capítulo 10

1675 Words
Minutos depois, chegou ao edifício imponente da família — a sede da Mercury, orgulho de gerações. Caminhou decidida até o elevador reservado aos sócios e cargos mais altos, ignorando os olhares curiosos. O som dos scarpins ecoou pelo piso lustroso até cessar com o fechamento das portas. No vigésimo quinto andar, a secretária se levantou surpresa. — Senhorita Marina… Ela apenas assentiu e empurrou a porta do escritório. As janelas de parede inteira expunham a cidade — majestosa e distante. Tudo ali cheirava a poder. E frieza. — Pai. Patrício levantou-se ao vê-la. — Marina, querida… chegou cedo. — Eu vou denunciar o Phillipe Fife. Ele franziu o cenho, massageando as têmporas. — O que foi agora? Marina abraçou a si mesma, os ombros caindo. — Ele tentou abusar de mim. Ele virou-se devagar, descrente. — Marina… isso não faz sentido. — disse, aproximando-se — Aquele desgraçado não ousaria encostar em você. Mas quando encontrou os olhos marejados da filha, suas palavras perderam firmeza. A voz de Marina saiu quebrada quando ela contou tudo — desde as primeiras mensagens sobre o suposto vazamento de informações confidenciais da empresa até o momento em que Phillipe tentou beijá-la à força. Patrício se afastou dela. Nenhuma reação. Nada. — Tá vendo? — disse enfim, irritado. — Você já deveria ter alguém na sua vida. Caso contrário, ele jamais teria tentado se aproximar. Marina piscou, incrédula. — Você só pode estar brincando. — limpou as lágrimas rapidamente — Eu sou sua filha. Sua única filha. Ele tentou contornar. — Marina, você é o que eu tenho de mais valioso. Mas entenda… nós não podemos denunciá-lo agora. Ela riu sem humor, a decepção pesando na voz. — Claro. Porque a empresa e a parceria com os Fife valem mais do que a sua filha. — Não é isso. Sua mãe e eu sempre— — Me amam tanto que me deram em casamento pra um perfeito estranho. — cortou, a voz finalmente explodindo. — Dois anos de a***o, pai. Dois anos. Por causa dessa maldita empresa! — Já chega! — gritou Patrício. O grito ecoou pelas paredes, e Marina recuou instintivamente. Ele nunca havia levantado a voz para ela. Nunca. O homem ali na sua frente parecia um estranho. Patrício tentou se aproximar, arrependido. — Marina, eu… Ela ergueu a mão, dando passos para trás. — Não chega perto de mim. E saiu da sala antes que ele pudesse concluir qualquer justificativa. Marina desceu até o estacionamento quase sem perceber o caminho percorrido. Entrou no carro e desabou. Chorou até não ter mais ar. Só quando o corpo começou a doer ela respirou fundo, ligou o motor e acelerou em direção à delegacia. Era isso. Ela não deixaria Phillipe sair impune. O trajeto durou quarenta minutos, e cada um deles apertou um pouco mais o nó no seu estômago. Assim que estacionou em frente à delegacia, tentou abrir a porta. Não conseguiu. Sua mão tremia. Seu peito subia e descia rápido. O medo parecia ter dedos, segurando-a no lugar. Se ela insistisse, teria paz. Justiça. Talvez até um pouco de liberdade. Mas o preço? O olhar de decepção do pai. O rompimento definitivo. A culpa que ela mesma carregaria. Não estava pronta. — Qual é, Marina… — murmurou entre soluços. — Você não consegue nem isso…? Sou um fracasso… Ela bateu as mãos no volante, uma, duas vezes, até fraquejar e encostar a testa no couro quente. Chorou ali, encolhida, engolindo o próprio desespero. O celular tocou na bolsa. Ela tentava enxugar as lágrimas enquanto procurava o aparelho — até ver o nome dele na tela. Pai. Um aperto atravessou seu peito. Marina largou o celular de qualquer jeito dentro da bolsa, que caiu no chão junto com alguns pertences. Um frasco rolou e parou perto do seu pé. Morfina. Depois do divórcio, Marina passara a viver com ansiedade constante, pesadelos, medos que a visitavam todas as noites. A morfina tinha sido uma muleta, uma fuga das crises. Mas já fazia três meses que ela não dependia daquele medicamento. Ou achava que não dependia. Marina pegou o frasco, observando-o por longos segundos. As mãos ainda trêmulas. O coração ainda acelerado. Depois de colocar o frasco sobre o painel, Marina ficou parada por longos segundos, tentando respirar, tentando se convencer de que tinha tomado a decisão certa — ou pelo menos a menos dolorosa naquele momento. Mas nada dentro dela parecia certo. O pai tinha gritado com ela. Ela tinha fugido da denúncia. E, pela primeira vez em muito tempo, não havia mais ninguém para onde correr. Ou… quase ninguém. Um único nome atravessou sua mente como um reflexo, uma âncora, uma lembrança de algo que ela m*l entendia, mas sentia: Erick. Ela pensou nele por impulso — talvez porque, nas poucas vezes em que trocava olhares com ele, havia algo que a deixava estranhamente… menos sozinha. Como se ele enxergasse além da fachada. Como se, por algum motivo inexplicável, ela estivesse segura perto dele. Era irracional. Era absurdo. Era exatamente o que ela precisava naquele instante. Então, sem planejar, sem pensar, sem sequer ter ideia clara do trajeto, Marina simplesmente ligou o motor e dirigiu. O caminho até o hotel Mercury Suítes — onde sabia que Erick estava hospedado — surgiu diante dela quase automático, como se seu corpo tivesse decidido por conta própria. Quando estacionou, ainda tremia. Ainda chorava. Ainda segurava o frasco de morfina sem perceber. Ela queria se recompor antes de sair do carro. Queria que ninguém a visse naquele estado. Queria apenas… respirar. Mas o abatimento venceu antes que ela pudesse abrir a porta. E foi assim — quebrada, exausta e buscando desesperadamente algum tipo de segurança — que Marina chegou ao mesmo lugar onde Erick, horas depois, cruzaria o saguão sentindo que algo estava errado. O dia de Erick já tinha começado uma m***a. Acordou com uma dor de cabeça tão violenta que parecia ter uma bigorna cravada entre as têmporas. E, como era típico dele, a dor não vinha do corpo — vinha do que a mente insistia em repetir desde a madrugada. Marina. Marina naquele bar. Marina com aquele desgraçado do ex-marido. Ele passou horas tentando entender por que diabos Marina mexia tanto assim com ele. O que ela tinha que as outras não tinham? Não era exatamente desejo — disso ele tinha certeza. Desejo era simples. Direto. Passageiro. Aquilo não era. Também não era amor. Não podia ser. Amor exigia entrega, e Erick não era homem de se entregar a nada que não pudesse controlar. Então o que era? A pergunta voltava sempre, insistente, como um ruído baixo que ele não conseguia desligar. Porque não fazia sentido. Não nela. Não nele. E, ainda assim, estava ali. Quanto mais tentava organizar o pensamento, mais ele escapava, girando como um parafuso enferrujado dentro do crânio — travando, rangendo, sem nunca se ajustar no lugar certo. No fim, perdeu o sono. — d***a… — resmungou, apertando os olhos. — É isso que acontece quando não se dorme. Mas, no fundo, ele sabia. Não era falta de sono. Era ela. Qualquer movimento piorava a pontada latejante. Ele tentou ficar quieto, imóvel, respirando devagar — como se isso fosse suficiente para conter o estrago. Não era. Cada vez que a imagem dela atravessava a mente, a dor respondia, mais forte, mais funda, como se tivesse vontade própria. Era quase onze da manhã quando ele finalmente se rendeu. Não à dor. À fome. O estômago começou a reclamar com uma insistência irritante, vazia, como tudo naquela manhã. Ele soltou o ar, passando a mão pelo rosto. — Que se dane… Tomou um banho rápido, sem realmente sentir a água. Vestiu a primeira coisa que encontrou e saiu do quarto mais por necessidade do que por decisão. Desceu para o restaurante em busca de qualquer coisa leve — algo que o corpo aceitasse, já que a cabeça claramente não ia colaborar. E foi aí que o caos começou. Uma funcionária atravessou o saguão correndo, pálida, quase sem voz. — A senhorita Thompson… — arfou, tentando recuperar o ar. — Ela está quase desmaiada no estacionamento. Erick parou no mesmo instante. O estômago afundou, esquecendo a fome. — Marina — sussurrou, já em movimento. O coração disparou, pesado, descompassado, como se tentasse alcançá-lo por dentro. Quando chegou ao estacionamento, viu um pequeno grupo de funcionários formando um círculo em volta de alguém. Ele se aproximou empurrando quem estivesse na frente. — Sou médico — disse, automático. — Deem espaço. E então ele a viu. Marina estava caída ao lado do carro, o corpo largado no chão frio, vomitando de forma descoordenada, inconsciente o suficiente para não conseguir manter a própria via aérea aberta. Um frasco brilhava na mão trêmula dela. Erick congelou por meio segundo. Morfina. A corrente elétrica do pânico atravessou todo o corpo dele. — d***a, Marina… — murmurou antes de agir. Ele a virou imediatamente de lado, colocando-a em posição de recuperação. Checou a respiração: lenta demais. As pupilas, dilatadas. A pele, começando a ficar arroxeada. O pulso, descompassado. Era overdose. E estava avançada. — Alguém já chamou a ambulância? — perguntou, a voz firme apesar do terror. — Já! — respondeu um segurança. Erick segurou o rosto dela, tentando mantê-la acordada, tentando puxá-la de volta. — Ei, ei… fica comigo. Eu estou aqui, Marina. Eu estou aqui. Me escuta. Respira. Isso. Isso… Mas ela oscilava entre tosses fracas e gemidos quase inaudíveis. O corpo dela tremia. Quando a ambulância finalmente chegou, ele ajudou a colocá-la na maca e subiu junto sem nem pedir permissão. — Sou médico. Vou com ela — disse, a voz embargada mas decidida. Ninguém questionou. Enquanto as portas se fechavam, o coração dele martelava uma única pergunta: E se ele tivesse chegado dez minutos depois? E se ela tivesse morrido ali, sozinha? O que era isso que ele sentia por ela — e por que doía tanto vê-la quebrar? Ele não tinha respostas. Mas sabia uma coisa: Não sairia do lado dela. Não naquela ambulância. Não no hospital. Não depois de tudo.
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