Guilherme Narrando
Saí do hotel com os passos firmes, o ódio ainda queimando no peito, os olhos vermelhos de raiva e de pimenta. A noite do Rio estava quente, mas o sangue nas minhas veias estava mais quente ainda.
Entrei no carro. Bati a porta com força. O volante rangeu debaixo dos meus dedos de tão forte que eu apertei. A chave girou na ignição com um estalo seco, e o motor roncou.
— Acha que vai se livrar de mim, Jane? — falei sozinho, dentro do carro, rindo igual louco. — Acha que um spray de pimenta vai resolver essa história?
Liguei o motor e arranquei. Cortei o caminho. A cidade passando pela janela como borrão. Os sinais vermelhos viraram amarelos pra mim. A pressa era pouca. A raiva era muita. Cada semáforo era uma provocação. Cada pedestre na faixa era um obstáculo.
Cheguei em casa meia hora depois. Joguei o carro na garagem como se não houvesse amanhã. O porta-malas fechou com um estrondo. Subi as escadas de dois em dois, a respiração pesada, os punhos fechados.
Entrei na sala. Joguei a arma em cima da mesa. O metal bateu no vidro com um barulho que ecoou pela casa inteira.
Letícia estava no sofá. As pernas embaixo do corpo. O celular na mão. Ela levantou os olhos devagar e me encarou. O medo já estava ali. Eu conheço esse olhar. É o mesmo olhar que Jane tinha antes de aprender a fingir que não sentia medo.
— Aonde você foi? — ela perguntou, a voz baixa, hesitante.
— Resolver um problema. — respondi curto, tirando o paletó e jogando no sofá.
— Não acredito que você foi atrás dela. — ela falou, se levantando devagar.
O som do nome da Jane na boca dela fez meu sangue ferver.
— Já falei pra você não falar o nome dela. — minha voz saiu grossa, perigosa. Dei um passo na direção dela.
— Como é que eu não vou falar o nome dela se você vive pensando nela? — Letícia respondeu, a voz trêmula, mas com um fio de coragem. — Eu quero saber o que eu tô fazendo ainda nessa casa.
Eu fui para cima dela. Rápido. O corpo fechando o espaço. A mão fechou no pescoço dela antes que ela pudesse recuar.
— Você tá aqui porque eu quero. — falei, enfiando o dedo no nariz dela, apertando. — E você só sai daqui quando eu quiser.
Ela tentou se soltar, mas não conseguiu.
— Você sabe que você sempre vai ser a outra na minha vida. — continuei, a voz baixa, venenosa. — Sempre foi assim. Jane foi primeiro lugar. Você ficava com o resto dela. E vai ser assim até quando eu disser.
As lágrimas escorriam pelo rosto dela.
— O tempo que ela ficou fora, você ficou em primeiro lugar na minha vida. — falei, apertando mais o pescoço. — Agora se contenta em voltar pro seu posto.
— Eu quero ir embora. — ela conseguiu dizer, a voz falhando, o choro engasgado.
Eu dei uma risada seca.
— Você vai dentro de um caixão. — falei, soltando ela com um empurrão. — Ou dentro de qualquer vala no Rio de Janeiro. Escolhe.
— Tomara que você encontre alguém que te mate antes. — ela falou, com os olhos cheios de lágrimas, a voz tremendo.
O ódio subiu.
Eu dei um tapão na cara dela. A mão aberta. Com força. A cabeça dela virou pro lado com o impacto.
Ela caiu no chão. Chorando. Com a mão no rosto. O cabelo cobrindo o olho.
— Não acredito que você vai fazer isso de novo? — ela perguntou incrédula.
Eu fiquei olhando. Sem pena. Sem remorso.
— Isso. — falei, ajeitando a manga da camisa. — Assim você aprende a não falar o que não deve.
Peguei a arma em cima da mesa. Guardei na cintura.
— Maria! — gritei, chamando a empregada que estava na cozinha.
Ela apareceu na porta da sala segundos depois, o avental branco amarrado na cintura, as mãos molhadas, o olhar assustado.
— Seu Guilherme? — ela perguntou, a voz baixa, respeitosa.
— Maria, quero que prepare o quarto de hóspedes. — falei, a voz calma, controlada, como se não tivesse acabado de bater em mulher no chão da minha própria sala. — A Jane vai ficar ali.
O chão rangeu. Letícia se levantou com o pouco de dignidade que sobrou. O rosto vermelho. Os olhos inchados de choro.
— O quarto de hóspedes? — ela perguntou, a voz trêmula. — Eu vou para o quarto de hóspedes?
Virei o rosto devagar para ela.
— Cala a boca. — falei, o dedo apontado na cara dela. — Eu tô falando com a Maria. Não com você.
Ela recuou um passo. O medo tomou conta do rosto dela de novo.
Maria hesitou na porta, o olhar indo de mim para Letícia, de Letícia para mim.
— Por acaso, seu Guilherme… — Maria começou, a voz cuidadosa — o senhor vai embora?
— Não. — respondi, um sorriso lento se abrindo no meu rosto. — Não vou embora, não. Vou receber visita.
Maria arregalou os olhos.
— Vou receber a única mulher que realmente me interessa. — continuei, pegando a arma da cintura e colocando em cima da mesa de novo. — A Jane.
O silêncio que caiu na sala foi pesado. Mortal.
Letícia explodiu.
— Não é possível! — ela gritou, os braços abertos, o choro voltando com tudo. — Você não vai colocar ela pra morar aqui comigo! Eu não vou morar na mesma casa que aquela mulher!
Virei o rosto devagar. Muito devagar. O sorriso sumiu.
— Quem manda aqui sou eu. — falei, a voz baixa, cada palavra caindo como uma faca. — E você vai fazer o que eu mandar. Calada. Se não quiser apanhar de novo.
Letícia levou a mão ao rosto. As lágrimas escorriam pelos dedos.
— Maria. — chamei, sem tirar os olhos dela. — O quarto de hóspedes. Agora.
— Sim, seu Guilherme. — Maria respondeu, sumindo pelo corredor.
Letícia ficou parada no meio da sala. Tremendo. Derrotada.
Eu me sentei no sofá. Cruzei as pernas. Peguei o controle da televisão.
— Jane vem morar com a gente. — falei, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — E você vai aprender a conviver com isso.
Letícia não respondeu. Só chorou. E eu sorri. Porque o plano estava em movimento.
E a Jane ainda nem sabia o que vai bater na porta dela daqui algumas horas.
— Maria, você tá dispensada. — falei, acenando com a mão pra empregada sem nem olhar na cara dela. — E você, Letícia… suma da minha frente.
Ele sorriu. c***l. Devagar.
— Porque você sempre vai ser só isso. A que sente ciúme. Enquanto ela… ela sempre vai ser a que eu quero.
Continua...