1
Aurora abriu os olhos lentamente.
A cabeça doía de uma maneira insuportável. Havia uma pressão forte na região onde havia sofrido a pancada, e por alguns segundos ela permaneceu imóvel, tentando entender onde estava.
O teto branco.
O cheiro característico de hospital.
O soro preso ao seu braço.
Ela tentou se mexer, mas sentiu o corpo pesado.
— Aurora? — chamou o médico, percebendo que ela havia despertado. — Consegue me ouvir?
Ela piscou algumas vezes e olhou ao redor.
Havia uma enfermeira próxima ao aparelho que acompanhava seus sinais, o médico ao lado da cama e, mais afastado, encostado perto da porta, um homem que permanecia em silêncio.
Aurora demorou apenas alguns segundos para reconhecê-lo.
Seus olhos se arregalaram.
— Matteo...
O homem ergueu a cabeça.
Ele estava ali havia horas.
Desde que o hospital havia entrado em contato com o número de emergência encontrado no celular dela, Matteo não havia deixado o local. Os médicos não tinham conseguido contato com nenhum familiar e, como ele ainda era o marido de Aurora, foi a única pessoa que puderam chamar.
Ele havia permanecido no hospital esperando que ela acordasse.
Quando ouviu seu nome sendo pronunciado, Matteo se afastou da porta.
— Aurora.
Ela o observou se aproximar.
Por um instante, pareceu confusa.
Então seu rosto mudou completamente.
Um sorriso surgiu em seus lábios.
Como se vê-lo ali fosse a coisa mais natural do mundo.
Aurora se sentou na maca, ignorando a dor que atravessou sua cabeça, e estendeu os braços para ele.
— Meu amor...
Matteo parou diante dela.
— Calma, você não pode se...
Aurora o abraçou antes que ele terminasse.
Ela apertou os braços ao redor dele, escondendo o rosto em seu peito.
Matteo ficou completamente sem reação.
— Você veio... — ela murmurou, afastando-se apenas o suficiente para olhar para ele.
Ela passou os olhos pelo rosto dele, ainda sorrindo, mas logo sua expressão mudou.
— O que aconteceu comigo?
Matteo franziu a testa.
Aurora levou uma das mãos à cabeça e fez uma pequena careta de dor.
— Minha cabeça está doendo muito... está tudo tão confuso.
Ela olhou ao redor do quarto novamente, tentando encontrar alguma lembrança.
— Eu não me lembro de nada.
Matteo permaneceu em silêncio.
— O que aconteceu? — ela perguntou novamente. — Eu sofri algum acidente?
Ele ainda parecia tentar entender o que estava acontecendo.
Aurora voltou a encará-lo.
— Eu não consigo lembrar do acidente. Não lembro de como vim parar aqui... não lembro de nada antes de acordar.
Matteo ficou imóvel por alguns segundos.
Então Aurora tocou seu rosto.
Passou os dedos pela barba dele e sorriu.
Matteo não respondeu.
Ela se aproximou e o beijou.
O beijo o pegou completamente desprevenido.
Matteo permaneceu imóvel por alguns segundos, sem saber como reagir àquela atitude.
Quando Aurora se afastou, percebeu a expressão confusa dele.
— O que foi?
— Aurora...
— O quê?
Ele a encarou, tentando entender.
Até aquele momento, Matteo não tinha qualquer motivo para acreditar que havia algo diferente na memória dela. O acidente havia sido grave, mas ninguém havia falado sobre perda de memória.
— Você... — ele hesitou. — Você sabe quem eu sou?
Aurora franziu a testa.
— Claro que sei.
Ela sorriu novamente.
— Você é meu marido.
Matteo ficou em silêncio.
O médico também pareceu surpreso.
Aurora olhou de um para o outro.
— Por que vocês estão me olhando assim?
Matteo passou a mão pelo rosto.
Havia alguma coisa errada.
Ele olhou para o médico.
— Pode nos dar um momento a sós?
O médico hesitou.
— Matteo, ela acabou de acordar.
— Eu sei. Só preciso conversar com ela.
O médico observou Aurora por alguns segundos e, por fim, assentiu.
— Se ela sentir qualquer coisa, me chame imediatamente.
A porta se fechou depois que o médico saiu.
Matteo voltou sua atenção para Aurora.
Ela o observava sem entender.
— Por que você está desse jeito?
Ele puxou a cadeira e se sentou ao lado da maca.
Ainda parecia tentar organizar os próprios pensamentos.
Matteo então falou, ainda tentando assimilar tudo aquilo.
— Nós somos casados.
O rosto dela se iluminou.
— Eu sabia.
Ele respirou fundo antes de completar:
— Mas estamos separados.
Aurora piscou algumas vezes.
— O quê?
Matteo sustentou o olhar dela.
— Nós estamos separados, Aurora. Você não se lembra?
Ela balançou a cabeça imediatamente.
— Não, Matteo... isso não faz sentido.
Ele permaneceu em silêncio.
Aurora levou uma das mãos ao peito.
— Porque eu olho para você e... — sua voz falhou por um instante. — Eu sinto que ainda amo você. Eu tenho certeza disso.
Matteo desviou o olhar.
Ela tentou respirar fundo, mas a confusão só aumentava.
— Eu não me lembro de ter deixado você. Eu não me lembro de ter ido embora. Eu não me lembro de nada disso...
Sua voz começou a ficar trêmula.
— Eu não lembro...
Aurora levou as mãos à cabeça.
Uma pontada forte atravessou seu crânio, fazendo-a fechar os olhos com força.
— Ai...
Matteo levantou-se imediatamente.
— Aurora?
Ela apertou os olhos.
— Minha cabeça...
A dor aumentou rapidamente.
— Matteo...
Ele apertou o botão ao lado da cama.
— Doutor!
A porta se abriu poucos segundos depois.
O médico entrou apressado e foi direto até Aurora.
— O que aconteceu?
— A cabeça dela começou a doer muito.
O médico verificou os sinais dela e fez algumas perguntas, tentando mantê-la calma.
— Aurora, olha para mim. Respira devagar.
Ela tentou obedecer, mas as lágrimas já escorriam pelo rosto.
— Eu não lembro...
— Está tudo bem. Não tente forçar a memória agora.
Matteo permaneceu ao lado da cama, observando tudo.
— Ela precisa de alguma coisa?
— Vou medicá-la para controlar a dor e ajudá-la a descansar.
Aurora sentiu o corpo começar a ficar pesado.
Sua visão ficou cada vez mais embaçada.
A última coisa que viu antes de fechar os olhos foi Matteo parado ao seu lado.
— Eu volto depois — ele disse baixo.
E ela adormeceu.
Quando Aurora abriu os olhos novamente, o quarto estava silencioso.
Sua cabeça ainda estava dolorida, mas a dor havia diminuído bastante.
Ela piscou algumas vezes.
E então o viu.
Matteo estava sentado na mesma cadeira ao lado da cama.
Como se não tivesse ido embora.
Ao perceber que ela havia acordado, levantou-se.
— Como você está?
Aurora o observou por alguns segundos.
— Melhor.
O médico entrou logo depois para avaliá-la novamente.
Fez alguns exames, verificou seus sinais e conversou com ela por alguns minutos.
— A pancada na cabeça foi forte, por isso a perda de memória pode estar acontecendo. Mas, felizmente, você não teve outros ferimentos graves. Pelo restante dos exames, está bem.
Aurora assentiu.
— Então eu posso ir embora?
— Sim. Mas precisa descansar e evitar qualquer esforço. Também quero que alguém fique com você pelos próximos dias.
O médico olhou para Matteo.
Depois voltou-se para Aurora.
— Você se lembra de algum lugar onde possa ficar? Alguma casa? Algum familiar?
Aurora ficou em silêncio.
Tentou pensar.
Nada.
— Não.
O médico franziu levemente a testa.
— Nenhuma casa?
Ela balançou a cabeça.
— Não consigo lembrar.
Matteo permaneceu em silêncio.
O médico olhou novamente para ele.
— Então, por enquanto, ficará sob sua responsabilidade?
Matteo assentiu.
— Sim.
Aurora olhou para ele.
Ainda não entendia completamente o que havia acontecido entre os dois.
Mas naquele momento, ele era a única pessoa que reconhecia.
O único rosto familiar em meio a uma vida que havia desaparecido de sua memória.
O médico entregou algumas orientações a Matteo e explicou os cuidados que deveriam ter nos próximos dias.
Pouco tempo depois, Aurora deixou o hospital acompanhada por ele.
Durante todo o caminho, permaneceu em silêncio.
Matteo também não disse muita coisa.
Ele apenas dirigia, mantendo os olhos na estrada.
Até que o carro entrou em uma rua que, até aquele momento, Aurora não reconhecia.
Ela olhou pela janela.
Então o carro virou uma esquina.
E foi naquele instante que alguma coisa dentro dela mudou.
Seus olhos se arregalaram.
Ela conhecia aquela rua.
Conhecia aquelas árvores.
Aquela calçada.
Aquela entrada.
Seu coração começou a bater mais rápido.
Matteo estacionou diante de uma grande casa.
Aurora ficou olhando pela janela.
Por alguns segundos, não conseguiu dizer nada.
Então levou a mão à boca.
— Meu Deus...
Matteo olhou para ela.
— O quê?
Aurora abriu a porta do carro assim que ele destravou.
Seus olhos estavam marejados.
Ela saiu devagar e ficou diante da casa.
As lembranças começaram a voltar.
Não todas de uma vez.
Mas o suficiente.
Aquela casa.
A casa deles.
Aurora se virou para ele.
Um sorriso emocionado surgiu em seu rosto.
— Eu lembro.
Matteo ficou imóvel.
— Lembra do quê?
Ela caminhou até ele.
— Da nossa casa.
Ele não conseguiu esconder a surpresa.
Aurora segurou sua mão.
— Você me trouxe para casa.
Matteo apenas a encarou.
Ela olhou novamente para a casa, completamente emocionada.
— Eu lembro de tudo daqui... eu lembro de nós aqui.
Matteo ficou sem reação.
Porque aquilo não deveria estar acontecendo.
Aurora havia passado meses dizendo que não queria mais vê-lo.
Havia dito que ele não era o homem certo para ela.
Havia sido ela quem decidiu partir.
Ela havia deixado claro que não queria continuar naquele casamento.
E agora estava diante da casa deles, sorrindo como se tivesse acabado de recuperar a coisa mais importante de sua vida.
— Você está feliz? — ele perguntou, ainda tentando compreender.
Aurora olhou para ele.
— Muito.
Ela apertou a mão dele.
— Eu achei que nunca mais voltaria para cá.
Matteo não respondeu.
Aurora então o abraçou.
— Obrigada por me trazer de volta.
Ele permaneceu parado por alguns segundos antes de finalmente envolver os braços ao redor dela.
Não sabia o que dizer.
Não sabia o que pensar.
Só sabia que a mulher que havia escolhido deixá-lo agora estava feliz por estar de volta ao lugar onde os dois haviam vivido juntos.
E, naquele momento, Matteo começou a perceber que a perda de memória de Aurora poderia mudar tudo.