Então ela se levantou para pegar um coquetel.
E Erick foi atrás — sem pensar, sem medir, puxado por algo mais forte que ele mesmo.
— Oi — disse ele atrás dela.
O timbre grave fez a espinha dela se arquear.
— Erick… — respondeu com uma voz baixa, o nervosismo evidente até na forma como segurou o copo.
Ele se aproximou devagar, com aquele cuidado que só se tem quando algo importa demais.
— Fico feliz que esteja bem — disse ele, num tom quase de alívio.
Marina respirou fundo, tentando não tremer.
— Eu… eu queria te agradecer — disse enfim. — Por tudo.
Os olhos dela brilharam.
— Pelas lindas flores... Pelo que você fez por mim aquele dia… por ter me encontrado… por ter me ajudado. Eu… — ela engoliu seco — …eu realmente não sei o que teria acontecido se você não estivesse lá, Erick.
Ele piscou devagar, atingido.
A voz saiu baixa, rouca: — Eu faria tudo de novo. Todas as vezes. — Ele hesitou, um segundo apenas. — Eu fiquei com medo de te perder. — confessou, sem filtros.
Marina ficou imóvel. A sala inteira pareceu desaparecer — só restava ele.
Erick se inclinou para dizer algo…
Mas Thereza surgiu atrás dela.
— Mari, não vai me apresentar ao seu amigo?
O encanto quebrou.
As apresentações foram rápidas, e Thereza imediatamente grudou em Erick — que m*l ouviu uma palavra. Seus olhos só encontravam Marina.
Parabéns, bolo, risadas… tudo seguiu.
E Marina reagindo aos olhares dele, desviando, tremendo, enlouquecendo em silêncio.
Quando foi lavar o prato na cozinha, virou-se — e seu corpo congelou.
Erick estava ali.
Perto demais.
Tão perto que ela sentiu o cheiro dele antes mesmo de registrar o rosto.
— Erick! — sussurrou, o susto misturado com algo que ela não queria admitir nem para si mesma.
Ele apenas colocou o próprio prato ao lado do dela — gesto simples, controlado…
Mas o olhar dele não tinha nada de controlado.
Aquele olhar a percorreu com uma intensidade que fez seu estômago virar.
Marina baixou o olhar, mas isso só piorou.
A lembrança veio, forte demais, quente demais:
“Eu fiquei com medo de te perder.”
Aquilo não era gentileza.
Não era educação.
Não era um comentário solto.
O peito dela apertou.
A garganta ardeu.
Erick percebeu.
Marina umedeceu os lábios sem perceber — pura reação nervosa.
Naquele instante, algo nele suavizou — e ao mesmo tempo se intensificou.
E os olhos dele acompanharam o movimento, descendo exatamente ali.
E então, lentamente, ele ergueu a mão e tocou o canto da boca dela com o dedo, como se tivesse medo de machucá-la.
— Estava sujo de chantilly — disse, a voz baixa demais.
A pele dela arrepiou inteira.
As pernas fraquejaram, e ela odiou — e amou — a sensação.
Quando ele levou o dedo à própria boca, lambeu de forma quase distraída…
Marina perdeu o ar. Literalmente.
O peito dela não subia, não descia — só queimava.
— Você está linda — murmurou ele, se aproximando mais um passo que diminuiu o mundo à distância entre eles.
Marina recuou reflexivamente — mas só encontrou a cadeira atrás de si.
Sem fuga.
Sem espaço.
Sem ar.
Erick percebeu. E tentou se controlar.
Ela viu.
Viu quando ele respirou fundo.
Viu os dedos dele se fecharem ao lado do corpo, como se ele estivesse se segurando com força.
Ele inclinou o rosto um pouco, mas parou.
Parou porque estava tentando ser cuidadoso.
Tentando respeitar o limite dela.
Tentando não ser levado pelo impulso.
Mas falhou.
Falhou porque Marina olhou para a boca dele.
E ele perdeu a batalha naquele exato segundo.
— Isso… é um problema pra você? — perguntou ele, a voz mais íntima do que qualquer toque.
— Eu estar tão perto assim… ao ponto de querer te beijar?
Marina piscou, atordoada, o coração batendo tão rápido que parecia um aviso de perigo e desejo ao mesmo tempo.
— Be-beijar...? — ela repetiu fraca, mas o olhar dela já tinha descido para os lábios dele.
E isso acabou com qualquer resquício de controle que Erick tinha.
Ele deu um passo que a envolveu completamente.
A mão dele subiu até o queixo dela, leve, tremendo.
E os olhos dela… se fecharam devagar, como quem não aguenta mais a própria vontade.
Ela queria aquele beijo.
Queria tanto que doía.
E ele inclinou o rosto.
O nariz dele roçou no dela.
Os lábios se aproximaram, quentes, a respiração dos dois se misturando.
Eles estavam a um fio, um suspiro, um movimento…
Quase.
O barulho abrupto da porta da cozinha se abrindo fez os dois pularem para trás como culpados.
A ajudante entrou, barulhenta com as bandejas, sem perceber a cena que quase aconteceu.
Marina recuou, pálida, o corpo em colapso.
E fugiu — literalmente fugiu — como se precisasse de ar para sobreviver.
Marina saiu da cozinha como se estivesse fugindo de um incêndio invisível.
Na sala, agarrou a primeira taça de vinho que encontrou e virou de uma vez só, o líquido descendo quente, ardido, quase doloroso.
Era isso ou gritar.
Nicole e Thereza a observavam em silêncio absoluto — aquele tipo de silêncio que não precisa de perguntas, porque tudo estava estampado no rosto dela: o susto, o desejo, o quase-beijo que continuava vibrando na pele.
Marina tentou se recompor.
Tentou puxar o ar devagar.
Tentou ajeitar o cabelo.
Tentou sorrir.
Mas nada funcionava.
O coração não diminuía.
As mãos tremiam sem controle.
A boca ainda parecia formigar onde os lábios dele quase tocaram.
Ela m*l ouviu o som da porta da cozinha se abrindo de novo.
Mas o corpo dela ouviu antes da mente.
Erick entrou.
E a tensão se multiplicou.
Foi automático: a espinha de Marina endureceu, o peito travou, o ar ficou pesado.
Ela não precisou olhar para saber — Erick havia voltado para a sala.
O corpo dela sentiu antes da mente.
Nicole franziu o cenho.
— Marina…?
Mas Marina já estava tensa, apertando a taça vazia como se fosse âncora.
A simples presença dele reacendeu o calor do quase-beijo ainda preso na pele dela.
Quando Erick deu um único passo na direção delas, ela quase perdeu o ar.
Não podia encará-lo.
Não depois daquilo.
Não com o corpo confessando tudo que ela tentava negar.
— Eu… preciso de ar — murmurou, a voz falhando.
E antes que Nicole ou Thereza dissessem qualquer coisa — ou que Erick chegasse perto demais — Marina atravessou a sala rápido, quase em fuga.
Abriu a porta e saiu, o coração disparado, como se estivesse correndo do próprio desejo estampado no rosto.
Erick acompanhou Marina indo embora e foi para sacada.
O peito dele…
Desabando junto com ela.
O vento frio não conseguiu clarear a mente dele — estava tudo uma bagunça, um turbilhão de imagens: a respiração dela tão perto, o susto, a hesitação, o passo para trás… e o olhar final, que dizia tudo e nada ao mesmo tempo.
O fato de Marina ter saído quase correndo o deixou inquieto.
Talvez ele tivesse sido invasivo demais.
Ou talvez — e essa ideia o corroía — ela quisesse aquele beijo tanto quanto ele quis.
Porque estava ali.
Estava no rosto dela, no tremor das mãos, na forma como ela disse o nome dele.
— Parece que a Marina foi embora — disse Edward, surgindo atrás dele e interrompendo o transe.
Erick piscou, voltando ao presente.
— Do que está falando? — perguntou, entediado demais para ser convincente. — Não aconteceu nada.
Edward ergueu a sobrancelha.
— Ah, qual é, Erick. Eu vi quando você foi atrás dela… e vi a cara dela agora há pouco. — Ele cruzou os braços. — Algo aconteceu. E agora ela saiu quase correndo daqui.
Erick não respondeu.
Não porque não quisesse, mas porque não sabia como colocar em palavras o nó que estava dentro dele.
— Por que você insiste em abafar esse sentimento? — Edward perguntou, sem suavizar nada. — Quanto mais você tenta esconder, mais forte ele fica.
Erick virou o rosto, irritado.
— Isso não é assunto seu.
E bebeu o resto do vinho como quem tenta apagar um incêndio com um gole.
— Já estou indo. Feliz aniversário. — murmurou Erick, oferecendo um meio sorriso.
— Obrigado. Disse Edward. – Pensa no que eu te falei.
— Não começa, Edward. Sério. Não começa. — E se afastou, evitando o olhar do amigo antes que ele dissesse algo que o atingisse de novo.