Bruno
Voltei pra casa sem respirar, minha cabeça girava, Milena virou algo que ninguém mais alcança, nem Thiago, nem Fábio, nem eu, mas eu sei de uma coisa, ela ainda sangra por dentro, e talvez eu ainda seja o único que escuta esse sangue pingando.
Casa Milena
Toquei a campainha à meia-noite, ela atendeu pessoalmente.
— “Bruno, o que houve?”
— “Você.”
Ela me olhou, séria.
— “Você virou uma sombra linda demais pra ignorar.”
— “E você virou um homem t**o demais pra escapar.”
— “Então me mostra quem você é agora.”
Ela se aproximou, me tocou o rosto, e disse:
— “Eu sou o começo de tudo o que pode destruir você.”
Mas dessa vez, ela não recuou, nos beijamos, e o mundo desabou em silêncio.
03h41 da madrugada, minha cama, sem ela, o lençol ainda tem o cheiro dela, uma leve mistura de ameixa com pólvora, ela passou a noite aqui, dormiu pouco, observou muito, como se não confiasse nem no travesseiro, Milena não ronca, não vira de lado, não desarma, mesmo despida, é armada até os dentes, e no beijo... tem gosto de perigo anunciado.
Um mês depois — rotina com Milena
A gente se vê quando ela quer, nunca no mesmo dia da semana, nunca no mesmo lugar, ela some por dias, volta com olhos mais escuros, dedos mais tensos, as vezes sangra e diz que foi "coisa da academia", outras, diz que "acertou um contrato", mas eu sei.
Eu vejo, Milena não tá vivendo, ela tá controlando o mundo pelas bordas.
Café francês no centro — dia chuvoso
Ela está com um tailleur branco, salto, guarda-chuva de seda preta, cabelo preso, pescoço marcado por uma corrente quase invisível.
Sentamos.
— “Você tá estranho.”
— “Tô atento.”
Ela sorri.
— “Desconfiando de mim?”
— “De quem você é quando some, de quem você é quando volta tão calma.”
Ela encosta a xícara. Me olha firme.
— “A paz que eu tenho hoje custou a guerra de muitos, e às vezes... a tua.”
— “Tá me usando?”
— “Se eu tivesse te usando, você já estaria morto, eu gosto de você vivo.
Confuso, mas vivo.”
Ela toca minha mão, calor e gelo num mesmo gesto;A noite perco o sono, pego o laptop de Alessandra, vasculho o nome falso que Milena usou no coquetel, cruzo com registos internacionais, e o que encontro me gela:
– Uma empresa no Japão com ramificações no leste europeu.
– Um fundo de investimento baseado nas Ilhas Cayman com dinheiro de guerras civis.
– Relatórios internos de diplomatas venezuelanos mencionando “Soberana”
E a última coisa, uma imagem em baixa qualidade, Milena… em um leilão ilegal de arte, ao lado de um general russo desaparecido.
Dia seguinte encontro com Milena, agente tá na sacada do quarto dela, chove, ela tá de roupão, vinho na mão, unha preta, mostro a imagem, ela olha. Nem pisca.
— “Você quer a verdade?”
— “Sim.”
— “Então senta. E ouve.”
Eu sento, ela fecha a porta da sacada, nos tranca pra fora do mundo.
— “Depois que eu sumi… a Yakuza queria me m***r, o CV queria me trazer de volta,eu fiz os dois se ajoelharem — juntos, não por arma. Por influência.”
Ela olha pro céu. Depois, pra mim.
— “Eu sou a mulher que compra a guerra e vende a paz com lucro.”
— “E eu?”
— “Você é o único que ainda me chama de Milena sem medo, por isso ainda não te afastei.”
Ja na minha casa, Alessandra me encontra na cozinha.
— “Você ama ela ?”
— “Se amar é saber que ela pode me destruir e mesmo assim querer ficar... então sim.”
— “Ela vai fazer você escolher, ou o amor dela, ou a liberdade que ainda te resta.”
Eu olho pra janela.
— “E sei.”
Milena é o fogo e a luva, a lâmina e o beijo, e a pergunta agora não é se eu vou me queimar, é quanto tempo levo até aceitar que quero arder.
Narrado por Fábio
01h19 da madrugada —Casa Milena
A luz do abajur tá baixa, o som do jazz preenche os cantos da sala, ela tá de costas, servindo vinho, cabelo solto, blusa fina, sem sutiã por baixo, diz que quer conversar, mas toda vez que ela fala isso, alguma parte de mim morre de medo... e outra revive, Milena é o tipo de mulher que você não “pega”, você sobrevive ao toque, e agradece, ela vira. Me entrega a taça.
— “Você ainda me quer?” — pergunta, sem rodeios.
— “Desde o dia em que você sumiu.”
Ela sorri com um canto da boca.
— “Então por que não me toca?”
— “Porque com você, minha soberana, tudo é um risco. Até o prazer.”
Ela se aproxima, e me beija, a taça cai no chão, o vinho se mistura com a noite, a blusa dela já era, minhas mãos tremem, mas seguem, ela monta em mim no sofá.
— “Não manda em nada agora, entendeu?” — ela sussurra no meu ouvido.
— “Sim, senhora.”
E ali, naquela hora… ela virou minha religião e meu castigo,fomos até o quarto, ela acendeu velas, pôs música suave, na cama dela, não tem romance, tem guerra, ritual, domínio, punição e desejo, ela arranha, ela comanda, ela não geme alto ,ela rosna, como uma rainha que não precisa fingir prazer, ela exige, e eu dou, horas, corpos suados, gritos abafados, ela riu no fim, não de alegria mas sim de controle, depois, ficou em silêncio, deitada, olhando o teto.
— “Vai me odiar amanhã?” — perguntei.
Ela me olhou.
— “Você me pertence agora,mas só enquanto eu quiser.”
— “E se eu quiser mais?”
— “Então você vai sofrer mais.”
sozinho, no banheiro, me olho no espelho, marcas no peito, unhas no pescoço, perfume dela no meu corpo, sangue misturado com saliva e saudade, ela foi minha,mas no fundo…eu sei, nessa noite...eu fui dela; saio do banheiro, as postas da varanda estão abertas, ela com seus corpo ali encostado,ainda nua fumando algo importado, olha as luzes da cidade, sabe que Bruno sonha com ela, sabe que eu daria a vida por mais um toque, ela diz pra si mesma, quase como um sussurro de seus pensamentos
— “Um me deseja, outro me ama, e nenhum dos dois sabe... que eu só me entrego quando quero ver até onde eles aguentam antes de cair.”