Cap- 03. Chatice

2004 Words
Thiago Velásquez Mais uma noite em claro. Já virou rotina. O sono me evita como se fosse minha ex-noiva — aquela interesseira que jogou nosso noivado no lixo e fugiu com o meu próprio primo uma semana antes do casamento. Levanto com o corpo moído e a alma mais ainda. Desço até o bar da sala, sirvo um copo generoso de whisky e viro tudo de uma vez. A bebida queima minha garganta… mas não chega nem perto da dor que carrego no peito. Desde aquele dia, jurei que nunca mais ia me apaixonar. Amor é uma merda. Promessas? Mentiras com laço. E eu cansei de ser o i****a da história. Acordo com um trovão chamado Tomás Velásquez gritando no meu ouvido. A cabeça lateja, o estômago revira, e minha boca tem gosto de arrependimento e escócia envelhecida. — TIAGO! Isso é hora de estar dormindo?! — berra meu pai da porta do quarto. — Que horas são? — resmungo, cobrindo os olhos com a mão. — Horário de já estarmos na empresa! Como posso confiar meu império a você desse jeito? Em vez de estar pronto, tá aí largado, cheirando a álcool! Suspiro fundo, tentando não gritar de volta. — Relaxa, pai. Eu vou cuidar da sua empresa direitinho. Ele bufa, indignado. — Você bebeu! Logo hoje, quando ia te apresentar pra equipe como meu sucessor! Olha essa cara! Olha esse bafo de whisky barato! — Primeiro: não tô tão acabado assim. Segundo: o whisky não era barato, era um escocês de 1975. Coisa fina. — Thiago, me poupe! Não importa se era 1975 ou 1875! O problema não é a safra, é o dono da garrafa. Você bebeu quase tudo sozinho, seu s*******o! No que você estava pensando? Ignoro. Me levanto, vou pro banheiro e deixo ele falando sozinho — como sempre faz quando quer descontar as frustrações da vida em mim. Entro no chuveiro e deixo a água gelada cair como punição. Preciso me recompor. Eu sou Velásquez. Não posso demonstrar fraqueza. Não hoje. Saio do banho e me visto com a mesma precisão com que escondo minhas rachaduras. Camisa branca impecável. Terno azul-marinho alinhado. Gravata preta. Perfume de presença. Máscara firme. O príncipe herdeiro da Velásquez Imóveis está pronto para sorrir por fora e mandar todo mundo se f***r por dentro. Antes de sair, engulo um comprimido pra dor de cabeça e ignoro o olhar de reprovação do meu pai enquanto preparo um café bem forte. Não posso deixar ninguém perceber que estou de ressaca. Muito menos que ainda carrego cicatrizes que o tempo se recusa a apagar. Hoje começa oficialmente a era Thiago Velásquez. E que o mundo se prepare. Porque eu não vim pra ser bonzinho. (***) Entramos na empresa, e meu pai começa a cumprimentar um por um como se fosse candidato em época de eleição. Enquanto ele distribui sorrisos, eu só penso em uma coisa: hoje é o dia. O dia em que assumo de vez os negócios da família. E pra isso, preciso ser exatamente o que o mundo exige de mim: frio, calculista, intocável. Sentimento? Só se for desprezo. Chegamos ao andar principal. A equipe está posicionada como se estivessem prontos para um desfile de boas maneiras. Depois de um discurso longo, tedioso e recheado de frases de efeito que meu pai provavelmente ensaiou no espelho, ele me apresenta. — Esse é meu filho, Thiago Velásquez. De hoje em diante, ele será o novo diretor-executivo da Velásquez Imóveis. — diz ele, como se estivesse passando uma coroa. Faço um aceno breve, nada além do necessário. Assim que a cerimônia patética termina, meu pai se despede, bate no meu ombro com orgulho — que não consigo retribuir — e vai embora. Mal ele cruza a porta e eu já caminho até minha nova sala. Entro no escritório e, por um momento, me permito parar. É maior do que imaginei. Minimalista, elegante, luxuoso. Mas o que realmente me prende por alguns segundos é a vista. Dali, consigo ver o mar. O azul se estende no horizonte como uma promessa de liberdade que não me pertence. Suspiro e afasto o pensamento. Liberdade é para os fracos. Eu tenho um império pra comandar. Inicio meu expediente chamando minha nova secretária. Senhorita Valle. Peço todos os documentos com os quais meu pai estava trabalhando antes de sair. Ela me entrega tudo com pressa e eficiência… talvez até demais. Folheio as papeladas com tédio. Na verdade, eu entendo perfeitamente o conteúdo. Mas onde estaria a graça se eu não colocasse essa equipe toda pra trabalhar de verdade? Volto a chamar minha secretária. E dessa vez, dou uma bronca caprichada. — Esses relatórios estão uma merda. Quero tudo refeito. Até amanhã. Vejo o susto no rosto dela. A voz sai firme, cortante, como deve ser. Se não sentirem medo, não respeitam. Horas depois, olho para o relógio. Passa das seis. Organizo os papéis com calma. Aperto o botão do elevador. Antes de entrar, me viro e dou o aviso final. — Pode ir, senhorita Valle. Mas quero os relatórios reescritos na minha mesa amanhã. Sem falhas. Ela me olha com algo nos olhos… que não sei decifrar. Orgulho ferido? Ódio contido? Medo? Interessante. O resto da semana é um desfile de reuniões tediosas, com empresários que se acham brilhantes… mas que não passam de velhos decadentes com hálito de charuto barato e piadas que já estavam fora de moda antes de eu nascer. Sorriem demais, falam demais, prometem demais. Idiotas. Se depender de mim, metade deles não vai durar mais um trimestre. O reinado Velásquez agora é meu. E eu vou limpar esse tabuleiro até só restar o que realmente importa: Poder. Controle. E silêncio. (***) Graças a Deus é sexta-feira. Essa semana foi um saco. Uma sequência de reuniões inúteis, empresários podres de ricos e de tédio, planilhas intermináveis e uma secretária eficiente até demais. Preciso sair. Beber. Distrair. Esquecer que ser CEO é um inferno com gravata. Decido ir até uma balada nova que abriu perto do prédio. O lugar está cheio, moderno, com gente bonita e música alta — exatamente o que preciso para desligar o cérebro. Mal coloco os pés no salão, dou de cara com ela. Pricila Valle. Minha secretária. Aquela mulher invisível de roupas sociais e rosto sério agora está de vestido preto colado ao corpo. Manga longa, tecido justo, curvas marcadas… E eu nem fazia ideia de que por baixo daquela formalidade toda existia isso. Meus olhos percorrem cada centímetro do corpo dela antes que meu cérebro processe. Ela tá linda. Sexy. Provocante. E isso me irrita. Porque eu não gosto de ser surpreendido. Ainda mais por ela. — Olhe por onde anda da próxima vez. Já não basta ser distraída na empresa, quer ser na rua também? — disparo, ríspido, apenas para disfarçar o impacto que ela me causou. Ela me olha, sem graça, gagueja algo… e some no meio da multidão. Viro as costas e me afasto, fingindo que não estou com a cabeça cheia da imagem daquele maldito vestido. Vou dar uma volta. Procurar uma presa qualquer pra me distrair. Um corpo. Uma boca. Algo simples, rápido e sem complicações. Mas nada me agrada. Tudo sem graça. Forçado. Igual demais. Até que uma ideia me invade, como um sussurro perigoso: Por que não me divertir com a minha secretária? Só uma brincadeira, claro. Nada sério. Meu pai pode ter deixado claro que eu não devo me envolver com funcionárias, mas... ele não precisa saber. Vejo quando ela sai do bar, andando em direção à rua. A sigo com calma. Ela para, pega o celular. Antes que chame o Uber, me aproximo. — Quer uma carona? Ela nem se vira. — Não, obrigada. — Não vou perguntar de novo. — aviso, já irritado com a teimosia. — Então não pergunte. — rebate, seca, digitando no celular. — O que você está fazendo? — Chamando o Uber. Já que você me interrompeu da última vez. — diz, ainda sem me olhar. — Já disse que posso te levar. — E eu disse que não quero. Além de surdo, esqueceu que você é meu chefe? Não pega bem. Ela não só me n**a… como me desafia. — Tudo bem. Você quem sabe. — dou de ombros e volto para o bar, engolindo a irritação. Que garota teimosa. Definitivamente, hoje não é meu dia de sorte. Sento no balcão, peço um whisky duplo com gelo e uma fatia de limão. O bartender me entrega rápido. Tomo um gole e deixo o líquido queimar minha garganta, enquanto observo o ambiente à minha volta. Logo, uma loira deliciosa aparece do meu lado, encostando no balcão com a confiança de quem já escolheu a presa da noite. — O gato me paga uma bebida? — diz, sorrindo de um jeito descarado. — Claro. O que você bebe? — O que você quiser me dar. Gosto disso. Peço uma vodka pra ela, que toma um gole e se aproxima mais. — Obrigada, me chamo Lívia. — Thiago Velásquez. — respondo, encostando o copo na boca. — Prazer é meu, gostoso. Que tal a gente sair daqui… e brincar um pouquinho? — diz com a voz carregada de malícia. Viro o restante da bebida num gole só. Puxo ela pela cintura, a beijo com força. Ela retribui, desce a mão pelo meu peito, depois pela calça… sente meu "interesse". Sorri satisfeita. — Uau… acho que você vai me dar trabalho. — Só se aguentar. — respondo, rouco. Ela me puxa pela mão, já me levando pra fora da balada. Mas mesmo com a língua dessa loira na minha boca, o vestido preto daquela secretária teimosa não sai da minha mente. E isso… me irrita ainda mais. (***) Acordo com um leve incômodo ao meu lado na cama. A loira da noite passada — Lívia, ou algo assim — ainda dorme, esparramada como se tivesse direito sobre o colchão. Reviro os olhos, me levanto sem fazer barulho e sigo direto para o banheiro. Um banho gelado, rápido, pra tirar o resto do cheiro de álcool e sexo da pele. Me visto com uma camiseta preta, bermuda e tênis. Hora do meu ritual sagrado: treino. Mas antes... — Filó! — chamo, já descendo as escadas com a toalha no ombro. — Despacha a loira que tá no meu quarto, por favor. A mulher cruza os braços na porta da cozinha, com aquele olhar de quem já ouviu isso mil vezes. — Você não toma jeito, né, meu filho? — Filó… ela é só mais uma. Uma distração. — dou de ombros, pegando uma garrafinha de água na geladeira. — Distração que dorme na sua cama? Tá certo. Já tá passando da hora de você encontrar uma moça decente, casar, criar juízo… — Deus me livre desse m*l. — digo, me benzendo com deboche. — Tô ótimo assim. Ela balança a cabeça, mas não responde. Filó é minha governanta há anos, praticamente me criou. Tenho mais lembranças dela do que dos meus pais. Talvez por isso ela ache que tem liberdade pra opinar… e, talvez, ela tenha mesmo. Mas isso não significa que eu vá ouvir. Entro na academia e sou outro homem. Aqui é o único lugar onde o mundo cala a boca. Onde não existe empresa, nem funcionários, nem passado, nem mulheres mentirosas. Só o som da música, o peso, e o foco. Durante o treino, cada gota de suor é uma válvula de escape. Cada repetição, uma forma de fugir da bebida, da raiva, do tédio. Do vazio. Termino o treino, tomo mais um gole d’água, pego minhas coisas e saio. Entro no carro, ligo o motor e acelero pelas ruas com os vidros abertos, deixando o vento bater no rosto como se pudesse arrancar o que ainda resta da noite anterior. E mesmo com o corpo exausto… a imagem que insiste em voltar na minha cabeça não é da loira. É do maldito vestido preto da senhorita Valle. E isso... Isso me deixa furioso.
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