Do lado de fora, o ar parecia mais frio.
Mais real.
Marina m*l conseguiu dar alguns passos antes de parar.
A respiração falhou.
O corpo ainda preso ao que tinha acabado de acontecer.
Ela encostou na parede, os olhos fechando com força, como se pudesse apagar tudo.
— Marina.
A voz veio baixa.
Próxima, mas cuidadosa.
Erick não se aproximou de imediato.
Esperou.
Só depois deu um passo.
— Ei… olha pra mim.
Não era uma ordem.
Era um pedido.
Ela abriu os olhos aos poucos.
Ainda perdidos. Ainda molhados.
— Ele não podia estar aqui…
Não era uma pergunta.
Era negação.
Erick observou em silêncio.
E entendeu.
Aquilo não tinha sido um encontro que deu errado.
Tinha sido uma armadilha.
— Você veio encontrar alguém — ele disse, baixo.
Marina assentiu, quase imperceptível.
— Documentos…
Ele soltou o ar devagar, o maxilar travando.
— Ele armou isso.
Os olhos dela se fecharam de novo.
Porque agora era óbvio.
E mesmo assim… ela caiu.
O silêncio que se formou entre eles não era mais o mesmo.
Não era tensão.
Era algo mais denso.
Mais perigoso.
Antes que Erick dissesse qualquer coisa, o corpo dela falhou de vez.
A respiração descompassou.
Ele ergueu as mãos, devagar.
— Posso tocar em você?
Um aceno mínimo.
Erick segurou os braços dela com cuidado — exatamente onde as marcas começavam a surgir.
— Respira comigo.
Ela tentou.
Falhou.
— Eu n-não consigo…
— Consegue — ele insistiu, firme, mas suave. — Eu estou aqui.
Ele não a apertava.
Não a puxava.
Só sustentava.
Aos poucos, a respiração dela começou a obedecer.
Irregular. Frágil. Mas voltando.
As lágrimas vieram logo depois.
— Eu senti tanto medo… — ela sussurrou, quebrada.
E aquilo atingiu Erick de um jeito que ele não esperava.
Porque não era fragilidade.
Era alguém forte… desmoronando.
Sem pensar, ele encostou a testa na dela.
Um gesto involuntário.
Íntimo demais.
— Eu sei — a voz dele saiu rouca. — Eu vi.
Marina fechou os olhos.
Por um segundo… só existia o ar compartilhado entre eles.
— Ele não vai chegar perto de você outra vez — Erick disse, baixo, firme. — Não enquanto eu estiver vivo.
Não soava como promessa.
Soava como sentença.
O corpo dela ainda tremia, mas já não parecia prestes a colapsar.
Até que…
O tremor voltou.
Mais sutil.
Mais profundo.
Erick percebeu.
E algo dentro dele endureceu.
Aquilo não era medo de agora.
Era antigo.
Ele respirou fundo, controlando a própria raiva.
— Marina…
Ela abriu os olhos, já sabendo que vinha algo.
— Aquele homem… quem era ele?
Ela congelou.
Os dedos apertaram o próprio braço, como se precisasse se segurar dentro do próprio corpo.
Erick percebeu na hora.
Deu meio passo para trás.
Espaço. Não pressão.
— Você não precisa me contar nada que não quiser.
O silêncio se estendeu.
Pesado.
Doloroso.
E então—
— Meu ex-marido.
As palavras caíram quebradas.
Arrancadas.
Os olhos dela encheram antes mesmo que conseguisse reagir.
— Por favor… — a voz falhou — não me pede pra falar dele…
Agora Erick entendeu completamente.
E não precisou de mais nada.
A raiva veio quente. Violenta.
Mas junto com ela… algo mais forte.
Proteção.
Ele hesitou por um segundo.
— Posso…?
Marina demorou.
Mas assentiu.
Dessa vez, quando ele a puxou, foi diferente.
Não foi só cuidado.
Foi abrigo.
O corpo dela endureceu por reflexo.
Um segundo.
Dois.
E então cedeu.
Desabou.
O choro veio sem controle, sacudindo os ombros dela contra ele.
Erick a envolveu por completo.
Uma mão nas costas.
A outra protegendo a nuca.
Firme.
Presente.
Inabalável.
Ele não disse nada.
Só ficou.
Até o tempo perder sentido.
Aos poucos, o choro diminuiu.
A respiração voltou.
Quando Marina se afastou, ainda havia resquícios do tremor.
Os olhos vermelhos. A pele quente.
Ela evitou olhar diretamente para ele.
Mas Erick não conseguiu fazer o mesmo.
Deu um passo à frente.
Segurou a mão dela por impulso.
Os dedos se encaixaram.
E o mundo pareceu suspenso por um segundo.
Quando Marina levantou o olhar—
Aquilo a atingiu.
Havia desejo ali.
Mas não era só isso.
Era cuidado.
Intensidade.
Algo perigoso demais para alguém como ela sentir.
O polegar dele roçou de leve a mão dela.
E aquilo foi o limite.
Ela puxou a mão de volta rápido demais.
— D-desculpa… — a voz saiu falha. — Isso não… não pode.
Um passo atrás.
Depois outro.
— Eu preciso ir.
Antes que ele respondesse—
Ela virou.
Correu até o carro.
E foi embora.
Sem olhar para trás.
Erick ficou parado.
O barulho do motor desaparecendo na distância.
O silêncio voltando.
Mas algo dentro dele… não voltou.
Ele ficou parado na calçada, respirando fundo, sentindo emoções colidirem dentro dele — confusão, desejo, preocupação… e algo que ele ainda não queria nomear.
Não ainda.
Marina parou em frente ao prédio onde morava com as mãos ainda trêmulas. Tentou respirar fundo, mas o ar insistia em entrar aos solavancos, curtos demais para acalmar o corpo.
O silêncio dentro do carro era quase pior do que o barulho do bar.
Ela estava sozinha.
Completamente sozinha.
E isso deveria trazer alívio.
Não trouxe.
Marina apoiou a cabeça no volante, fechando os olhos com força, tentando expulsar tudo: a lembrança do toque dele, o cheiro, o abraço firme que — por um instante — fez o mundo parar de girar.
Inútil.
Tudo nela ainda estava colado ao que acontecera minutos antes.
— i****a… — murmurou, apertando o volante.
Não era sobre ele.
Não podia ser.
O problema era ela.
O que tinha permitido sentir.
Uma onda quente subiu pelo peito — não era só medo. Era culpa.
Culpa por ter inclinado o corpo para ele.
Culpa por ter buscado abrigo onde não devia.
Culpa por ter sentido… aquilo.
A respiração falhou outra vez.
Eu não posso.
Eu não posso sentir isso.
Eu não posso querer isso.
As lembranças do ex-marido vieram como socos: mãos fechando em torno do pescoço, o cheiro dele, o aperto forte demais, o medo constante.
E, no meio do caos, o rosto de Erick surgia — o oposto.
O cuidado.
A hesitação.
O jeito como perguntou antes de tocar nela.
Como se ela importasse.
Como se tivesse escolha.
Aquilo rasgou algo dentro dela.
Marina se jogou contra o banco, fechando os punhos no colo.
— Ele não é assim… — murmurou, tentando se convencer. — Erick não é ele. Não é.
Mas era justamente isso que a aterrorizava.
Porque se ele não machucava…
Se fazia ela se sentir segura…
Então ela podia se permitir sentir.
E esse era o verdadeiro perigo.
Ela sabia exatamente onde sentimentos assim terminavam. Já vivera o início bonito demais de algo que depois virou um inferno.
Um arrepio percorreu sua espinha.
E se eu estiver me enganando de novo?
E se eu cair no mesmo erro?
E se acabar destruída outra vez?
Uma lágrima escapou, silenciosa. Marina limpou rápido, irritada consigo mesma.
A verdade era simples e c***l:
Ela queria ele.
Queria o toque, o cheiro, o cuidado.
Queria o jeito como ele dizia seu nome.
Mas querer…
Querer era o primeiro passo para perder o controle.
E ela não podia perder o controle nunca mais.
No subsolo do prédio, Marina ficou alguns segundos sem desligar o carro. O volante ainda estava quente sob as mãos trêmulas.
Inspirou fundo, tentando preencher o peito com qualquer coisa que não fosse medo — ou desejo.
Não conseguiu.
— Chega… — sussurrou.
Precisava parar de pensar em Erick.
Parar de sentir.
Recuperar o controle antes que tudo fugisse outra vez.
E, acima de tudo, precisava lidar com Phillipe.
Com a ameaça que voltara a cercá-la como uma sombra antiga.
Marina endireitou o corpo, enxugou as últimas lágrimas e forçou a respiração a desacelerar.
Uma coisa de cada vez.
E a primeira era clara:
Phillipe não poderia sair impune.
Quando saiu do carro, a decisão já estava tomada.
No dia seguinte, tomaria providências.
Nem que tivesse que enfrentar o próprio pai.
Subiu para o apartamento ainda trêmula, mas com algo novo sob a pele — uma resolução amarga, frágil, real.
Naquela noite, dormiu pouco.
Quase nada.
Quando o amanhecer chegou, outra versão de si mesma a aguardava diante do espelho.
Acordou antes do sol. Não por descanso, mas porque a mente não permitiu mais repouso.
Banho.
Escova de dentes.
Cabelo.
Gestos mecânicos, como se vestisse uma armadura peça por peça.
Escolheu um vestido preto de manga longa, justo, elegante. As costas nuas em um V discreto revelavam vulnerabilidade e coragem na mesma medida.
Saltos pretos.
Perfume leve.
No espelho, parecia confiante.
Firme.
Pronta.
Por dentro, ainda era uma mulher juntando os próprios cacos.