capítulo 11

1159 Words
Marina foi levada para emergência assim que chegaram. Erick permaneceu do lado de fora apenas enquanto obrigaram-no a esperar — e foi o único momento em que ele não conseguiu respirar direito. Quando o chamaram, ele voltou a tempo de acompanhar cada etapa: desintoxicação, estabilização, sedação. A dor de cabeça dele simplesmente desapareceu. Como se nunca tivesse existido. Agora, no quarto reservado, Marina estava deitada, inconsciente, respirando com mais regularidade. Um cobertor azul a envolvia, e seus cabelos castanhos se espalhavam pelo travesseiro como ondas suaves. Erick estava sentado ao lado dela, observando cada detalhe com uma concentração que o deixava desconfortável consigo mesmo. — Sua boba… o que você foi fazer? — sussurrou, acariciando a mão dela com extremo cuidado. — Tanto faz. Só… acorda logo. Seu olhar percorreu o rosto dela — o nariz delicado, os lábios carnudos, a expressão suave mesmo sob efeitos da sedação. Ele se aproximou um pouco demais sem perceber; quase tocou os lábios dela. Parou a milímetros. O corpo inteiro lhe avisou que era errado. Erick recuou rapidamente, passando a mão pelos próprios cabelos, irritado consigo mesmo. Tinha perdido controle? Ele? Mas antes que pudesse se recompor, a porta se abriu. Patrício entrou acompanhado de Edward. O pai de Marina hesitou ao vê-la. Seu rosto desmoronou quando tocou a mão da filha. — Marina… o que eu fiz com você… — murmurou ele, devastado. Edward tocou o ombro de Erick, baixinho: — Vamos dar espaço. Erick apenas assentiu e saiu, mesmo sentindo que cada passo para longe dela o deixava inquieto, tenso, quase… vazio. O corredor do hospital parecia infinito enquanto Erick e Edward caminhavam lado a lado. O som distante de monitores cardíacos e passos apressados de enfermeiros contrastava com o silêncio pesado entre eles. Edward foi o primeiro a quebrá-lo: — A Marina vai ficar bem? A pergunta saiu tensa, quase temerosa. Erick respondeu sem hesitar, ainda com a respiração pesada pela adrenalina: — Acredito que sim. Já foi feita a desintoxicação da morfina. Em poucas horas ela deve acordar. Edward soltou um suspiro longo, de alívio verdadeiro. — Graças a Deus. O Patrício quase teve um infarto quando avisaram que ela tinha sido trazida pra cá desacordada. Eu também… fiquei preocupado, e me dispus a acompanhá-lo. Que bom que você a socorreu a tempo. Erick apenas assentiu. A tensão nos ombros dele diminuiu alguns milímetros. — Quer que eu te leve de volta para o hotel? — perguntou Edward, tentando avaliar o estado do amigo. — Não. Vou ficar aqui até ela acordar. A resposta foi imediata. Rígida. Sem espaço para discussão. Edward tentou, ainda assim: — Foi muito gentil da sua parte acompanhar tudo… mas agora ela está fora de perigo. O pai dela está aqui, e a senhora Miranda já está a caminho. Você deveria ir pra casa, descansar, comer algo… — Eu já disse que só arredarei o pé daqui quando ela acordar. A dureza na voz de Erick fez Edward franzir o cenho — não de reprovação, mas de surpresa. Ainda assim, não insistiu. Sentaram-se na sala de espera. O relógio na parede marcava cada segundo com crueldade. Depois de alguns minutos, a porta abriu e uma mulher entrou — elegante apesar do estado, cabelos negros longos caindo pelos ombros, o rosto marcado por lágrimas secas. Erick soube imediatamente: Miranda, a mãe de Marina. Edward levantou-se para recebê-la. — Senhora Thompson… — Onde está a minha filha? Ela está bem? — perguntou desesperada, sem rodeios. — Está sim — garantiu Edward, segurando suas mãos. — Está fora de perigo. Ela logo vai acordar. Miranda fechou os olhos por um instante, absorvendo o alívio. Depois, olhando ao redor: — Eu quero vê-la. Edward assentiu. — O Patrício está lá dentro com ela. Só pode uma pessoa por vez… não é, Erick? Erick levantou-se, apenas confirmando com um aceno. Miranda então o encarou com estranhamento. — Quem é? — Miranda, este é o doutor Erick Vegas — explicou Edward. — Ele estava no hotel e realizou os primeiros socorros na Marina. Sem hesitar, ela caminhou até Erick e o abraçou — forte, desesperadamente grata. — Muito obrigada, doutor. De verdade. Erick devolveu o abraço com respeito, mas com um certo desconforto — como se não soubesse lidar com tanta emoção dirigida a ele. — Eu só fiz o que qualquer médico faria — murmurou. No quarto ao lado, Marina começou a se mover sob o cobertor azul. Suas pálpebras pesadas abriram devagar. A luz branca do hospital a cegou por um segundo, mas quando os olhos se acostumaram, ela reconheceu a figura sentada à sua frente. — Papai… — disse, a voz arranhada. Patrício praticamente desabou sobre ela, abraçando-a com uma mistura de desespero e alívio. — Graças a Deus, filha. Graças a Deus. — O que aconteceu? Onde eu tô? — perguntou Marina, confusa. Patrício hesitou, o rosto tenso. — Você teve uma overdose. O choque dela foi imediato. — O quê? Pai, eu— — Shhh… agora não. — Ele a interrompeu com carinho. — O que importa é que você está bem. Vou chamar o médico… e sua mãe. Ela está louca pra te ver. Ele saiu quase correndo, o coração finalmente desafogando após horas de tormento. Do lado de fora, Erick andava de um lado para o outro como um animal preso. Cada minuto em que Marina permanecia inconsciente parecia esmagá-lo um pouco mais. Quando Patrício apareceu no corredor com um sorriso que não cabia no rosto, foi como uma explosão de alívio dentro do peito de Erick. — Ela acordou, querida — disse ele a Miranda. Miranda caiu nos braços do marido chorando de alívio. Erick respirou fundo, um suspiro longo, quase trêmulo, deixando o corpo escorar na parede. A tensão acumulada nas últimas horas finalmente começou a quebrar. Edward, que o observava de canto, deu um sorriso pequeno — compreensivo, mas silencioso. Os pais entraram no quarto. Assim que a porta fechou, Erick chamou uma enfermeira. — Quero que façam todos os exames necessários nela — disse baixo, mas firme. A enfermeira assentiu. Só então ele caminhou devagar pelo corredor até o quarto. No batente da porta, parou. A cena era bonita demais e dolorosa demais ao mesmo tempo: Marina acordada, chorosa, cercada de amor. A família inteira aliviada. Um quadro que ele nunca mais teria para si — porque já não tinha. A lembrança dos próprios pais, já falecidos, golpeou seu peito com força inesperada. Ele se sentiu um intruso ali. Fora de lugar. Estava prestes a virar e ir embora quando Marina, instintivamente, ergueu os olhos. E os olhares se encontraram. Castanho e n***o. Um impacto silencioso. Breve. Intenso demais. Marina piscou, surpresa — como se não soubesse se era real. Quando Marina desviou o olhar para a mãe, Erick já havia desaparecido do corredor. Ela fechou os olhos devagar, tentando convencer a si mesma de que talvez tivesse imaginado. Mas o coração… sabia exatamente quem tinha estado ali.
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