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1274 Words
Signora Ferraro não era c***l. Isso foi o que Aurora percebeu primeiro, e foi o que mais a desconcertou. Ela esperara uma carcereira, alguém que a tratasse como mercadoria sendo polida para exposição. E, de certa forma, era isso mesmo. Mas a mulher fazia o trabalho com uma eficiência quase terna, como se já tivesse feito aquilo dezenas de vezes e soubesse que a menina sentada à sua frente não tinha culpa de nada. — Não gosto disso mais do que você — disse a Signora, no segundo dia, enquanto prendia o cabelo de Aurora com grampos frios. — Mas é o que é. O Don manda, e nós obedecemos. Aprenda isso agora e sua vida será mais fácil. — E se eu não quiser que seja fácil? A Signora parou. Olhou para Aurora pelo espelho, um olhar longo e avaliador, e algo ali quase se pareceu com interesse. — Então você vai sofrer mais do que precisa — disse ela, e voltou a prender o cabelo. — Mas, por outro lado, é bom que você ainda saiba dizer não. Guarde isso. Só não diga na frente dele. Aurora passou a semana aprendendo coisas. Aprendeu a andar com o vestido justo, os passos curtos, o quadril contido. Aprendeu a sentar com as costas retas e as mãos sobrepostas no colo. Aprendeu a servir chá sem tremer, a aceitar elogios com um aceno discreto, a abaixar os olhos no momento exato em que abaixá-los era mais vantajoso do que sustentar o olhar. Aprendeu quantos talheres havia numa mesa formal e em que ordem usá-los, aprendizado que a fez rir sozinha no escuro do quarto, porque era absurdo, era completamente absurdo, ela estava sendo preparada para jantar com um assassino e a única coisa que lhe ensinavam era qual garfo usar. E, na sexta noite, aprendeu a última lição. — Sobre a noite de núpcias — disse a Signora, sentada na beira da cama, com um tom prático que dispensava cerimônia. — Você vai estar com medo. É normal. Não chore, se puder evitar. Não é que ele vá se importar, mas chorar deixa tudo pior, e você vai ficar com o rosto inchado no dia seguinte, na frente da família dele. Não lute. Não peça explicações. Faça o que ele mandar. E, quando terminar, fique quieta. — Uma pausa. — É só isso. Aurora ficou olhando para as próprias mãos. — A senhora já fez isso? — perguntou. — Não. — A Signora se levantou, sacudindo o vestido. — Mas já vi muitas meninas passarem por isso. Nenhuma delas voltou a ser o que era antes. Isso é tudo que tenho para lhe dizer, e é mais do que deveria. --- O casamento foi numa manhã de sábado, numa igreja pequena de pedra escura, na estrada entre Palermo e Monreale. Não havia flores. Não havia música. Não havia convidados além dos cinco conselheiros, sentados nos primeiros bancos com os rostos fechados, e de dois ou três homens que Aurora não conhecia e que a olharam como se estivessem conferindo se o produto correspondia ao anúncio. O pai dela ficou de pé perto da porta, com um terno novo e um lenço no bolso, e chorou na hora certa, e depois parou de chorar na hora certa, como se alguém tivesse apertado um botão. Aurora usava um vestido branco de manga longa, fechado até o pescoço, sem renda, sem pedraria, sem nada que pudesse chamar atenção. Era o vestido que a Signora escolhera, e Aurora entendera perfeitamente o recado: uma noiva virgem se veste como uma página em branco. Nada de enfeite, nada de individualidade. O corpo dela era a única decoração permitida. Ela não olhou para o altar quando entrou. Olhou para o chão, os degraus, os pés. Contou os passos. Sete, oito, nove. Pensou em quantas coisas acontecem na vida de uma pessoa sem que ela escolha nenhuma delas. Nasceu sem escolher onde. Foi criada sem escolher como. Estava sendo entregue sem escolher a quem. E ainda assim, pensou, eu vou sair daqui. Foi só quando parou diante do padre que ela ergueu os olhos. E o viu. Matteo Corvino não era o que ela esperava. Esperava um homem gordo, velho, de anéis e charuto, desses que aparecem em filmes e riem alto. Esperava um ogro. Ele era jovem. Talvez trinta e cinco, trinta e seis anos. Alto, seco, de ombros largos sob um terno preto impecável. O cabelo escuro, curto, penteado com precisão quase militar. O rosto bonito de um jeito que incomodava, porque não combinava com nada do que Aurora ouvira dizer sobre ele — a beleza parecia um erro, uma piada de mau gosto da natureza, uma máscara para algo que não deveria ter rosto. E os olhos. Os olhos eram escuros, quase negros, e não se moviam. Ele a olhava com uma fixidez que não era desejo, nem curiosidade, nem sequer hostilidade. Era uma avaliação. Como se ela fosse um documento que ele já lera mil vezes e estivesse apenas confirmando se o original correspondia à cópia. Aurora sustentou o olhar. Não sabia por que fez isso. Não fora instruída a fazê-lo — a Signora lhe dissera, na véspera, para olhar para o chão, para a Bíblia, para qualquer lugar menos para o rosto dele, porque homens como o Don não gostam de ser encarados. Mas ela o encarou. E alguma coisa no rosto dele mudou. Não muito. Uma microtensão no maxilar. Um quase nada. Foi o bastante para Aurora entender que ele não esperava aquilo. O padre começou a falar. Aurora não ouviu. A voz dele era um zumbido de fundo, e ela continuou olhando para Matteo, e Matteo continuou olhando para ela, e em algum momento, no meio das palavras em latim, ele inclinou a cabeça um milímetro para o lado, como quem anota mentalmente uma informação nova. Ele me achou diferente, pensou Aurora. Não sei o que ele esperava, mas eu não sou isso. Que bom. --- A mão dele era fria. Foi a única coisa que Aurora registrou quando ele deslizou a aliança em seu dedo. Fria, seca, e nada mais — nenhum aperto, nenhuma hesitação, nenhuma daquelas coisas que ela imaginara que os noivos fazem. Ele colocou o anel como quem assina um contrato: rápido, correto, sem olhar para o resultado. — Pode beijar a noiva — disse o padre. Aurora sentiu o corpo inteiro endurecer. Não sabia o que fazer com a boca. Não sabia o que fazer com as mãos. Não sabia se deveria fechar os olhos, se deveria inclinar a cabeça, se deveria esperar que ele tomasse a iniciativa. Matteo não se moveu. Ele a olhou por três segundos longos, com aquela mesma expressão de avaliação, e então fez algo que Aurora não previu: ergueu a mão e tocou o queixo dela com dois dedos, inclinando-lhe o rosto para cima. Foi um gesto quase gentil, e foi justamente por isso que assustou. Não era carinho. Era posicionamento. Ele estava ajeitando a noiva para receber o beijo, como se ajeita uma coisa. E então ele a beijou. Rápido. Frio. Um toque seco de lábios que não durou nem um segundo, e que não significou nada, e que deixou na boca de Aurora um sabor de nada — nem doce, nem amargo, apenas ausência, como beber água morna. Quando ele se afastou, os conselheiros aplaudiram. Aurora ficou parada ali, com o queixo ainda erguido, e pensou, com uma clareza estranha: É isso. Eu sou dele agora. E ele é o homem mais vazio que eu já vi. --- O carro era preto por dentro e por fora, e o motor não fazia barulho nenhum.
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