Vulcano narrando
Caralhø, püta que pariu. As duas últimas semanas não passaram — elas voaram. Parece que foi ontem que eu tava naquele corredor de camarim olhando pra Jane tremendo com a mão do arrombado no braço dela, e já se passaram catorze dias. O tempo tá passando igual moto descendo ladeira sem freio.
E a coroa ontem já veio com a ideia de que ela vai descer pro asfalto pra outro desfile. Chegou na sala, já com aquele olhar de quem não vai aceitar não como resposta.
— Filho, você vai comigo de novo. — ela falou, os braços cruzados, a postura de rainha.
— Ih coroa, leva o coroa com você. — respondi, já cansado só de pensar em vestir terno de novo. — Eu não tô afim de ir. Ainda mais porque tem uma resenha marcada lá no Cantagalo.
O coroa já deixou a ideia clara: esses bagulhos de asfalto, desfile, gente chique, holofote — quem tem que segurar sou eu. Porque ele não tem idade mais pra isso. Não joguei logo na cara dele que o marido da Dona Helena é ele e não eu. Mas passou pela minha cabeça. Passou bem rápido.
— Eu não tenho idade pra ficar indo atrás de passarela. — ele falou, com aquele tom de quem já decidiu. — Você tá na sucessão. É você que tem que fazer essas paradas agora.
Papo reto: ele não curte a parada de ir pra desfile. Essas coisas de mulher, holofote, gente falsa, roupa cara. Ele acha que eu tenho que engolir isso porque a minha coroa quer ir. Ele não abraça o bagulho. E como eu não sei falar não pra minha mãe, acabo eu me enfiando nessas enrascadas sozinho.
A noite passada foi osso. Praticamente viramos a madrugada naquela resenha do "só de cria" mesmo. Os gurias, os mano, tudo junto. E as meninas perceberam que a Andressa e umas amigas dela do cursinho tavam numa mesa próxima da nossa. Ficaram cercando, urubuzando a noite toda. Olhando de lado. Mandando sorrisinho. Fazendo charme.
Geral ficou tirando sarro da minha cara.
— Chefe, tu abraçou o celibato, p***a? — Carrasco gritou de longe, os outros tudo rindo.
— Só porque eu dei um fora na Emily, vocês tão achando que eu virei padre. — respondi, balançando a cabeça.
E olha que a Emily é linda. Pequenininha, mas com tudo no lugar. Uma delícia de mulher. Cabelo loiro liso, olho puxado, boca desenhada. Mas eu sou assim: quando eu não quero, eu não quero. Não vou descarregar por descarregar. Não vou usar mulher igual alguns fazem por aí. Prefiro usar a mão do que me envolver com quem não me interessa.
Deixei eles com a zoação. Tava meio zoado já, a cabeça pesada, o corpo cansado. Pinei pra minha casa. Tomei aquele banho demorado, água gelada descendo pelo corpo, acordando cada músculo. Caí na cama e apaguei.
Acordei com o rádio chiando no criado-mudo. Já pulei praticamente dentro do chuveiro. Tomei aquela ducha gelada de novo pra despertar de vez. Dei aquele tapa no visual: desodorante, aquele perfume amadeirado que a coroa me deu de aniversário, uma bermuda preta, um tênis no pé. Peguei o rádio, o celular, a pistola nove milímetros, a chave da moto. E fui direto pra um cantinho de café que tem no morro.
O café no morro é parada séria.
Não é esses negócio de cápsula, não. É café coado na hora, o cheiro subindo e misturando com o cheiro de vida. Os cria já tavam na labuta quando brotei na praça. Carrasco sentado na cadeira de plástico branca, os cotovelos apoiados na mesa de fórmica. Regente ainda não tá por aqui com certeza já recolhendo os malotes.
— E aí, chefe. — Carrasco falou, levantando o queixo na minha direção.
— E aí. — respondi, puxando uma cadeira e sentando.
O dono do bar — seu Waldemar, um senhor de cabelo branco que já viu de tudo nesse morro — trouxe dois copos de café. Amargo. Escuro. Do jeito que a gente gosta. Carrasco pegou o dele, bebeu um gole e fez careta.
— Tá quente ainda. — ele reclamou.
— Bebe direito, pørra. Café é quente. — falei, dando um gole no meu sem nem esperar esfriar.
Pedimos pão com ovos e a gente ficou trocando ideia sobre o morro. Sobre o movimento. Sobre os pontos que tão precisando de reforço. Sobre os homens que tão vacilando no horário. Conversa de rotina. Conversa de quem comanda.
— O movimento na contenção tá tranquilo. — Carrasco falou, os dedo batendo na mesa. — Mas os cara da 25 tão querendo crescer pra cima da gente.
— Deixa eles pensarem que podem. — respondi, colocando o copo de café na mesa. — Quando eles tentarem, a gente mostra o que acontece.
Carrasco concordou com a cabeça.
— E aí, como é que foi o bagulho do desfile com a sua coroa? — ele perguntou, o olho brilhando de curiosidade.
Balancei a cabeça, já cansado de lembrar.
— A coroa quer que eu vá de novo. — falei, enchendo o copo de café de novo. — Falou que tem outro desfile. Quer me arrastar pro asfalto outra vez.
Carrasco riu, a boca cheia de café.
— Uai, só se você for pra ver a sua modelo plus size de novo, né, chefe? — ele falou, os olhos estreitos, o sorriso safado.
— Vai tomar no cu, Carrasco. — respondi, mas sem raiva.
Ele continuou rindo.
— Nada, nada. Tô falando sério. Tu tá querendo ir, pô. Só não quer admitir.
— Engoliu o teu café? — falei, levantando da cadeira. — Agora vamos ralar porque o dever chama. Deixa esse bagulho de desfile pra amanhã.
Joguei o dinheiro do café em cima da mesa. Carrasco levantou, esticou as costas.
— Porque eu ainda vou enfiar na cabeça do meu coroa que ele é quem vai acompanhar a minha coroa nesses bagulho. — continuei, pegando o rádio na cintura. — Eu vou ficar aqui no meu morro fazendo o que eu tenho que fazer.
Subimos os dois pra boca. O movimento já tava intenso. Gente na fila. Os cria atendendo rápido. Carrasco se despediu com um aceno.
— Vou pra sala bater umas contas com o Regente. — ele falou.
Entrei na sala. Fechei a porta atrás de mim com um clique seco. Joguei as coisas em cima da mesa: o rádio, o celular, a pistola, a chave da moto. O peso do corpo caiu na cadeira giratória. Respirei fundo. Puxei o maço do bolso, tirei um cigarro, botei na boca. Acendi. Puxei a fumaça fundo.
Foi quando eu tirei o baseado do bolso da camisa. Um fino. Só pra dar uma acalmada nos nervos. Botei na boca, acendi com o isqueiro prateado. A fumaça subiu devagar pro teto.
Alguém bateu na porta. Três batidas secas.
— Pode entrar! — gritei, a fumaça ainda saindo da minha boca.
A porta abriu devagar.
Emily entrou.
Cabelo solto descendo pelas costas igual cascata. Um vestido vermelho que parava no meio da coxa. Decote V que vinha quase perto do umbigo. Os p****s redondos à mostra. A cintura fina. O salto alto fazendo click-click no piso de cimento.
Eu travei o baseado na boca.
— O que você tá fazendo aqui, Emily? — perguntei, a voz grossa, o olhar fixo nela.
Ela sorriu. Aquele sorriso de quem sabe o que quer.
— Vim tomar café da manhã, ué. — ela respondeu, a voz macia, dengosa.
Eu dei uma gargalhada. Uma gargalhada seca, de canto.
— A lanchonete é na praça. — falei, apontando o baseado na direção da janela. — A padaria é na praça. O café também é lá na praça.
Ela deu mais dois passos na minha direção. O vestido balançou. O perfume dela chegou antes do corpo.
— Eu só vim atrás de leite da fonte. — ela falou, os olhos nos meus, o sorriso ainda no rosto.
O baseado queimava entre meus dedos. A fumaça subia pro teto. E o olhar dela não saía do meu.
Eu fiquei quieto. Sem responder. Só olhando.Porque na minha cabeça, naquele segundo, não era ela que tava aqui. Era outra mulher.
Vestido preto. f***a na perna. Medo no olhar.
— Nossa, chefe, viajou legal. A mamadeira tá a ponto de bala. — Ela falou, me fazendo sair do meu transe. Senti a mão dela apertando meu paü.
Continua...