Café com Risadas

959 Words
A luz do sol invadia o apartamento de maneira quase agressiva, batendo direto nos meus olhos e me obrigando a abrir a porta da consciência. O relógio piscava 7h12, mas meu corpo insistia em querer mais alguns minutos de paz. Só que não: alguém estava de pé ao meu lado, se mexendo com aquela leveza que só mulheres lindas parecem ter. — Bom dia… — Juliana murmurou, ainda meio sonolenta, cabelo bagunçado caindo sobre os ombros, aquele batom que tinha passado ontem à noite agora desbotando no canto do copo de água que segurava. Sorri, ainda com a cabeça apoiada no travesseiro, esticando o braço preguiçoso. — Bom dia… princesa. Dormiu bem? Ela riu baixinho, mordendo o lábio de forma quase irresistível. — Melhor que eu esperava. E você? — perguntou, ainda com aquele jeitinho de quem finge inocência. — Melhor impossível. — Levantei, esticando a coluna, e dei uma passada de mão no cabelo. — Aliás, fiquei pensando… acho que vou me acostumar a começar as manhãs assim. Ela fez cara de riso, se aproximando devagar, e me empurrou de leve: — Você fala isso com todo mundo? — Só com quem consegue me deixar acordado mesmo depois do sono me pegar. — Dei de ombros, piscando, e fui até a cozinha improvisada do meu apartamento. — Cozinha improvisada? — Juliana arqueou a sobrancelha. — Eu diria charmosa, simpática… perfeita pra um café improvisado. — Tá vendo só? — disse, com aquele sorriso torto que eu sabia que a deixava boba. — Se você pensa que me engana com elogios, tá enganada. Mas tá valendo, porque vou aceitar. Peguei a cafeteira, enchendo de água e colocando o pó, enquanto ela me observava, apoiada no balcão, ainda de pijama, cabelo meio despenteado. A cena inteira tinha um clima que eu não queria estragar com palavras demais. Então comecei a fazer minhas gracinhas, mexendo o açúcar com exagero, fingindo que cada gesto era uma dança elaborada. — Cuidado, hein — ela disse, rindo. — Esse café aí pode vir com efeito colateral de charme incontrolável. — Já experimentei — respondi, dando uma piscadela. — E você também vai experimentar. O cheiro do café se espalhou, e sentamos à mesa da cozinha, cada um com sua caneca, o silêncio confortável preenchido pelo aroma quente e pelas risadas ocasionais. Ela mexia na bebida, e eu aproveitava para observá-la: cada detalhe parecia chamar atenção, cada gesto era uma oportunidade de arrancar um sorriso. — Me conta — ela começou, apoiando o queixo na mão — você é sempre assim? Charmoso, engraçado, impossível de ignorar? — Não, não sou sempre assim. — Ri, deixando a caneca descansar sobre a mesa. — Normalmente eu sou sério, responsável, fico no meu canto. Mas quando algo me interessa, aí… — Fiz uma pausa dramática, olhando fixamente nos olhos dela — aí a coisa muda de figura. Ela riu, desviando o olhar, e eu aproveitei para encostar a mão na dela. O toque foi leve, suficiente para dizer o que palavras não precisavam. Entre goles de café e risadas, passamos o que parecia uma eternidade dentro de alguns minutos. Quando o relógio marcou 8h30, olhei pela janela. O trânsito já começava a encher a rua. Era hora de voltar ao mundo real. — Tenho que ir pro trabalho — disse, suspirando, levantando a mão pra ajeitar o cabelo. — Mas olha… não vou esquecer essa manhã tão cedo. — Nem eu. — Ela sorriu, mordendo o lábio. — Só não some igual a maioria dos caras. — Promessa de homem conquistador — falei, piscando. — Mas agora preciso ir… senão perco meu reinado na loja de carros. Peguei minha jaqueta, coloquei os óculos escuros e saí do apartamento com a postura que eu sabia que chamava atenção: ombros relaxados, mas cabeça erguida, passo firme. O ar fresco da manhã me acertou o rosto e, por algum motivo, senti o peito mais leve, como se o encontro da noite passada tivesse me dado uma nova energia. No caminho até a loja, cada pedestre que passava parecia notar meu humor diferente, aquele ar de “homem que sabe o que quer e acabou de conquistar”. Eu aproveitava cada instante, acenando, sorrindo, até comentando piadas rápidas com conhecidos. Cheguei na loja, respirei fundo e entrei com aquele sorriso confiante. Dali, era impossível não notar as clientes que passavam pela vitrine. Algumas olhavam de longe, outras entravam diretamente, atraídas por aquele ar de quem acabou de viver algo intenso, mas continua sorridente e disponível. — Bom dia, Beto! — chamou o Djalma, do balcão. — Parece que alguém acordou com moral hoje. — Moral é consequência de um bom café — respondi, piscando. — E de companhia perfeita ontem à noite. Ele gargalhou, balançando a cabeça. — Ah, então o segredo tá revelado. — Segredo? — brinquei, colocando a mão no bolso. — Não existe segredo quando a experiência fala por si mesma. Passei o dia inteiro assim, entre negociações e clientes, mas com aquele tempero especial no ar. Cada sorriso feminino parecia uma recompensa extra, cada comentário engraçado que eu arrancava dos clientes ou colegas de trabalho era como um lembrete do poder que eu tinha sobre a situação. No final da tarde, eu me peguei olhando pra vitrine, pensando em Juliana. Naquela manhã, no café, no toque leve das mãos, nos olhares que diziam mais do que qualquer palavra… tudo isso me fazia sorrir sozinho, quase rindo das minhas próprias memórias. Saí da loja com a sensação de conquista, mas não só a do corpo ou da noite passada — a sensação de ser desejado, reconhecido e, acima de tudo, vivo. E eu sabia que aquele era só o começo de muitas histórias que eu ainda iria escrever.
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