capítulo 6

1342 Words
Quando Marina se afastou, corada, os lábios entreabertos, o olhar perdido entre culpa e terror, o silêncio foi pesado demais. — Eu… me desculpa… O coração dele batia forte. A abstinência gritava, mas aquele beijo abafara tudo por alguns segundos. — Acho — disse ele, devagar — que você acabou de salvar minha noite… ou condená-la de vez. Foi então que a voz surgiu atrás dela: — Marina Thompson… há quanto tempo. O sangue fugiu de seu rosto. Dominic Fife. O irmão mais novo de Phillipe. A testemunha silenciosa de um casamento que ela lutava para esquecer. Ela se virou lentamente. — Dominic… O homem sorriu, um sorriso calculado, predatório. Alto, bem-vestido, com a mesma arrogância fria que ela aprendera a reconhecer cedo demais. — Não esperava te encontrar aqui — disse ele, os olhos deslizando de Marina para Erick. — Vejo que seguiu em frente rápido — disse Dominic, com um sorriso enviesado. — Meu irmão com certeza não sabe disso. O estômago de Marina se revirou. — Não é da conta de vocês — respondeu, tentando soar firme. Erick percebeu tudo. Aquilo não era apenas um ex inconveniente. Era família. Era passado. Era ameaça. Dominic deu um passo à frente. — Nada do que envolve você jamais deixou de ser. Erick se moveu quase por instinto, posicionando-se entre os dois. O gesto foi sutil, mas definitivo. — Algum problema? — perguntou, a voz controlada demais para ser casual. Dominic o analisou com desdém. — Você não faz ideia de onde está se metendo. — Talvez — respondeu Erick, sustentando o olhar. — Mas sei exatamente quando alguém não é bem-vindo. Marina sentiu algo apertar no peito. Não era alívio completo — mas era p******o. Algo que ela não sentia havia muito tempo. — Eu vou embora — disse, firme. — Agora. Dominic inclinou a cabeça, o sorriso sumindo. — Isso ainda não acabou, Marina. O silêncio que se instalou após a saída de Dominic foi quase tão sufocante quanto a presença dele havia sido. Marina percebeu isso no próprio corpo. Os ombros relaxaram aos poucos, a respiração enfim encontrou um ritmo mais lento, mais seguro. Ainda assim, o coração seguia acelerado — não mais pelo medo, mas pela consciência aguda de quem estava diante dela agora. Erick. Ele a observava com atenção contida, os maxilares levemente contraídos, o olhar sério demais para a penumbra colorida da boate. — Por que me beijou? — perguntou, enfim. A voz era firme, controlada. Não havia acusação, mas também não havia leveza. O rosto de Marina esquentou imediatamente. — Ah… — virou-se de lado por reflexo, passando a mão pelos cabelos, visivelmente desconcertada. — Eu… na verdade… As palavras não vinham. Droga, estou gaguejando. Respirou fundo, tentando se recompor, mas o silêncio dele só tornava tudo pior. — Me desculpa — disse de uma vez, apressada, como se quisesse se livrar logo daquilo. — Eu estou tão envergonhada que não sei nem o que dizer. Finalmente ergueu o olhar. Erick permanecia em silêncio, atento, e isso só fazia os pensamentos dela se atropelarem. Merda, Marina. Onde você estava com a cabeça? E se ele tiver namorada? A vergonha apertou o peito como um nó. — Eu não quis te colocar nessa situação — continuou, agora mais baixo. — Foi impulso. Desespero. Eu… — engoliu em seco. — Eu precisava que ele não me visse. Erick soltou o ar lentamente, como se organizasse os próprios pensamentos antes de falar. Quando o fez, a voz veio mais baixa, menos rígida. — Percebi. Ela franziu a testa. — Percebeu? — Que não foi sobre mim — respondeu. — Nem sobre desejo. O olhar dele a manteve presa ali. — Foi medo. Algo se quebrou dentro dela. Marina desviou o olhar outra vez, sentindo a garganta apertar. — Ele… — começou, mas parou. Não estava pronta. Talvez nunca estivesse. Erick não insistiu. — Você não me deve explicações — disse, com firmeza tranquila. — Eu só precisava entender o que aconteceu. Ela assentiu, ainda constrangida. — Mesmo assim… eu sinto muito. Erick permaneceu olhando para ela por alguns segundos, como se quisesse dizer algo — ou impedir que ela fosse embora. Mas não disse. Marina assentiu uma última vez, murmurou um “boa noite” quase inaudível e se afastou antes que o peso daquele silêncio a fizesse desmoronar ali mesmo. Caminhou pela boate como quem foge de um incêndio invisível. O som alto, as luzes, os corpos — tudo parecia distante demais, irreal demais. O beijo ainda queimava em sua memória. Não como desejo. Como medo. E era isso que a aterrorizava: perceber que, mesmo longe dele, Phillipe ainda tinha poder suficiente para arrancá-la do eixo. Quando a porta do elevador se fechou, Marina finalmente deixou o ar escapar dos pulmões. Mas o alívio durou pouco. Algumas dores só esperam o silêncio para voltar com força total. Assim que chegou ao apartamento, m*l acendeu as luzes. Largou os sapatos pelo caminho e correu para o banheiro, fechando a porta atrás de si com um clique seco. Parou diante do espelho. A mulher refletida ali parecia outra pessoa: o rosto vermelho, os olhos inchados e borrados, os lábios trêmulos. Por um instante, Marina não se reconheceu — e isso a apavorou. A tristeza veio sem aviso. As mãos subiram até a boca numa tentativa inútil de conter o choro. Deu alguns passos para trás, desnorteada, até sentir as costas tocarem a parede fria. As pernas cederam, e ela deslizou lentamente até o chão, encolhendo-se enquanto o choro rompia em soluços descontrolados. A mente foi impiedosa. Sua tola. Beijou um homem sem o consentimento dele. Marina puxou os próprios cabelos com força, como se a dor física pudesse silenciar a culpa. Rasgou o tecido do vestido com mãos trêmulas, sentindo-se suja, enojada de si mesma. Chorou até o peito doer, como se tentasse expelir anos de medo acumulado. Foi então que a verdade a atingiu com brutalidade. — Isso é tudo culpa sua, Phillipe… — sussurrou entre soluços. — Eu te odeio. A voz falhou. — Maldito seja o contrato que me uniu a você. Aquele beijo não fora o gatilho. Apenas abrira a porta para lembranças que nunca estiveram realmente trancadas. Três anos antes, as Empresas Mercury estavam à beira da falência. A única saída fora uma aliança com o grupo de turismo e viagens Fife. Mesmo sendo amigo de longa data de Patrício, pai de Marina, George Fife impôs uma condição inegociável: o casamento de Marina com seu filho mais velho, Phillipe Fife. Miranda, sua mãe, fora contra desde o início. Um casamento sem amor, selado por contrato. Mas não havia escolha. Não quando a ruína da família estava em jogo. Quando a Mercury se reergueu, Marina precisou cumprir sua parte do acordo. Casou-se com Phillipe. Nos primeiros meses, ele parecera perfeito. Gentil, atencioso, sedutor. Bonito demais para ser real. Marina se apaixonou — e isso a cegou para os primeiros sinais. O álcool veio antes da violência. Depois, os ciúmes. As p************s disfarçadas de cuidado. As humilhações seguidas de pedidos de desculpa. Ele sempre prometia que não aconteceria de novo. Até acontecer. A primeira agressão física veio numa noite em que Phillipe recebera amigos em casa. Marina, como sempre, fora educada, prestativa. Não percebeu os olhares demorados — mas Phillipe percebeu. Bebeu além da conta. Quando ficaram a sós, vieram as acusações, as críticas às roupas. Marina tentou sair. Ele a puxou pelos cabelos. Chamou-a de v***a. Apertou seus braços com força e a jogou no chão como se ela não fosse nada. A última agressão veio quando Phillipe levou a amante para dentro da casa dos dois. Ao confrontá-lo, Marina foi empurrada violentamente contra um móvel. A dor foi imediata. Costela fraturada. Hospital. Ali, deitada numa cama branca demais, Marina decidiu que não suportaria mais. Tentou denunciá-lo. Mas as famílias eram poderosas demais. O divórcio veio sob o rótulo de “acordo mútuo”. Phillipe deu sua palavra de nunca mais se aproximar dela. Uma promessa que Marina agora sabia: nunca significara segurança.
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