Eles permaneceram ali conversando por um bom tempo. Para Erick, apesar de tudo, foi bom estar com amigos que não via havia dois anos. Ainda assim, em algum momento, passou a se sentir deslocado. A troca constante de carinho entre Edward e Nicole o incomodava mais do que ele gostaria de admitir. Havia entre eles uma sintonia natural, tranquila, que o fazia desviar o olhar com frequência para não demonstrar desconforto.
No início, não compreendeu o incômodo que crescia dentro de si. Não era o restaurante. Não eram eles. Era ele.
Era o fato de estar sozinho — algo que, até então, nunca o havia incomodado.
Observava o modo como Nicole olhava para o marido: havia devoção ali. Uma devoção silenciosa, inteira, que ele conhecia bem. Aquela que pertence apenas aos que amam de verdade. Tinha certeza de que fora assim que olhara para Eliza. O que o atingiu, porém, foi a dúvida tardia e c***l: será que algum dia fora olhado da mesma forma?
A constatação o quebrou.
Houvera tantas expectativas, tantas projeções, que ele sequer notara a ausência do essencial. Não queria continuar pensando nisso, mas ao erguer os olhos e encontrar novamente os amigos à sua frente, sentiu algo que lhe causou repulsa imediata: inveja. Inveja da reciprocidade que compartilhavam.
Aquilo não parecia com ele.
Por um instante, não se reconheceu. E foi nesse momento que decidiu ir embora. Despediu-se de forma breve e saiu antes que precisasse explicar algo que nem ele compreendia direito.
Assim que entrou no quarto, livrou-se do blazer, desabotoou a camisa e chutou os sapatos para qualquer canto. Estava exausto. Irritado. Porque, se algo ficara claro naquele dia, era que Eliza nunca o amara de verdade — e, ainda assim, ele continuava a amá-la.
Não era um amor que trazia paz ou alegria. Era do tipo que esmaga por dentro, que corrói, que faz a alma implorar por um fim que nunca chega.
A possibilidade de ainda sentir aquilo era ensurdecedora.
Uma dor aguda atravessou-lhe o peito e, como em todos os dias, as lembranças voltaram. A humilhação, a sensação de ter sido enganado, os detalhes que agora se encaixavam com crueldade. Os sentimentos se acumulavam, comprimidos, prestes a explodir. Era o mesmo pesadelo, sempre.
Quis gritar. Quis destruir tudo ao redor.
Os punhos se fecharam com força, os nós dos dedos brancos de tensão. O corpo inteiro vibrava em um silêncio quase doloroso. Precisava se conter. Precisava parar antes de perder o controle. Fechou os olhos e respirou fundo, contando números mentalmente, agarrando-se ao pouco autocontrole que ainda possuía. Depois de alguns instantes, conseguiu se acalmar.
Abriu os olhos e caminhou até o banheiro, sentindo-se ridículo por reviver tudo aquilo outra vez. Foi então que as lembranças vieram mais nítidas: as viagens constantes de Eliza, sempre sozinha, sempre com a desculpa de que precisava espairecer. Nunca questionara. Nunca desconfiara.
Agora, fazia sentido.
Ela viajava para encontrar o outro. O marido. Porque o outro sempre fora ele.
A constatação foi como um soco no estômago, uma lâmina atravessando o peito. A verdade sempre estivera ali, evidente para qualquer um — menos para ele. O impacto foi imediato, e antes que pudesse se conter, socou a parede.
Com os punhos cerrados e os dentes rangendo, apoiou a testa no azulejo frio, os olhos fechados, tentando afastar pensamentos que só o destruíam mais. Nunca conhecera os sogros. Nunca fora apresentado à família. Sempre houvera uma desculpa: pais difíceis, relações rompidas, histórias convenientes demais. E ele acreditara.
Fora um t**o.
Um t**o apaixonado que se recusou a ver os sinais. A verdade era simples e devastadora: Eliza fora uma mentira. E ele se sentia traído não apenas por ela, mas por si mesmo, pelo próprio sentimento.
A dor apertou o peito com violência. Soluçou, incapaz de conter as lágrimas. A amava de um jeito que ainda doía — e continuava doendo. Aquele era, sem dúvida, o momento mais difícil dos últimos dias. E também o que mais odiava.
Depois de passar o resto do dia trancafiado naquele quarto, tentando enfrentar seus demônios e fracassos, Erick enfim se deu por vencido. Havia passado os últimos dois dias em agonia, lutando contra o desejo ardente de beber, mas a ansiedade que agora o dominava — somada às frustrações do passado que martelavam sua mente impiedosamente — era maior do que ele. As mãos suavam sem controle, o coração acelerado parecia prestes a saltar pela boca, provocando arrepios, náuseas e uma sensação sufocante no peito.
O pior de tudo não eram sequer os sintomas da abstinência. O verdadeiro inferno era sua mente: incansável, c***l, sempre pronta para resgatá-lo às piores memórias e condená-lo, dia após dia, à certeza de que sua vida não passava de um amontoado de erros m*l resolvidos.
Com esforço, levantou-se do chão e pegou o blazer jogado sobre a poltrona. Precisava beber. O pensamento vinha carregado de vergonha, mas também de alívio antecipado. Tornara-se um homem fraco — e seu corpo ansiava pelo álcool como um prisioneiro implora por sua dose da d***a mais viciante que existe.
Fraco.
A palavra ecoou em sua mente enquanto caminhava em direção ao elevador. Seus pais, se pudessem vê-lo agora, deviam estar se revirando no túmulo. A bebida tinha poder sobre ele — um poder que parecia destinado a acompanhá-lo por toda a vida, sem que houvesse qualquer chance real de fuga.
Erick entrou na boate do hotel e deixou que a penumbra colorida o engolisse. O som grave da música vibrava no peito, abafando pensamentos, ao menos por alguns segundos. Perambulou pelo ambiente até encontrar o balcão central, estrategicamente posicionado para oferecer vista de quase todo o salão — inclusive do palco, onde dançarinas se moviam em torno das barras de pole dance com uma sensualidade automática, vazia.
— Um uísque. Puro — pediu, a voz baixa e rouca.
O primeiro gole desceu queimando, aquecendo seus membros enquanto a acidez se espalhava pelo estômago vazio. Fez uma careta breve, mas não se importou. Aquela dor era familiar. Reconfortante, até.
Foi então que tudo mudou.
Marina atravessava a boate com o coração disparado. Detestava aquele ambiente — e ainda mais a possibilidade de ser vista —, mas fazia parte do seu trabalho inspecionar o hotel da família. Procurava uma rota de fuga quando avistou, do outro lado do salão, o rosto que mais temia encontrar naquela noite.
O irmão do seu ex-marido.
O sangue gelou.
Sem pensar, mudou o trajeto, abaixou o rosto, tentou passar despercebida. O salto alto traiu seus movimentos apressados e, no instante seguinte, esbarrou com força em alguém.
O impacto foi mais do que físico.
Quando ergueu o rosto, ofegante, encontrou os olhos de Erick. Por um segundo, o mundo perdeu o eixo. A música, as luzes, o barulho — tudo se dissolveu.
Ele reconheceu o medo antes mesmo de compreender o motivo. Não era susto. Era pânico cru.
— Você de novo… — ela sussurrou.
Erick sentiu o corpo reagir. A proximidade. O perfume limpo demais para aquele lugar. A tensão que não era provocação — era fuga.
— Erick — corrigiu. — Lembra?
Ela assentiu, mas não parecia ouvi-lo. Olhava para trás.
Então ele entendeu.
O pedido veio como um sussurro desesperado:
— Me beija.
— O quê?
Ela não esperou resposta.
Os dedos de Marina agarraram o colarinho dele com força — não sedução, mas necessidade — e sua boca encontrou a dele.
O beijo foi abrupto. Desordenado. Carregado de urgência. Não havia técnica. Havia medo.
O copo caiu. O uísque se espalhou pelo balcão. O gosto amargo ainda estava em sua boca quando algo quente, vivo, o atravessou.
Por um segundo perigoso, Erick quase correspondeu.
Não porque quisesse — mas porque precisava sentir algo que não fosse vazio.