capítulo 15

1414 Words
Então ela se levantou para pegar um coquetel. E Erick foi atrás — sem pensar, sem medir, puxado por algo mais forte que ele mesmo. — Oi — disse ele atrás dela. O timbre grave fez a espinha dela se arquear. — Erick… — respondeu com uma voz baixa, o nervosismo evidente até na forma como segurou o copo. Ele se aproximou devagar, com aquele cuidado que só se tem quando algo importa demais. — Fico feliz que esteja bem — disse ele, num tom quase de alívio. Marina respirou fundo, tentando não tremer. — Eu… eu queria te agradecer — disse enfim. — Por tudo. Os olhos dela brilharam. — Pelas lindas flores... Pelo que você fez por mim aquele dia… por ter me encontrado… por ter me ajudado. Eu… — ela engoliu seco — …eu realmente não sei o que teria acontecido se você não estivesse lá, Erick. Ele piscou devagar, atingido. A voz saiu baixa, rouca: — Eu faria tudo de novo. Todas as vezes. — Ele hesitou, um segundo apenas. — Eu fiquei com medo de te perder. — confessou, sem filtros. Marina ficou imóvel. A sala inteira pareceu desaparecer — só restava ele. Erick se inclinou para dizer algo… Mas Thereza surgiu atrás dela. — Mari, não vai me apresentar ao seu amigo? O encanto quebrou. As apresentações foram rápidas, e Thereza imediatamente grudou em Erick — que m*l ouviu uma palavra. Seus olhos só encontravam Marina. Parabéns, bolo, risadas… tudo seguiu. E Marina reagindo aos olhares dele, desviando, tremendo, enlouquecendo em silêncio. Quando foi lavar o prato na cozinha, virou-se — e seu corpo congelou. Erick estava ali. Perto demais. Tão perto que ela sentiu o cheiro dele antes mesmo de registrar o rosto. — Erick! — sussurrou, o susto misturado com algo que ela não queria admitir nem para si mesma. Ele apenas colocou o próprio prato ao lado do dela — gesto simples, controlado… Mas o olhar dele não tinha nada de controlado. Aquele olhar a percorreu com uma intensidade que fez seu estômago virar. Marina baixou o olhar, mas isso só piorou. A lembrança veio, forte demais, quente demais: “Eu fiquei com medo de te perder.” Aquilo não era gentileza. Não era educação. Não era um comentário solto. O peito dela apertou. A garganta ardeu. Erick percebeu. Marina umedeceu os lábios sem perceber — pura reação nervosa. Naquele instante, algo nele suavizou — e ao mesmo tempo se intensificou. E os olhos dele acompanharam o movimento, descendo exatamente ali. E então, lentamente, ele ergueu a mão e tocou o canto da boca dela com o dedo, como se tivesse medo de machucá-la. — Estava sujo de chantilly — disse, a voz baixa demais. A pele dela arrepiou inteira. As pernas fraquejaram, e ela odiou — e amou — a sensação. Quando ele levou o dedo à própria boca, lambeu de forma quase distraída… Marina perdeu o ar. Literalmente. O peito dela não subia, não descia — só queimava. — Você está linda — murmurou ele, se aproximando mais um passo que diminuiu o mundo à distância entre eles. Marina recuou reflexivamente — mas só encontrou a cadeira atrás de si. Sem fuga. Sem espaço. Sem ar. Erick percebeu. E tentou se controlar. Ela viu. Viu quando ele respirou fundo. Viu os dedos dele se fecharem ao lado do corpo, como se ele estivesse se segurando com força. Ele inclinou o rosto um pouco, mas parou. Parou porque estava tentando ser cuidadoso. Tentando respeitar o limite dela. Tentando não ser levado pelo impulso. Mas falhou. Falhou porque Marina olhou para a boca dele. E ele perdeu a batalha naquele exato segundo. — Isso… é um problema pra você? — perguntou ele, a voz mais íntima do que qualquer toque. — Eu estar tão perto assim… ao ponto de querer te beijar? Marina piscou, atordoada, o coração batendo tão rápido que parecia um aviso de perigo e desejo ao mesmo tempo. — Be-beijar...? — ela repetiu fraca, mas o olhar dela já tinha descido para os lábios dele. E isso acabou com qualquer resquício de controle que Erick tinha. Ele deu um passo que a envolveu completamente. A mão dele subiu até o queixo dela, leve, tremendo. E os olhos dela… se fecharam devagar, como quem não aguenta mais a própria vontade. Ela queria aquele beijo. Queria tanto que doía. E ele inclinou o rosto. O nariz dele roçou no dela. Os lábios se aproximaram, quentes, a respiração dos dois se misturando. Eles estavam a um fio, um suspiro, um movimento… Quase. O barulho abrupto da porta da cozinha se abrindo fez os dois pularem para trás como culpados. A ajudante entrou, barulhenta com as bandejas, sem perceber a cena que quase aconteceu. Marina recuou, pálida, o corpo em colapso. E fugiu — literalmente fugiu — como se precisasse de ar para sobreviver. Marina saiu da cozinha como se estivesse fugindo de um incêndio invisível. Na sala, agarrou a primeira taça de vinho que encontrou e virou de uma vez só, o líquido descendo quente, ardido, quase doloroso. Era isso ou gritar. Nicole e Thereza a observavam em silêncio absoluto — aquele tipo de silêncio que não precisa de perguntas, porque tudo estava estampado no rosto dela: o susto, o desejo, o quase-beijo que continuava vibrando na pele. Marina tentou se recompor. Tentou puxar o ar devagar. Tentou ajeitar o cabelo. Tentou sorrir. Mas nada funcionava. O coração não diminuía. As mãos tremiam sem controle. A boca ainda parecia formigar onde os lábios dele quase tocaram. Ela m*l ouviu o som da porta da cozinha se abrindo de novo. Mas o corpo dela ouviu antes da mente. Erick entrou. E a tensão se multiplicou. Foi automático: a espinha de Marina endureceu, o peito travou, o ar ficou pesado. Ela não precisou olhar para saber — Erick havia voltado para a sala. O corpo dela sentiu antes da mente. Nicole franziu o cenho. — Marina…? Mas Marina já estava tensa, apertando a taça vazia como se fosse âncora. A simples presença dele reacendeu o calor do quase-beijo ainda preso na pele dela. Quando Erick deu um único passo na direção delas, ela quase perdeu o ar. Não podia encará-lo. Não depois daquilo. Não com o corpo confessando tudo que ela tentava negar. — Eu… preciso de ar — murmurou, a voz falhando. E antes que Nicole ou Thereza dissessem qualquer coisa — ou que Erick chegasse perto demais — Marina atravessou a sala rápido, quase em fuga. Abriu a porta e saiu, o coração disparado, como se estivesse correndo do próprio desejo estampado no rosto. Erick acompanhou Marina indo embora e foi para sacada. O peito dele… Desabando junto com ela. O vento frio não conseguiu clarear a mente dele — estava tudo uma bagunça, um turbilhão de imagens: a respiração dela tão perto, o susto, a hesitação, o passo para trás… e o olhar final, que dizia tudo e nada ao mesmo tempo. O fato de Marina ter saído quase correndo o deixou inquieto. Talvez ele tivesse sido invasivo demais. Ou talvez — e essa ideia o corroía — ela quisesse aquele beijo tanto quanto ele quis. Porque estava ali. Estava no rosto dela, no tremor das mãos, na forma como ela disse o nome dele. — Parece que a Marina foi embora — disse Edward, surgindo atrás dele e interrompendo o transe. Erick piscou, voltando ao presente. — Do que está falando? — perguntou, entediado demais para ser convincente. — Não aconteceu nada. Edward ergueu a sobrancelha. — Ah, qual é, Erick. Eu vi quando você foi atrás dela… e vi a cara dela agora há pouco. — Ele cruzou os braços. — Algo aconteceu. E agora ela saiu quase correndo daqui. Erick não respondeu. Não porque não quisesse, mas porque não sabia como colocar em palavras o nó que estava dentro dele. — Por que você insiste em abafar esse sentimento? — Edward perguntou, sem suavizar nada. — Quanto mais você tenta esconder, mais forte ele fica. Erick virou o rosto, irritado. — Isso não é assunto seu. E bebeu o resto do vinho como quem tenta apagar um incêndio com um gole. — Já estou indo. Feliz aniversário. — murmurou Erick, oferecendo um meio sorriso. — Obrigado. Disse Edward. – Pensa no que eu te falei. — Não começa, Edward. Sério. Não começa. — E se afastou, evitando o olhar do amigo antes que ele dissesse algo que o atingisse de novo.
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