Quando Marina se afastou, corada, os lábios entreabertos, o olhar perdido entre culpa e terror, o silêncio foi pesado demais.
— Eu… me desculpa…
O coração dele batia forte. A abstinência gritava, mas aquele beijo abafara tudo por alguns segundos.
— Acho — disse ele, devagar — que você acabou de salvar minha noite… ou condená-la de vez.
Foi então que a voz surgiu atrás dela:
— Marina Thompson… há quanto tempo.
O sangue fugiu de seu rosto. Dominic Fife.
O irmão mais novo de Phillipe.
A testemunha silenciosa de um casamento que ela lutava para esquecer.
Ela se virou lentamente.
— Dominic…
O homem sorriu, um sorriso calculado, predatório. Alto, bem-vestido, com a mesma arrogância fria que ela aprendera a reconhecer cedo demais.
— Não esperava te encontrar aqui — disse ele, os olhos deslizando de Marina para Erick. — Vejo que seguiu em frente rápido — disse Dominic, com um sorriso enviesado. — Meu irmão com certeza não sabe disso.
O estômago de Marina se revirou.
— Não é da conta de vocês — respondeu, tentando soar firme. Erick percebeu tudo.
Aquilo não era apenas um ex inconveniente. Era família. Era passado. Era ameaça.
Dominic deu um passo à frente.
— Nada do que envolve você jamais deixou de ser.
Erick se moveu quase por instinto, posicionando-se entre os dois. O gesto foi sutil, mas definitivo.
— Algum problema? — perguntou, a voz controlada demais para ser casual.
Dominic o analisou com desdém.
— Você não faz ideia de onde está se metendo.
— Talvez — respondeu Erick, sustentando o olhar. — Mas sei exatamente quando alguém não é bem-vindo.
Marina sentiu algo apertar no peito. Não era alívio completo — mas era p******o. Algo que ela não sentia havia muito tempo.
— Eu vou embora — disse, firme. — Agora.
Dominic inclinou a cabeça, o sorriso sumindo.
— Isso ainda não acabou, Marina.
O silêncio que se instalou após a saída de Dominic foi quase tão sufocante quanto a presença dele havia sido.
Marina percebeu isso no próprio corpo. Os ombros relaxaram aos poucos, a respiração enfim encontrou um ritmo mais lento, mais seguro. Ainda assim, o coração seguia acelerado — não mais pelo medo, mas pela consciência aguda de quem estava diante dela agora.
Erick.
Ele a observava com atenção contida, os maxilares levemente contraídos, o olhar sério demais para a penumbra colorida da boate.
— Por que me beijou? — perguntou, enfim.
A voz era firme, controlada. Não havia acusação, mas também não havia leveza.
O rosto de Marina esquentou imediatamente.
— Ah… — virou-se de lado por reflexo, passando a mão pelos cabelos, visivelmente desconcertada. — Eu… na verdade…
As palavras não vinham.
Droga, estou gaguejando.
Respirou fundo, tentando se recompor, mas o silêncio dele só tornava tudo pior.
— Me desculpa — disse de uma vez, apressada, como se quisesse se livrar logo daquilo. — Eu estou tão envergonhada que não sei nem o que dizer.
Finalmente ergueu o olhar.
Erick permanecia em silêncio, atento, e isso só fazia os pensamentos dela se atropelarem.
Merda, Marina. Onde você estava com a cabeça?
E se ele tiver namorada?
A vergonha apertou o peito como um nó.
— Eu não quis te colocar nessa situação — continuou, agora mais baixo. — Foi impulso. Desespero. Eu… — engoliu em seco. — Eu precisava que ele não me visse.
Erick soltou o ar lentamente, como se organizasse os próprios pensamentos antes de falar. Quando o fez, a voz veio mais baixa, menos rígida.
— Percebi.
Ela franziu a testa.
— Percebeu?
— Que não foi sobre mim — respondeu. — Nem sobre desejo.
O olhar dele a manteve presa ali.
— Foi medo.
Algo se quebrou dentro dela.
Marina desviou o olhar outra vez, sentindo a garganta apertar.
— Ele… — começou, mas parou. Não estava pronta. Talvez nunca estivesse.
Erick não insistiu.
— Você não me deve explicações — disse, com firmeza tranquila. — Eu só precisava entender o que aconteceu.
Ela assentiu, ainda constrangida.
— Mesmo assim… eu sinto muito.
Erick permaneceu olhando para ela por alguns segundos, como se quisesse dizer algo — ou impedir que ela fosse embora. Mas não disse.
Marina assentiu uma última vez, murmurou um “boa noite” quase inaudível e se afastou antes que o peso daquele silêncio a fizesse desmoronar ali mesmo.
Caminhou pela boate como quem foge de um incêndio invisível. O som alto, as luzes, os corpos — tudo parecia distante demais, irreal demais.
O beijo ainda queimava em sua memória.
Não como desejo.
Como medo.
E era isso que a aterrorizava: perceber que, mesmo longe dele, Phillipe ainda tinha poder suficiente para arrancá-la do eixo.
Quando a porta do elevador se fechou, Marina finalmente deixou o ar escapar dos pulmões. Mas o alívio durou pouco.
Algumas dores só esperam o silêncio para voltar com força total.
Assim que chegou ao apartamento, m*l acendeu as luzes. Largou os sapatos pelo caminho e correu para o banheiro, fechando a porta atrás de si com um clique seco.
Parou diante do espelho.
A mulher refletida ali parecia outra pessoa: o rosto vermelho, os olhos inchados e borrados, os lábios trêmulos. Por um instante, Marina não se reconheceu — e isso a apavorou.
A tristeza veio sem aviso.
As mãos subiram até a boca numa tentativa inútil de conter o choro. Deu alguns passos para trás, desnorteada, até sentir as costas tocarem a parede fria. As pernas cederam, e ela deslizou lentamente até o chão, encolhendo-se enquanto o choro rompia em soluços descontrolados.
A mente foi impiedosa.
Sua tola.
Beijou um homem sem o consentimento dele.
Marina puxou os próprios cabelos com força, como se a dor física pudesse silenciar a culpa. Rasgou o tecido do vestido com mãos trêmulas, sentindo-se suja, enojada de si mesma. Chorou até o peito doer, como se tentasse expelir anos de medo acumulado.
Foi então que a verdade a atingiu com brutalidade.
— Isso é tudo culpa sua, Phillipe… — sussurrou entre soluços. — Eu te odeio.
A voz falhou.
— Maldito seja o contrato que me uniu a você.
Aquele beijo não fora o gatilho.
Apenas abrira a porta para lembranças que nunca estiveram realmente trancadas.
Três anos antes, as Empresas Mercury estavam à beira da falência. A única saída fora uma aliança com o grupo de turismo e viagens Fife.
Mesmo sendo amigo de longa data de Patrício, pai de Marina, George Fife impôs uma condição inegociável: o casamento de Marina com seu filho mais velho, Phillipe Fife.
Miranda, sua mãe, fora contra desde o início. Um casamento sem amor, selado por contrato. Mas não havia escolha. Não quando a ruína da família estava em jogo.
Quando a Mercury se reergueu, Marina precisou cumprir sua parte do acordo.
Casou-se com Phillipe.
Nos primeiros meses, ele parecera perfeito. Gentil, atencioso, sedutor. Bonito demais para ser real. Marina se apaixonou — e isso a cegou para os primeiros sinais.
O álcool veio antes da violência. Depois, os ciúmes. As p************s disfarçadas de cuidado. As humilhações seguidas de pedidos de desculpa.
Ele sempre prometia que não aconteceria de novo.
Até acontecer.
A primeira agressão física veio numa noite em que Phillipe recebera amigos em casa. Marina, como sempre, fora educada, prestativa. Não percebeu os olhares demorados — mas Phillipe percebeu.
Bebeu além da conta.
Quando ficaram a sós, vieram as acusações, as críticas às roupas. Marina tentou sair.
Ele a puxou pelos cabelos.
Chamou-a de v***a.
Apertou seus braços com força e a jogou no chão como se ela não fosse nada.
A última agressão veio quando Phillipe levou a amante para dentro da casa dos dois. Ao confrontá-lo, Marina foi empurrada violentamente contra um móvel. A dor foi imediata. Costela fraturada. Hospital.
Ali, deitada numa cama branca demais, Marina decidiu que não suportaria mais.
Tentou denunciá-lo.
Mas as famílias eram poderosas demais.
O divórcio veio sob o rótulo de “acordo mútuo”. Phillipe deu sua palavra de nunca mais se aproximar dela.
Uma promessa que Marina agora sabia: nunca significara segurança.