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726 Words
Aurora sentou-se atrás, sozinha no banco, e Matteo sentou-se à frente, ao lado do motorista, sem se virar para ela uma única vez. O vidro entre eles estava levantado. Ela não sabia se era para protegê-la do vento ou para mantê-la no lugar. Olhou pela janela. Palermo passou do lado de fora em manchas de pedra clara e verde escuro. Ela nunca tinha visto aquela cidade. Nunca tinha visto cidade nenhuma. E ali estava, dentro de um carro que não era seu, usando um vestido que não escolhera, indo para uma casa que não conhecia, com um anel que não pedira, ao lado de um homem que não amava. E, por dentro, algo doía. Doía de um jeito novo, um jeito que ela não sabia nomear, porque não era tristeza e não era medo e não era raiva. Era o vazio. Era o silêncio dele. Era a maneira como ele a tocara — com dois dedos no queixo, como se ela fosse uma porta que precisava ser aberta na direção certa. Ela tinha passado a vida inteira sonhando com o momento em que sairia daquela casa. Tinha imaginado a liberdade mil vezes, de mil formas — uma janela, um portão, uma estrada, um trem. Nunca imaginara isso. Nunca imaginara que a porta de saída fosse um homem que não a olhava, e que o preço da liberdade fosse pertencer a alguém. E se ele não me quer, então eu tenho uma coisa que ele não tem. Eu quero alguma coisa. O carro virou numa estrada de ciprestes e começou a subir. --- Matteo ouviu a respiração dela mudar quando a casa apareceu. Não se virou. Não precisava. Sabia exatamente o que ela estava vendo — o muro alto, o portão de ferro, a construção de pedra clara no topo da colina, as janelas estreitas como frestas de fortaleza. Sabia porque crescera olhando para aquilo todos os dias, e sabia que aquela visão não produzia em ninguém o que se espera que uma casa produza. Ele a escolhera com cuidado. Não pela beleza, embora fosse bonita de um jeito que o irritava, porque boniteza era o tipo de coisa que distraía os outros e o deixava indiferente. Não pela família, que era pequena e endividada e sem importância. Nem pela educação, que era rígida e incompleta. Escolhera Aurora Bellini por um motivo só, e o motivo era simples: no retrato, ela olhava para a porta. Para fora. Para algum lugar que não era aquele. Matteo conhecia aquele olhar. Ele nunca olhara para nenhuma porta daquela forma. Ele nunca quisera nada que não pudesse pegar. Nunca desejara coisa alguma que não fosse um meio de conseguir outra. Era um homem sem fome, e sempre considerara isso sua maior virtude. Mas reconheceu a fome nela. E naquela fome — naquele desejo i****a e brilhante de uma menina que nunca vira o mar e ainda acreditava que o mundo tinha algo guardado para ela — Matteo viu a única coisa que jamais conseguiria fingir possuir. Era por isso que a escolhera. Não porque a desejasse. Não porque fosse pura. Mas porque ele nunca soube querer nada, e ela queria tudo, e por algum motivo que ele não se dava ao trabalho de examinar, isso o incomodava. — Chegamos, Don — disse o motorista. — Abra a porta dela — respondeu Matteo, sem se virar. — E leve-a direto para os aposentos do segundo andar. Não quero que ela desça para jantar esta noite. — Sim, Don. Matteo saiu do carro primeiro. Ouviu a porta de trás abrir, ouviu os passos dela no cascalho, leves, hesitantes, e não olhou para trás. Atravessou o pátio, subiu os três degraus da entrada, e a casa o engoliu inteiro, como sempre fazia. Atrás dele, Aurora ficou parada no pátio por um instante. Ele não a viu erguer o rosto para o céu. Não a viu girar lentamente sobre os próprios pés, olhando para as paredes, para os ciprestes, para o portão que se fechava atrás do carro. Não a viu levar a mão ao peito, como se prendesse alguma coisa ali dentro. Mas, do outro lado da porta, Matteo parou. E, por um segundo, pensou na respiração dela. Depois sacudiu a cabeça e seguiu para o escritório, e não pensou mais nisso. Foi a primeira vez em anos que ele mentiu para si mesmo.
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