meu estômago virou. Meu coração disparou. Vulcano deu um passo para o lado, bloqueando o caminho de Guilherme completamente. O corpo dele agora era uma barreira intransponível. — Ela não vai a lugar nenhum com você. — ele falou, a voz baixa de novo. Mas agora tinha alguma coisa diferente. Alguma coisa mais perigosa. Era o silêncio antes do trovão. Guilherme o encarou. Os dois se mediram por mais alguns segundos. O corredor inteiro prendeu a respiração. — Até breve, Jane. — ele falou por cima do ombro de Vulcano. E virou as costas. Foi embora. O passo firme. As costas largas. O cheiro do perfume ficando para trás. Eu fiquei parada. O braço queimando onde os dedos dele apertaram. A respiração ainda presa. O olhar fixo no chão. O corpo inteiro tremendo. Até que uma voz grave cortou o silêncio. — Quem era aquele homem? Vulcano. Ele não perguntou com curiosidade. Perguntou com fúria controlada. A fúria de quem já sabe a resposta mas precisa ouvir da minha boca. Levantei os olhos devagar. Encontrei os dele. Meus olhos ardiam. Minha garganta doía. — Meu ex-marido. A frase saiu. Pela primeira vez em oito anos, eu não menti. O silêncio que caiu depois disso não foi silêncio. No olhar do Vulcano eu via a certeza de que Guilherme tinha acabado de criar um problema que ele ainda não sabe que existe. Tia Helena olhou para os dois, depois para o corredor por onde Guilherme tinha sumido. — Vulcano, a polícia… — ela começou, a voz ainda trêmula. — Eu sei. — Ele cortou, o olhar ainda em mim. — Mas isso não acabou. — Vamos lá, Jane. — Meu empresário me chamou, e ao lado dele estavam quatro seguranças. Continua..
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