A porta não tinha fechadura.
Aurora ficou parada diante dela por um tempo que não soube medir, olhando para o lugar onde o metal deveria estar e não estava. Não havia buraco. Não havia trinco arrancado. A porta simplesmente nunca tivera uma — e isso, mais do que a cama enorme, mais do que as janelas altas, mais do que o silêncio da casa, dizia tudo o que ela precisava saber sobre onde estava.
Voltou-se para o quarto e sentou-se na beira da cama.
Esperou.
Não sabia o que estava esperando, mas esperou — porque era o que a Signora lhe dissera, e porque era o que se esperava de uma noiva, e porque não havia mais nada que ela pudesse fazer. Esperou uma hora. Duas. Ouviu a casa se acomodar em torno de si: passos no corredor, uma porta batendo em algum andar abaixo, o ruído distante de vozes que não distinguia. Em algum momento, alguém deixou uma bandeja do lado de fora e bateu de leve. Aurora abriu e recolheu: pão, queijo, uma maçã, uma garrafa de água. Comida de quarto de hóspede.
Comeu sem fome, porque não sabia quando voltaria a comer.
Depois se deitou de costas, ainda vestida, ainda com o vestido branco, e ficou olhando para o teto — um teto alto, de vigas escuras, sem nenhuma rachadura, muito diferente do teto da casa do pai. Adormeceu sem perceber. Quando acordou, estava escuro, a casa estava silenciosa, e ele não viera.
Aurora sentou-se na cama e ficou ouvindo o escuro.
Não era alívio o que sentia. Era uma coisa confusa, um emaranhado de vergonha e medo e uma humilhação de tipo novo, uma humilhação que ela não conhecia e que doía mais do que as outras: a de ter sido esperada. Preparada. Entregue. E depois deixada de lado, como uma encomenda que o dono recebeu e ainda não abriu.
Ele a escolhera. Fizera o pai assinar papéis, mandara uma mulher prepará-la, colocara um anel em seu dedo diante de testemunhas. E agora não a queria.
Ou pior: queria, mas não tinha pressa. E era essa possibilidade — a de ser um objeto guardado numa prateleira, esperando a hora que ele decidisse — que fez Aurora sentir o estômago se apertar.
Virou-se de lado e dormiu de novo.
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A manhã chegou sem cerimônia.
Uma criada entrou sem bater às sete, abriu as cortinas, deixou uma bandeja com café e disse, com uma voz neutra de quem já vira de tudo naquela casa:
— O Don quer a senhora no escritório. Depois do café.
— A que horas?
— Quando a senhora terminar o café.
Aurora comeu devagar, de propósito. Não por fome. Por tempo. Queria entrar naquele escritório com o rosto lavado, o cabelo preso, a coluna reta, o vestido simples que a criada deixara dobrado sobre a cadeira — não o branco de noiva, mas um vestido escuro, fechado, sóbrio, que parecia pertencer a outra mulher.
Ele quer regras, pensou, enquanto se vestia. É isso. Ele quer me dizer as regras.
Ela conhecia aquele tipo de conversa. O pai fazia o mesmo com os empregados, com os credores, com ela. Homens que precisam dizer em voz alta o que esperam dos outros porque não confiam em nada que não tenham dito.
A criada a conduziu escada abaixo. A casa era maior do que parecia por fora, um labirinto de corredores de pedra e tábuas escuras, com janelas estreitas que deixavam entrar uma luz cinzenta, sem calor. Não havia flores. Não havia quadros. Não havia nada nas paredes além de uma ou outra cruz antiga, pequena, quase escondida.
A criada parou diante de uma porta dupla, bateu uma vez e abriu sem esperar resposta.
— A senhora Corvino, Don.
E saiu.
Aurora entrou.
O escritório era a única sala da casa que parecia habitada. Mesa grande, coberta de papéis. Estantes lotadas. Uma poltrona atrás da mesa, e Matteo Corvino sentado nela, sem paletó, com a camisa branca dobrada nos punhos e a gravata levemente frouxa, lendo um documento. Ele não levantou os olhos quando ela entrou.
— Sente-se — disse.
Aurora olhou para a cadeira à frente da mesa, a única. Sentou-se com as costas retas e as mãos sobrepostas no colo, exatamente como a Signora lhe ensinara.
Ele continuou lendo.
Aurora esperou. Um minuto. Dois. Três. Ele virava as páginas com a mesma calma, e ela começou a entender que aquilo era parte da conversa — que ele a estava deixando ali, esperando, para que ela sentisse o peso do tempo dele.
Então ele falou, sem erguer os olhos:
— Você vai viver nesta casa. Vai dormir no quarto onde dormiu ontem. Vai comer quando eu como, ou quando eu mandar. Não vai sair do portão sem minha autorização. Não vai receber visitas sem minha autorização. Não vai falar com nenhum homem desta casa sem minha autorização. Nem com os criados. Nem com os motoristas. Nem com os conselheiros.
Ele virou a página.
— Seu pai vai receber uma mesada. Você não vai escrever para ele sem passar pela minha mão. Se ele tentar falar com você por outro caminho, você me avisa. No dia em que eu descobrir que você escondeu algo de mim, ainda que seja a coisa mais insignificante do mundo, essa mesada acaba, e você vai entender o que isso significa.
Aurora não disse nada.
Ele virou outra página.
— Não quero ouvir sua opinião sobre os meus negócios. Não quero ouvir sua opinião sobre nada. Se eu quiser conversa, eu chamo alguém. Você é minha esposa. É isso. O resto, você vai aprender com o tempo.
Fechou o documento. Pousou-o sobre a mesa e, finalmente, ergueu os olhos.
E encontrou os dela.
Foi a primeira vez que se olharam desde a igreja. E, como na igreja, Aurora não abaixou o rosto. Ficou olhando para ele — para aquele rosto bonito e vazio, para aqueles olhos escuros que não piscavam — e sentiu, por dentro, uma coisa que não era medo, e que a assustou mais do que o medo.
— Entendi — disse ela.
— Bom.
— Só uma coisa.
Matteo não respondeu. Apenas esperou.
— Se eu sou sua esposa — Aurora falou devagar, medindo cada palavra, porque sabia que estava pisando em terreno que não conhecia — e se é isso que a senhora Ferraro me disse, então, para ter um herdeiro, o senhor vai ter que me tocar. Não vai?
O silêncio na sala ficou pesado.
Matteo não se mexeu. Nada no rosto dele mudou — nem uma ruga, nem um músculo, nem um piscar. Mas Aurora viu, muito de perto, alguma coisa acontecer atrás daqueles olhos. Não era raiva. Não era desejo. Era surpresa. Surpresa pura, crua, quase infantil, como se ninguém lhe tivesse feito uma pergunta direta em anos.
Ele ficou olhando para ela por um instante longo.
Depois inclinou-se para frente, devagar, apoiou os antebraços na mesa e disse, com uma voz que não tinha nada dentro:
— Você é mais afiada do que eu pensava.
Aurora sentiu o coração bater forte, mas não desviou os olhos.
— Vai — disse ele. — Pode ir.
Ela se levantou. Foi até a porta. Antes de sair, ele falou de novo, e a voz veio de trás dela, baixa, sem ênfase:
— Não faça isso outra vez.
Aurora fechou a porta atrás de si, encostou-se na parede do corredor e ficou parada ali, respirando, com as mãos trêmulas.
Não sabia o que tinha acabado de fazer. Não sabia se o tinha irritado, ou se o tinha interessado, ou se as duas coisas eram a mesma naquele homem.
Mas sabia de uma coisa, e a certeza brilhava dentro dela como uma brasa acesa no escuro:
Ele não a esperava assim.
E isso, por algum motivo que ela não sabia explicar, a fez sorrir.
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Do outro lado da porta, Matteo ficou olhando para o lugar onde ela estivera sentada.
Depois pegou o documento que lia e tentou voltar a ele. Leu três linhas. Quatro. Não entendeu nenhuma.
Fechou a pasta, levantou-se e foi até a janela. Lá fora, os ciprestes balançavam com o vento.
Você é mais afiada do que eu pensava.
Ele não dissera aquilo por elogio. Dizia por constatação, como quem anota o resultado de um exame. Mas, ao repetir a frase na cabeça, percebeu que tinha sido a coisa mais parecida com interesse que saíra de sua boca em muito tempo.
E isso o incomodou mais do que qualquer pergunta que ela pudesse ter feito.