Capítulo 02 Jane

2511 Words
Jane narrando O vestido preto pesa catorze quilos. Desci do palco com o coração na mão e a alma pendurada por um fio. As pessoas não sabem disso. Elas veem o brilho, o caimento, o movimento na passarela. Veem a modelo plus size que inspirou milhares de mulheres. Veem a mulher forte, segura, dona de si. Elas não veem os catorze quilos de tecido, lantejoula e estrutura que comprimem os ombros desde as seis da tarde. Elas não veem o salto quinze que arranca calos onde ninguém olha. Elas não veem o sorriso. O sorriso é o que pesa mais. — Você foi perfeita, meu anjo. Dona Helena. A amiga da minha mãe. Ela está ao meu lado no corredor estreito dos camarins, com os olhos marejados de um orgulho que não é dela — é emprestado. Da minha mãe. Ela veio representar. Minha mãe não está aqui. Minha mãe está fora do Brasil, em outro desfile. Trabalhando. Seguindo com a carreira dela. Longe de mim pela primeira vez em oito anos. Ela não veio para esse desfile porque eu não consegui desmarcar a tempo. Mas no olhar dela, na última chamada de vídeo, deu pra perceber o quanto ela estava preocupada. O quanto doeu nela dizer "sim" quando eu pedi pra vir sozinha. — Mãe, eu preciso aprender a fazer isso sozinha. — Foi o que eu disse na última ligação. Ela ficou em silêncio por um longo tempo. Aquele silêncio que só mãe sabe fazer. Depois suspirou. Depois falou: — Você nunca esteve sozinha, Jane. Mesmo quando achou que estava. Desci do palco e entrei no camarim dona Helena entrou logo atrás, segurou minha mão agora como se fosse minha mãe. Como se soubesse que eu preciso de alguém segurando alguma coisa neste exato momento. A mão dela é quente. Macia. Firme. — A Gisele me mandou mensagem. — Ela sorri, mostrando o celular na outra mão. — Disse que está vendo tudo pela transmissão. Que está chorando. Meus olhos ardem, mas não posso chorar. Não agora. Não aqui. Não com a maquiagem ainda fresca e o próximo compromisso daqui a vinte minutos. — Ela sempre chora. — Minha voz sai mais baixa do que eu queria. Mais trêmula do que eu autorizei. — Desde que eu era criança. Cada desfile. Cada campanha. Cada foto. Ela chora. — Porque ela tem orgulho de você, meu anjo. — Dona Helena aperta minha mão. — Porque você é tudo que ela mais ama nesse mundo. Engulo o nó que tenta subir. Minha mãe tem orgulho de mim. Minha mãe me salvou da morte. Minha mãe invadiu uma casa de madrugada e me tirou de lá com marcas no corpo que nunca cicatrizaram por completo. Minha mãe viu o que nenhuma mãe deveria ver. E ela não está aqui. E talvez seja melhor assim. Talvez eu precise aprender a existir sem ela do meu lado o tempo todo. Talvez seja hora de parar de me esconder atrás de quem me protege. Talvez seja hora de aprender a me proteger sozinha. — Aquele é seu filho, né? — perguntei ela balança a cabeça dizendo que sim. — Onde está seu filho? — pergunto, mudando de assunto. Preciso mudar de assunto. Preciso não pensar no que vem depois. No que sempre vem depois. Preciso não pensar no vazio que ficou depois que desci da passarela e percebi que não tinha ninguém esperando nos bastidores. Dona Helena sorri. Um sorriso diferente. Mais largo. Mais… sabedor. O mesmo sorriso que minha mãe faz quando sabe de alguma coisa que eu ainda não descobri. — Lá fora. Esperando. — Ela faz uma pausa, arruma o cabelo, me olha de lado. — Ele não queria vir. — Por que veio? — Porque eu pedi. O celular vibra na minha mão. Mensagem da minha mãe: "Vi o moço na primeira fila. Quem é ele?" Meu coração acelera sem permissão. Meus dedos tremem levemente enquanto digito. "Filho da dona Helena." "Bonito." "Mãe…" "Estou falando. Bonito. E te olhou diferente." Guardo o celular. Não vou responder isso. Não agora. Não sabendo que ele está lá fora. Esperando. Não com o coração ainda acelerado e a respiração ainda fora de ritmo. A Dona Helena nos apresentou, ele me olhou de um jeito que me deixou completamente sem graça. Respirei fundo dizendo que ia pegar as minhas coisas. Falei mais para Dona Helena do que para ele. Minha voz sai estranha. Diferente. Me viro e sigo para a sala ao lado. O vestido pesa. O salto dói. O coração bate onde não devia. Dona Helena vem atrás de mim. Escuto os passos dela no piso de madeira. Escuto o silêncio dele ficando para trás. Entro na sala, fecho os olhos por um segundo. Apenas um segundo. — Vulcano? — O nome sai da minha boca antes que eu autorize. Estranho. Pesado. Diferente. Um nome que não parece nome. Um nome que parece aviso. Dona Helena arqueia uma sobrancelha. Ela nunca perde nada. Nada mesmo. — Você reparou nele. Não é uma pergunta. — Ele me encarou. — A palavra sai mais baixa do que eu queria. Mais vulnerável do que eu gostaria. — Não… não foi uma encarada. Foi outra coisa. — O quê? Respiro fundo. Muito fundo. O ar do camarim cheira a perfume barato e suor de palco. — Ele me viu. Dona Helena fica em silêncio. O tipo de silêncio que pesa. O tipo de silêncio que aperta o peito. Porque eu sei o que ela está pensando. Está pensando no que a minha mãe contou a ela sobre o meu passado. Sobre o casamento. Sobre a fuga. Sobre as marcas. Dona Helena sabe. Não tudo. Mas o suficiente. O suficiente para saber que eu não sou só uma modelo plus size de sucesso. O suficiente para saber que por trás do sorriso da passarela tem uma mulher que ainda acorda no meio da noite com o coração disparado. — E isso te assustou? — ela pergunta. Voz baixa. Cuidadosa. Do jeito que se fala com bicho assustado. — Não. — A resposta sai antes do pensamento. Sai seca. Sai direta. — Isso me… Não termino. Porque não sei o que aquilo me fez. O que aquele homem de olhar pesado e silêncio maior me fez em três segundos de confronto silencioso. Só sei que não foi medo. E isso me assusta mais do que o medo. — Ele é sempre assim? — pergunto, sem abrir os olhos. — Como assim? — Dona Helena responde, e eu sei que ela está sorrindo sem precisar ver. — Intenso. Silencioso. Desconcertante. — Sim. — Ela faz uma pausa. — Desde criança. Abro os olhos. Me encaro no espelho da parede. A mulher que me olha de volta tem 30 anos, tem sucesso, tem fama, tem dinheiro. E tem medo de um homem que não fez nada além de olhar. — O que ele faz da vida? — pergunto, porque preciso saber. Porque preciso entender o que há por trás daquele olhar. Dona Helena hesita. A primeira hesitação dela desde que entrei naquele camarim. — Ele cuida do morro. Cuida do morro. Não "mora no morro". Não "trabalha no morro". Cuida. Essa palavra diz tudo. E não diz nada ao mesmo tempo. — Ele é perigoso? — a pergunta sai antes que eu possa segurar. Dona Helena me olha. Aquele olhar de mãe que já viu de tudo. — Para quem merece, sim. — Ela pausa. — Para quem ele protege, não. Engulo seco. Não sei em qual categoria eu me encaixo. E não sei por que isso me incomoda tanto. Pego minhas coisas devagar. A bolsa. O celular. O nécessaire. Qualquer desculpa para ganhar tempo. Qualquer desculpa para não voltar para aquele corredor e enfrentar aquele olhar de novo. Meu nome é Jane, tenho 30 anos. 1,75 m de altura, cabelo castanho claro não muito longo. 95 kg bem distribuído eu nunca fui pequena, muito menos magra, até quando emagreci eu não fiquei com o corpo padrão, pois os meus ossos são largos. Tenho duzentos e quarenta mil seguidores no i********:. Tenho três campanhas internacionais no currículo. Tenho uma conta bancária que minha versão de vinte anos não acreditaria se visse. E tenho medo. Medo de voltar para o hotel sozinha. Medo de ouvir passos atrás de mim na rua. Medo de abrir a porta do quarto e encontrar alguém esperando. Medo de que ele tenha me encontrado de novo. O psiquiatra chama isso de hipervigilância. Eu chamo de sobrevivência. Oito anos se passaram desde a última vez que vi o rosto do meu ex-marido. Oito anos desde que minha mãe invadiu aquela casa e me encontrou no chão do banheiro. Oito anos desde que aprendi que amor não deveria doer daquele jeito. Oito anos. E ainda assim, quando um homem desconhecido me encara no meio de um corredor… Eu sinto o corpo congelar. Sinto a respiração mudar. Sinto a armadura subir. — Vamos sair, filha. — Dona Helena puxa minha mão, me tirando dos pensamentos escuros. — Ele está esperando há tempo demais. Ela falou ele. Não falou Vulcano. Não "o filho". Não "meu menino". Não "o Otávio". Ele. Dona Helena enfatiza isso sem enfatizar. Ela é assim. Diz uma coisa enquanto prepara outra. Igual minha mãe. Igual todas as mães espertas que conheci na vida. — Dona Helena… — Não começa, menina. — Ela sorri. O mesmo sorriso que minha mãe usou a vida inteira para me convencer a fazer coisas que eu não queria. E que sempre deram certo. — Você veio para o Rio trabalhar, não para se esconder. As palavras batem onde doem. Eu vim para o Rio trabalhar. Vim porque o contrato era bom demais para recusar. Vim porque achei que oito anos eram tempo suficiente para cicatrizar qualquer ferida. Vim porque estava cansada de fugir. Mas o Rio de Janeiro tem cheiro. Cheiro de praia. Cheiro de mato. Cheiro de infância. Cheiro de todas as versões de mim que ficaram pelo caminho. E tem cheiro dele. Do perfume importado que ele usava. Do cigarro que ele apagava na minha pele. Do sangue que eu limpava do chão do banheiro antes que minha mãe viesse me visitar. O cheiro está em toda parte. E eu finjo que não sinto. Saímos da sala. Dona Helena na frente. Eu atrás. O vestido preto ainda pesando nos ombros. O salto ainda doendo nos dedos. O sorriso ainda colado no rosto como máscara de carnaval fora de época. O corredor é longo. Luz branca. Espelhos dos dois lados. Gente passando. Gente olhando. Gente sussurrando. "— É a Jane." "— A modelo plus size." "— Ela é mais gorda pessoalmente." "— Mais linda." "— Será que é casada?" A última pergunta faz meu estômago revirar. Casada. Sou divorciada há oito anos. O papel diz isso. A justiça diz isso. O mundo diz isso. Mas meu corpo não se sente divorciado. Meu corpo ainda sente as mãos dele. Meu corpo ainda espera o tapa que não vem. Meu corpo ainda treme quando um homem ergue a voz muito alto. Meu corpo não assinou nenhum papel. Viramos o corredor. E ele está ali. O filho da dona Helena. Vulcano. — Ele ainda está ali? — pergunto, mesmo sabendo a resposta. — Está. — Dona Helena responde simples. — Ele vai esperar. — Por quê? — Porque eu pedi. Ela diz isso como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se pedir fosse o mesmo que ordenar. E pelo jeito, com aquele homem, é exatamente assim. Respiro fundo. Ajeito o vestido. Endireito a postura. — Vamos. Agora eu notei. Não de relance. Não pelo canto do olho enquanto desfilava. Não de longe, sentado na primeira fila. De frente. Ele é grande. Maior do que parecia. Mais largo. Mais alto. Mais escuro. Não escuro de pele. Escuro de presença. Os braços cruzados na frente do peito. O terno preto perfeitamente alinhado. A barba feita. O cabelo cortado na régua. Os olhos… Os olhos continuam ali. Fixos. Pesados. Como se ele estivesse me lendo há horas e eu só tivesse notado agora. O corredor de repente fica pequeno demais. O ar de repente fica curto demais. Dona Helena fala alguma coisa. Não escuto. As palavras se dissolvem no ar, viram borrão, viram barulho de fundo. Porque ele não desvia o olhar. Outros homens desviam. Outros homens olham para o meu corpo primeiro, depois sobem devagar, como se estivessem avaliando uma mercadoria. Outros homens sorriem com segundas intenções ou franzem a testa com desaprovação. Ele não faz nada disso. Ele olha para o meu rosto. Direto. Sem piscar. Sem sorrir. Sem julgamento. E isso é mais assustador do que qualquer encarada que eu já recebi. Porque eu não sei o que ele quer. Porque eu não sei o que ele vê. Porque eu não sei se estou sendo lida ou despida. — Obrigada pelo carinho. — Falo olhando para os dois. Primeiro para Dona Helena, depois para ele. A palavra sai da minha boca. Baixa. Controlada. A voz que eu uso para entrevistas. Para fotógrafos. Para o mundo. Ele mexe o corpo. Apenas um pouco. Mas o suficiente. — Eu tenho que te chamar de Vulcano? — pergunto, porque o silêncio está pesado demais e alguém precisa falar alguma coisa. Ele vira o corpo na minha direção. O movimento é lento. Intencional. Calculado. Como se ele quisesse que eu sentisse o peso da atenção dele antes de qualquer palavra. Como se ele estivesse dizendo "olha pra mim" sem abrir a boca. — É assim que geral me conhece. A voz ecoou no corredor. Grave. Seca. Sem enrolação. Volto a franzi a testa sem querer. Vulcano. O deus do fogo. O ferreiro. Aquele que forjava armas para outros lutarem. E isso lá é nome? Apelido? Vulgo? Nome de guerra? Tento entender. Tento medir. Tento decifrar se ele está tirando sarro, se está se protegendo, se está me testando. Ele não recua. Fica parado. Imóvel. Esperando. O silêncio entre a gente cresce. Vira uma coisa viva. Vira uma parede. Vira um abismo. Não sei quanto tempo fico encarando ele de volta. Dois segundos. Três. Cinco. Dona Helena está ao lado. Não fala nada. Não respira. Ela sabe. Sabe que alguma coisa está acontecendo. E não é normal. Meu rosto suaviza primeiro. Não porque eu queira. Porque meu corpo cansou de lutar contra alguma coisa que ele não entende. Meus ombros baixam um pouco. Minha guarda cai um centímetro. E meu olhar… Meu olhar desvia. Abaixo a cabeça. Não muito. Só o suficiente para quebrar aquele confronto silencioso. Eu perdi. Não sei o quê. Não sei como. Mas perdi. Senti uma mão fechando no meu braço. Não precisei olhar para saber de quem era. O corpo sabe antes da mente. O corpo nunca esquece. O toque é forte demais. Apertado demais. Familiar demais. Oito anos. Oito anos tentando esquecer a pressão dos dedos dele no meu braço. Oito anos tentando apagar a memória da força que parecia carinho até não parecer mais. Continua...
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