Marina foi levada para emergência assim que chegaram. Erick permaneceu do lado de fora apenas enquanto obrigaram-no a esperar — e foi o único momento em que ele não conseguiu respirar direito.
Quando o chamaram, ele voltou a tempo de acompanhar cada etapa: desintoxicação, estabilização, sedação.
A dor de cabeça dele simplesmente desapareceu. Como se nunca tivesse existido.
Agora, no quarto reservado, Marina estava deitada, inconsciente, respirando com mais regularidade. Um cobertor azul a envolvia, e seus cabelos castanhos se espalhavam pelo travesseiro como ondas suaves.
Erick estava sentado ao lado dela, observando cada detalhe com uma concentração que o deixava desconfortável consigo mesmo.
— Sua boba… o que você foi fazer? — sussurrou, acariciando a mão dela com extremo cuidado. — Tanto faz. Só… acorda logo.
Seu olhar percorreu o rosto dela — o nariz delicado, os lábios carnudos, a expressão suave mesmo sob efeitos da sedação. Ele se aproximou um pouco demais sem perceber; quase tocou os lábios dela.
Parou a milímetros.
O corpo inteiro lhe avisou que era errado.
Erick recuou rapidamente, passando a mão pelos próprios cabelos, irritado consigo mesmo. Tinha perdido controle? Ele?
Mas antes que pudesse se recompor, a porta se abriu. Patrício entrou acompanhado de Edward.
O pai de Marina hesitou ao vê-la. Seu rosto desmoronou quando tocou a mão da filha.
— Marina… o que eu fiz com você… — murmurou ele, devastado.
Edward tocou o ombro de Erick, baixinho:
— Vamos dar espaço.
Erick apenas assentiu e saiu, mesmo sentindo que cada passo para longe dela o deixava inquieto, tenso, quase… vazio.
O corredor do hospital parecia infinito enquanto Erick e Edward caminhavam lado a lado. O som distante de monitores cardíacos e passos apressados de enfermeiros contrastava com o silêncio pesado entre eles.
Edward foi o primeiro a quebrá-lo:
— A Marina vai ficar bem?
A pergunta saiu tensa, quase temerosa.
Erick respondeu sem hesitar, ainda com a respiração pesada pela adrenalina:
— Acredito que sim. Já foi feita a desintoxicação da morfina. Em poucas horas ela deve acordar.
Edward soltou um suspiro longo, de alívio verdadeiro.
— Graças a Deus. O Patrício quase teve um infarto quando avisaram que ela tinha sido trazida pra cá desacordada. Eu também… fiquei preocupado, e me dispus a acompanhá-lo. Que bom que você a socorreu a tempo.
Erick apenas assentiu. A tensão nos ombros dele diminuiu alguns milímetros.
— Quer que eu te leve de volta para o hotel? — perguntou Edward, tentando avaliar o estado do amigo.
— Não. Vou ficar aqui até ela acordar.
A resposta foi imediata. Rígida. Sem espaço para discussão.
Edward tentou, ainda assim:
— Foi muito gentil da sua parte acompanhar tudo… mas agora ela está fora de perigo. O pai dela está aqui, e a senhora Miranda já está a caminho. Você deveria ir pra casa, descansar, comer algo…
— Eu já disse que só arredarei o pé daqui quando ela acordar.
A dureza na voz de Erick fez Edward franzir o cenho — não de reprovação, mas de surpresa. Ainda assim, não insistiu.
Sentaram-se na sala de espera. O relógio na parede marcava cada segundo com crueldade.
Depois de alguns minutos, a porta abriu e uma mulher entrou — elegante apesar do estado, cabelos negros longos caindo pelos ombros, o rosto marcado por lágrimas secas.
Erick soube imediatamente: Miranda, a mãe de Marina.
Edward levantou-se para recebê-la.
— Senhora Thompson…
— Onde está a minha filha? Ela está bem? — perguntou desesperada, sem rodeios.
— Está sim — garantiu Edward, segurando suas mãos. — Está fora de perigo. Ela logo vai acordar.
Miranda fechou os olhos por um instante, absorvendo o alívio. Depois, olhando ao redor:
— Eu quero vê-la.
Edward assentiu.
— O Patrício está lá dentro com ela. Só pode uma pessoa por vez… não é, Erick?
Erick levantou-se, apenas confirmando com um aceno.
Miranda então o encarou com estranhamento.
— Quem é?
— Miranda, este é o doutor Erick Vegas — explicou Edward. — Ele estava no hotel e realizou os primeiros socorros na Marina.
Sem hesitar, ela caminhou até Erick e o abraçou — forte, desesperadamente grata.
— Muito obrigada, doutor. De verdade.
Erick devolveu o abraço com respeito, mas com um certo desconforto — como se não soubesse lidar com tanta emoção dirigida a ele.
— Eu só fiz o que qualquer médico faria — murmurou.
No quarto ao lado, Marina começou a se mover sob o cobertor azul.
Suas pálpebras pesadas abriram devagar. A luz branca do hospital a cegou por um segundo, mas quando os olhos se acostumaram, ela reconheceu a figura sentada à sua frente.
— Papai… — disse, a voz arranhada.
Patrício praticamente desabou sobre ela, abraçando-a com uma mistura de desespero e alívio.
— Graças a Deus, filha. Graças a Deus.
— O que aconteceu? Onde eu tô? — perguntou Marina, confusa.
Patrício hesitou, o rosto tenso.
— Você teve uma overdose.
O choque dela foi imediato.
— O quê? Pai, eu—
— Shhh… agora não. — Ele a interrompeu com carinho. — O que importa é que você está bem. Vou chamar o médico… e sua mãe. Ela está louca pra te ver.
Ele saiu quase correndo, o coração finalmente desafogando após horas de tormento.
Do lado de fora, Erick andava de um lado para o outro como um animal preso. Cada minuto em que Marina permanecia inconsciente parecia esmagá-lo um pouco mais.
Quando Patrício apareceu no corredor com um sorriso que não cabia no rosto, foi como uma explosão de alívio dentro do peito de Erick.
— Ela acordou, querida — disse ele a Miranda.
Miranda caiu nos braços do marido chorando de alívio.
Erick respirou fundo, um suspiro longo, quase trêmulo, deixando o corpo escorar na parede. A tensão acumulada nas últimas horas finalmente começou a quebrar.
Edward, que o observava de canto, deu um sorriso pequeno — compreensivo, mas silencioso.
Os pais entraram no quarto. Assim que a porta fechou, Erick chamou uma enfermeira.
— Quero que façam todos os exames necessários nela — disse baixo, mas firme.
A enfermeira assentiu.
Só então ele caminhou devagar pelo corredor até o quarto. No batente da porta, parou.
A cena era bonita demais e dolorosa demais ao mesmo tempo:
Marina acordada, chorosa, cercada de amor.
A família inteira aliviada.
Um quadro que ele nunca mais teria para si — porque já não tinha.
A lembrança dos próprios pais, já falecidos, golpeou seu peito com força inesperada.
Ele se sentiu um intruso ali. Fora de lugar.
Estava prestes a virar e ir embora quando Marina, instintivamente, ergueu os olhos.
E os olhares se encontraram.
Castanho e n***o.
Um impacto silencioso.
Breve.
Intenso demais.
Marina piscou, surpresa — como se não soubesse se era real.
Quando Marina desviou o olhar para a mãe, Erick já havia desaparecido do corredor.
Ela fechou os olhos devagar, tentando convencer a si mesma de que talvez tivesse imaginado. Mas o coração… sabia exatamente quem tinha estado ali.