Prioridades

1334 Words
Lis deixou que o marido tirasse a sua roupa, recebeu seus beijos, retribuiu as carícias, nada daquilo era novidade para ela, foi treinada para oferecer prazer sem receber nada em troca, mas alguma coisa tinha mudado, apesar de saber cada passo que deveria dar, foi como se a profissional tivesse dado lugar a mulher, e como mulher não era com ele que desejava estar. Fechou os olhos quando a boca do marido tocou o seu corpo, a traição é um conceito estranho, porque para ela estar com Ming era como se estivesse traindo, sentiu um frio absurdo, começou a tremer, o chinês estava focado no que ele acreditava ser um carinho para a esposa. A cabeça entre as pernas de Lis, a língua fazia um trabalho primoroso, se ela tivesse conseguido se focar nisso provavelmente teria alcançado o prazer, mas tudo o que sentia era nojo e frio. Depois de um tempo a temperatura do quarto também começou a incomodar o chinês, ele já não mantinha a erеção e parou. - Está com frio? - Muito! Parece que vou congelar. Ming levantou e percebeu que o ar-condicionado estava em 15°, tentou desligar o aparelho, mas ele religava em seguida. Desligou o cabo de energia e chamou a esposa para um banho, trocaram alguns beijos sob a água quente, mas somente até a ducha esfriar, xingou alguns palavrões em uma língua que Lis não entendeu. Ming ligou para a recepção, receberam o técnico no quarto, tudo parecia funcionar normalmente, mas não era o que acontecia há alguns minutos. Estava tarde e Lis fingiu estar com sono, dormiram, Ming frustrado e a mulher aliviada por não precisar chegar ao fim, daria qualquer coisa para fugir daquele quarto e se refugiar no abraço de Pablo, mas não podia, aquela noite não tomou a insulina, nem recebeu o beijo quente e apaixonado do homem que amava. No quarto ao lado o hacker ainda pensava se deveria acionar o alarme de incêndio, mesmo ver o casal abraçados, apesar de vestidos, o incomodava, ela dormia sobre o braço do marido enquanto ele a abraçava por trás, os cabelos de Lis sobre o travesseiro e a mão do chinês no sеio da esposa. Pablo não dormiu, passou a noite bebendo e investigando as contas de Ming, os acessos que fez, suas pesquisas, encontrou as mensagens sobre os campos de papoula no Afeganistão, rastreou o IP das mensagens e chegou a uma localização, enviou para Sombra, o subchefe queria saber quem dava as ordens, agora tinham um lugar. “Sanaã, o 439 é um mαldito árabe” Não teve resposta, o subchefe era focado, mas havia sido pai de Anne recentemente e a filha era exigente em relação aos cuidados, gostava de dormir recebendo carinho nas costas, bastava parar por alguns minutos e ela voltava a chorar. Júlia achava engraçado, mas o marido parecia não se importar em passar a noite inteira acalentando a filha. - Deita com ela na cama, vai ficar com dor se ficar aí. Sombra ficava sentado no chão, a cama da filha tinha um modelo montessoriano. - Nem pensar esquisita, estamos bem, não estamos, Anne? A menininha que dormia de bruços tranquila recebendo o carinho do pai nem se moveu, Julia preparou um café, pegou alguns pedaços de bolo e ficou sentada junto com o marido, no começo estava só revezando os carinhos na filha para que Ethan pudesse comer, terminou a noite com a cabeça dele em seu colo e acariciando não apenas a filha, mas também os cabelos negrοs do marido. - Depois a esquisita sou eu! Falou sozinha, achava engraçado como um dos homens mais temidos conseguia ser tão terno e gentil, estava exausto desde que a filha nasceu não tinha dormido nenhuma noite e mantinha as rotinas da organização sem falhas, mas se ela não tivesse ido até lá ele não teria pedido ajuda. Ficou admirando o semblante tranquilo do homem que as pessoas conheciam como Sombra, provavelmente aquele homem já tinha mais mortes no currículo do que qualquer outro, ainda assim, em casa era só um marido apaixonado e um pai cuidadoso. No México ainda era 00h38, mas no Brasil faltava apenas duas horas para que o subchefe despertasse para as rotinas. A espera de Pablo não foi longa, mas a tortura sim, Ming não soltou a garota durante toda a noite. - Acordou cedo, Pablo, minha vez de perguntar não trαnsα não? Em algum lugar do passado, Ethan pediu a ajuda do hacker em uma madrugada, estava perseguindo Carlos, um soldado conhecido como Ceifador e recebeu essa resposta do amigo, as circunstâncias eram diferentes e Sombra só se deu conta de que a brincadeira não caiu bem quando Pablo respondeu. - Não! Passei a noite vendo outro cara agarrado a minha mulher, mais alguma pergunta chefe? - Foi mαl, Pablo, desculpa, ainda não tomei café. - Ele não vai nos ouvir, é muçulmano, o plano já era. - Seu preconceito é notável meu caro amigo, não precisava verbalizar. Primeiro a religião não define uma pessoa, segundo o fato de ele estar no Lêmen não faz dele necessariamente um seguidor do islamismo e terceiro, mesmo que esteja certo sem tentarmos nunca vamos descobrir, então segura a sua dor de corno aí, e não esquece que também é um cara casado, isso significa que o que Lis está fazendo nem de perto é o que você fez. Ela transou com esse imbеcil para salvar a nossa pele, você só trαnsou para gozar mesmo. Pega leve. - Vai se fοdеr. Desligou antes de ouvir a resposta do subchefe, apesar de saber que ele estava certo, não foi assim que as coisas aconteceram. Nem sequer se lembrava da primeira vez que esteve com Rachel, ela afirmou que foi no dia em que estavam no bar, mas hoje sabia que não. Foi fácil se deixar levar, a insegurança, o medo de ter sido abandonado, o mesmo pânico que sempre esteva lá, desde que se viu tão preso a Lis que já não se reconhecia sem ela. Até que finalmente tinha acontecido, ela foi embora, uma ligação, tudo junto, a acusação de ter feito amor bêbado dentro de um carro, o adeus quase desrespeitoso de Lis, achava que o dia que esse adeus chegasse seria sereno, cuidadoso, talvez não houvesse mais amor, mas o respeito pelo tempo em que se amaram tão intensamente que foi capaz de fazer seus mundos girarem em torno um do outro, só que não tinha sido assim, e se deixou levar. Nunca teria feito nada parecido se soubesse o que estava acontecendo e era isso que odiava em si mesmo e nem tanto em Rachel. Podia ter descoberto, podia ter rastreado a ex-noiva, ter procurado por Tony e perguntado, mas o que mais se cobrava não era nada disso, se odiava porque apesar do tempo juntos, do amor que dividiram, não foi capaz de conquistar a confiança dela. Lis ainda era uma mulher lutando sozinha, apesar de ter alguém disposto a qualquer coisa por ela. Sentia que havia falhado na promessa que fez quando a pediu para ser sua. “Pode escolher superar o que aconteceu e ficar comigo, eu te amo, juro que ninguém, nunca mais vai te fazer mαl...” Não apenas permitiu que acontecesse, como foi incapaz de perceber e mesmo agora assistia passivo ela reviver aquilo que mais odiava em si mesmo. Abriu o computador apesar de não querer, precisava se concentrar e trabalhar, queria ter a capacidade de Lis para separar as coisas, simplesmente não conseguia, mas tentou. Percebeu que algo estava errado quando a notou a respiração da ex-noiva. Ming ainda estava dormindo. Ligou para o celular de Lis, torceu para que o barulho acordasse o chinês. - Vai acorda imbеcil! Nada... Acionou o alarme de emergência do hotel, imaginou que isso no mínimo faria com que Ming tentasse acordar a esposa, mas o assistiu correr para fora do quarto como um rato assustado junto com os outros hóspedes sem nem olhar para trás.
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