O regador caiu da mão de Aurora antes que ela percebesse que o soltara.
Água se espalhou pela grama, encharcando a barra do vestido, e ela ficou parada ali, olhando para o portão de ferro que acabara de se abrir. Não era hora de visita. Não havia visita há meses. Naquela casa, ninguém entrava sem que o pai soubesse com dias de antecedência — e quando alguém entrava, Aurora era mandada para o quarto antes que pudesse ver quem era.
Mas naquela tarde o pai veio pelo caminho de cascalho com um estranho ao lado, e não a mandou embora. Pelo contrário. Veio direto até ela.
— Aurora. — A voz dele estava diferente. Mais alta. Mais rápida. — Aurora, temos notícias.
Ela olhou do pai para o homem magro que o seguia — óculos redondos, pasta de couro debaixo do braço, olhos que a percorreram de cima a baixo como se estivesse conferindo uma lista — e sentiu o estômago se fechar.
— Que notícias? — perguntou, baixo.
— O Don Corvino. — O pai disse o nome como quem segura uma taça cara, com cuidado, quase com reverência. — Matteo Corvino. O novo Don. Você sabe quem é.
Aurora sabia. Todo mundo sabia. Matteo Corvino era o filho do velho Vincenzo, o homem que herdara o império da família quando o pai morrera, semanas antes. Havia histórias sobre ele nas cozinhas e nos mercados, ditas em voz baixa, sempre acompanhadas da mesma expressão no rosto de quem contava. Histórias que Aurora ouvira aos pedaços, escondida atrás de portas, sem nunca entender tudo.
— Ele a escolheu — disse o pai.
O mundo não parou. O céu continuou azul, as roseiras continuaram ali, o cascalho continuou sob seus pés. Mas alguma coisa dentro de Aurora ficou muito quieta, como se tivesse prendido a respiração.
— Escolheu — repetiu ela.
— Para ser esposa dele! — O pai riu. Um riso nervoso, quase esganiçado. — Você! Minha filha! A noiva do Don Corvino!
Ela ia dizer alguma coisa. Não sabia o quê. Talvez eu não quero. Talvez eu não o conheço. Talvez o senhor não pode fazer isso comigo. Mas olhou para o rosto do pai — para aquela expressão que já vira antes, quando ele vendera as terras da mãe, quando fechara negócios dos quais nunca falava — e entendeu.
Não era uma notícia.
Era uma ordem.
— Nada — disse Aurora, e baixou os olhos para o regador caído no chão.
O homem de óculos redondos abriu a pasta.
— Precisamos de alguns dados — anunciou, com voz seca de funcionário. — Data de nascimento, exames médicos recentes, atestado de... integridade. Tudo será verificado por nossos médicos. O Don é muito específico quanto a isso.
Aurora ergueu os olhos lentamente.
— Atestado de quê?
— É apenas uma formalidade. — O homem não piscou. — O Don exige que a noiva seja... pura. Intocada. É uma questão de tradição. E de honra. Sua honra, e a dele.
O sangue subiu às faces de Aurora, quente e humilhante. Ela olhou para o pai, procurando ali algum protesto, alguma defesa, alguma centelha de indignação.
O pai estava sorrindo. Sorrindo, com as mãos cruzadas à frente do corpo, como um comerciante satisfeito com o preço fechado.
— É claro — disse ele. — É claro. Aurora você é uma menina exemplar. Sempre foi.
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Naquela noite, Aurora não dormiu.
Ficou deitada de costas no quarto pequeno, olhando para o teto rachado que conhecia desde criança, e repassou os últimos vinte e um anos de sua vida como quem folheia um livro que já leu demais.
Tinha nascido naquela casa. Tinha crescido naquele jardim murado. Tinha aprendido a ler e a escrever com uma professora que vinha duas vezes por semana e que nunca a levou a lugar nenhum. Tinha aprendido piano, mas nunca tocara para ninguém além do pai e dos criados. Tinha aprendido italiano, latim, história, boas maneiras, e todas as coisas que uma jovem de boa família deveria saber, e nenhuma das coisas que uma pessoa deveria saber para viver.
Nunca tinha ido à escola. Nunca tinha tido uma amiga. Nunca tinha ido a uma festa, a um baile, a um casamento. Nunca tinha visto o mar — e morava a menos de uma hora dele. Quando perguntara, aos doze anos, se poderia ir à praia com a filha da cozinheira, o pai respondera que não, e nunca mais falara no assunto.
Ela era uma flor em estufa. Uma coisa guardada. Uma virgem mantida virgem, não por virtude, mas por cálculo. E só agora, à luz fria daquela notícia, Aurora entendia plenamente por quê.
O pai não a estava protegendo. Estava a guardando. Como se guarda um bem valioso até que apareça o comprador certo.
E o comprador certo havia aparecido.
Ela virou-se de lado e olhou para a janela. Do lado de fora, a lua estava alta, e para além do muro — do muro que cercava tudo, que delimitava tudo, que lhe dizia todos os dias onde era o fim do seu mundo — havia uma cidade, um país, um mundo inteiro que ela nunca vira.
Vou me casar com um homem que não conheço.
Vou morar numa casa que nunca vi.
Vou dormir na cama de um estranho que, dizem, é um assassino.
E o pior de tudo — o pior, o mais vergonhoso, o que a fez esconder o rosto no travesseiro — era que, no fundo, muito no fundo, havia uma parte dela que não estava apenas com medo.
Havia uma parte dela que estava aliviada.
Porque, pela primeira vez na vida, algo estava acontecendo. Pela primeira vez em vinte e um anos, uma porta se abria — mesmo que fosse a porta de uma cela maior. Mesmo que do outro lado houvesse um lobo. Mesmo que tudo o que a esperasse fosse pior do que a prisão em que sempre vivera.
Aurora fechou os olhos e, no silêncio do quarto, disse em voz baixa, para ninguém:
— Eu vou sair daqui.
Não sabia que espécie de saída seria. Não sabia que preço pagaria por ela.
Mas naquela noite, com o rosto enterrado no travesseiro e o coração batendo forte, Aurora Bellini sentiu, pela primeira vez em sua vida, uma coisa que se parecia com esperança.
E a esperança, como ela aprenderia muito em breve, era a mais perigosa de todas as armas.
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Três dias depois, um carro preto estacionou diante do portão.
Aurora estava na janela do quarto, escondida atrás da cortina, e viu dois homens de terno descerem. Um deles abriu a porta de trás. O outro permaneceu de pé, as mãos cruzadas à frente do corpo, os olhos varrendo a rua vazia com uma vigilância que não combinava com aquela cidadezinha adormecida.
Do carro saiu uma mulher.
Ela era alta, magra, de cabelo grisalho preso num coque apertado e um vestido cinza sem nenhum enfeite. Atravessou o portão sem pedir licença, sem esperar que alguém viesse recebê-la, e caminhou até a porta da casa como quem já estivera ali mil vezes.
Aurora desceu as escadas quando ouviu a voz dela no salão.
— Sou Signora Ferraro — disse a mulher, sem cumprimentar ninguém. — Vim preparar a noiva. O Don quer que ela esteja pronta. Temos uma semana.
O pai de Aurora surgiu do escritório, ajeitando o paletó.
— Uma semana? Mas eu pensei que...
— Uma semana. — A mulher não olhou para ele. Seus olhos estavam fixos em Aurora, parada no último degrau da escada. E naquele olhar havia algo que Aurora não soube nomear. Não era desprezo. Não era bondade. Era a expressão de alguém que já fizera aquilo muitas vezes, e que sabia exatamente o que estava prestes a acontecer.
— Você deve ser Aurora — disse a mulher.
— Sim, senhora.
— Boa menina. — Signora Ferraro virou-se para o pai. — Preciso de um quarto e de silêncio. Vou prepará-la. Ela não vai sair de casa até o dia do casamento. O Don foi muito claro: nenhum contato com o exterior. Nenhum homem. Nem você.
O pai abriu a boca. Fechou.
— Nem eu? — repetiu, por fim, numa voz fina.
— Nem você.
Aurora olhou para o pai — para o homem que a mantivera trancada a vida inteira, e que agora, diante de outra autoridade, encolhia-se como um cão repreendido. E naquele instante, pela primeira vez, sentiu por ele algo que não era medo, nem respeito, nem sequer ódio.
Sentiu pena.
— Venha, Aurora — disse Signora Ferraro. — Temos muito a fazer.
Aurora desceu o último degrau. Atravessou o salão. Seguiu a mulher de cinza escada acima, rumo ao quarto, rumo a uma semana que a transformaria numa noiva, numa esposa, num bem entregue.
E, por dentro, uma única frase se repetia, teimosa, enquanto subia os degraus:
Eu vou sair daqui.
Eu vou sair daqui.
Só preciso descobrir o que vou encontrar do outro lado.