capítulo 5

1289 Words
Eles permaneceram ali conversando por um bom tempo. Para Erick, apesar de tudo, foi bom estar com amigos que não via havia dois anos. Ainda assim, em algum momento, passou a se sentir deslocado. A troca constante de carinho entre Edward e Nicole o incomodava mais do que ele gostaria de admitir. Havia entre eles uma sintonia natural, tranquila, que o fazia desviar o olhar com frequência para não demonstrar desconforto. No início, não compreendeu o incômodo que crescia dentro de si. Não era o restaurante. Não eram eles. Era ele. Era o fato de estar sozinho — algo que, até então, nunca o havia incomodado. Observava o modo como Nicole olhava para o marido: havia devoção ali. Uma devoção silenciosa, inteira, que ele conhecia bem. Aquela que pertence apenas aos que amam de verdade. Tinha certeza de que fora assim que olhara para Eliza. O que o atingiu, porém, foi a dúvida tardia e c***l: será que algum dia fora olhado da mesma forma? A constatação o quebrou. Houvera tantas expectativas, tantas projeções, que ele sequer notara a ausência do essencial. Não queria continuar pensando nisso, mas ao erguer os olhos e encontrar novamente os amigos à sua frente, sentiu algo que lhe causou repulsa imediata: inveja. Inveja da reciprocidade que compartilhavam. Aquilo não parecia com ele. Por um instante, não se reconheceu. E foi nesse momento que decidiu ir embora. Despediu-se de forma breve e saiu antes que precisasse explicar algo que nem ele compreendia direito. Assim que entrou no quarto, livrou-se do blazer, desabotoou a camisa e chutou os sapatos para qualquer canto. Estava exausto. Irritado. Porque, se algo ficara claro naquele dia, era que Eliza nunca o amara de verdade — e, ainda assim, ele continuava a amá-la. Não era um amor que trazia paz ou alegria. Era do tipo que esmaga por dentro, que corrói, que faz a alma implorar por um fim que nunca chega. A possibilidade de ainda sentir aquilo era ensurdecedora. Uma dor aguda atravessou-lhe o peito e, como em todos os dias, as lembranças voltaram. A humilhação, a sensação de ter sido enganado, os detalhes que agora se encaixavam com crueldade. Os sentimentos se acumulavam, comprimidos, prestes a explodir. Era o mesmo pesadelo, sempre. Quis gritar. Quis destruir tudo ao redor. Os punhos se fecharam com força, os nós dos dedos brancos de tensão. O corpo inteiro vibrava em um silêncio quase doloroso. Precisava se conter. Precisava parar antes de perder o controle. Fechou os olhos e respirou fundo, contando números mentalmente, agarrando-se ao pouco autocontrole que ainda possuía. Depois de alguns instantes, conseguiu se acalmar. Abriu os olhos e caminhou até o banheiro, sentindo-se ridículo por reviver tudo aquilo outra vez. Foi então que as lembranças vieram mais nítidas: as viagens constantes de Eliza, sempre sozinha, sempre com a desculpa de que precisava espairecer. Nunca questionara. Nunca desconfiara. Agora, fazia sentido. Ela viajava para encontrar o outro. O marido. Porque o outro sempre fora ele. A constatação foi como um soco no estômago, uma lâmina atravessando o peito. A verdade sempre estivera ali, evidente para qualquer um — menos para ele. O impacto foi imediato, e antes que pudesse se conter, socou a parede. Com os punhos cerrados e os dentes rangendo, apoiou a testa no azulejo frio, os olhos fechados, tentando afastar pensamentos que só o destruíam mais. Nunca conhecera os sogros. Nunca fora apresentado à família. Sempre houvera uma desculpa: pais difíceis, relações rompidas, histórias convenientes demais. E ele acreditara. Fora um t**o. Um t**o apaixonado que se recusou a ver os sinais. A verdade era simples e devastadora: Eliza fora uma mentira. E ele se sentia traído não apenas por ela, mas por si mesmo, pelo próprio sentimento. A dor apertou o peito com violência. Soluçou, incapaz de conter as lágrimas. A amava de um jeito que ainda doía — e continuava doendo. Aquele era, sem dúvida, o momento mais difícil dos últimos dias. E também o que mais odiava. Depois de passar o resto do dia trancafiado naquele quarto, tentando enfrentar seus demônios e fracassos, Erick enfim se deu por vencido. Havia passado os últimos dois dias em agonia, lutando contra o desejo ardente de beber, mas a ansiedade que agora o dominava — somada às frustrações do passado que martelavam sua mente impiedosamente — era maior do que ele. As mãos suavam sem controle, o coração acelerado parecia prestes a saltar pela boca, provocando arrepios, náuseas e uma sensação sufocante no peito. O pior de tudo não eram sequer os sintomas da abstinência. O verdadeiro inferno era sua mente: incansável, c***l, sempre pronta para resgatá-lo às piores memórias e condená-lo, dia após dia, à certeza de que sua vida não passava de um amontoado de erros m*l resolvidos. Com esforço, levantou-se do chão e pegou o blazer jogado sobre a poltrona. Precisava beber. O pensamento vinha carregado de vergonha, mas também de alívio antecipado. Tornara-se um homem fraco — e seu corpo ansiava pelo álcool como um prisioneiro implora por sua dose da d***a mais viciante que existe. Fraco. A palavra ecoou em sua mente enquanto caminhava em direção ao elevador. Seus pais, se pudessem vê-lo agora, deviam estar se revirando no túmulo. A bebida tinha poder sobre ele — um poder que parecia destinado a acompanhá-lo por toda a vida, sem que houvesse qualquer chance real de fuga. Erick entrou na boate do hotel e deixou que a penumbra colorida o engolisse. O som grave da música vibrava no peito, abafando pensamentos, ao menos por alguns segundos. Perambulou pelo ambiente até encontrar o balcão central, estrategicamente posicionado para oferecer vista de quase todo o salão — inclusive do palco, onde dançarinas se moviam em torno das barras de pole dance com uma sensualidade automática, vazia. — Um uísque. Puro — pediu, a voz baixa e rouca. O primeiro gole desceu queimando, aquecendo seus membros enquanto a acidez se espalhava pelo estômago vazio. Fez uma careta breve, mas não se importou. Aquela dor era familiar. Reconfortante, até. Foi então que tudo mudou. Marina atravessava a boate com o coração disparado. Detestava aquele ambiente — e ainda mais a possibilidade de ser vista —, mas fazia parte do seu trabalho inspecionar o hotel da família. Procurava uma rota de fuga quando avistou, do outro lado do salão, o rosto que mais temia encontrar naquela noite. O irmão do seu ex-marido. O sangue gelou. Sem pensar, mudou o trajeto, abaixou o rosto, tentou passar despercebida. O salto alto traiu seus movimentos apressados e, no instante seguinte, esbarrou com força em alguém. O impacto foi mais do que físico. Quando ergueu o rosto, ofegante, encontrou os olhos de Erick. Por um segundo, o mundo perdeu o eixo. A música, as luzes, o barulho — tudo se dissolveu. Ele reconheceu o medo antes mesmo de compreender o motivo. Não era susto. Era pânico cru. — Você de novo… — ela sussurrou. Erick sentiu o corpo reagir. A proximidade. O perfume limpo demais para aquele lugar. A tensão que não era provocação — era fuga. — Erick — corrigiu. — Lembra? Ela assentiu, mas não parecia ouvi-lo. Olhava para trás. Então ele entendeu. O pedido veio como um sussurro desesperado: — Me beija. — O quê? Ela não esperou resposta. Os dedos de Marina agarraram o colarinho dele com força — não sedução, mas necessidade — e sua boca encontrou a dele. O beijo foi abrupto. Desordenado. Carregado de urgência. Não havia técnica. Havia medo. O copo caiu. O uísque se espalhou pelo balcão. O gosto amargo ainda estava em sua boca quando algo quente, vivo, o atravessou. Por um segundo perigoso, Erick quase correspondeu. Não porque quisesse — mas porque precisava sentir algo que não fosse vazio.
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