Ming e Rachel

1308 Words
Eram jovens demais e inexperientes demais, mas se gostavam, com a força e a ingenuidade que só a juventude consegue oferecer, promessas de um amor eterno, beijos escondidos e a ansiedade de que tudo pudesse se concretizar. O problema era que Ming não era um rapaz normal, nasceu em uma família tradicional, o pai servia uma espécie de sociedade secreta, sabia dos sacrifícios de animais, das reuniões de madrugada, do código, mas até seus dezesseis anos era mantido dessa forma. O senhor Sheng Zhi tinha métodos rígidos para lidar com a família e com suas obrigações, Wan era o filho mais velho e já acompanhava o pai nas reuniões, Ming aproveitava esses momentos para se encontrar com Rachel. O pai da garota tinha negócios com Sheng e se conheceram no jardim da casa em que Ming morava com a família, com o tempo as conversas evoluíram para beijos e juras escondidas, nada além disso. Rachel se casou virgem com o seu irmão após o pai da garota não conseguir cumprir algumas obrigações. - Preciso casar meu filho e sua filha é uma moça bonita, fico com ela e perdoo a sua ofensa. - Senhor ela é uma criança. - Crescerá e como uma de nós, não se preocupe. Fecharam o acordo e Ming não falou até que estivesse sozinho com o pai. - Rachel e eu namoramos, pai. O senhor o encarou com a fisionomia pesada. - A tocou? Ming não entendia que aquela resposta poderia ter resolvido os seus problemas, apenas falou a verdade. - Não, pai, ela é honrada, seguro sua mão e já a beijei. - Então vá dormir, ela se casa com Wan, amanhã é sua iniciação. Nunca houve espaço para discussões na casa do senhor Sheng Zhi, desde que a esposa morreu ele se tornou ainda mais duro, era um bom pai, só tinha convicções muito fechadas. A iniciação de Ming foi como um pesadelo para o garoto, tinha acabado de perder sua primeira paixão, teria que assistir a menina se tornar sua cunhada e agora estava deitado em uma espécie de piscina vazia, cercado de serpentes negrαs enquanto o sangue de três cavalos caia sobre ele. Os trinta e seis juramentos que fez enquanto passava por um corredor de espadas com os pés descalços sobre brasa ardente ainda ecoavam em sua mente. Cumpriu cada um deles durante a vida, herdou um império, mas nunca esteve onde queria. Wan aprendeu a gostar da esposa, mas isso demorou, demorou muito e Ming assistiu as surras que ela levava sem motivo, os gritos durante as madrugadas em que era violentada, as marcas em seu rosto quase todas as manhãs. Pelo que soube quando ele foi embora as coisas melhoraram para a garota, provavelmente as ações de Wan eram uma forma de marcar território e provar a quem Rachel pertencia. Depois veio o sobrinho, o trabalho, e Ming se afastou dos próprios sentimentos. Era infinitamente melhor do que o irmão na administração da organização, mas a palavra dele vinha antes, um dos juramentos... “O homem deve servir a terra para que a terra sirva ao céu.” Assim Hosmyn obedecia a Ming e ele a Wan, os três serviam a cabeça do dragão. Seu também pai havia sido um 438 e seu avô antes dele, odiava tudo o que aquilo representava, mas era fiel apesar disso. Agora, pensava que talvez estivesse fazendo exatamente a mesma coisa que foi feita ao longo do tempo. Olhou para Lis e torceu para que ela não o visse como Rachel enxergava Wan. Lis ouviu quando a porta abriu, preparou o olhar preocupado, mas já não sabia como fingir, não com o homem que realmente queria abraçar estando tão perto, uma parede e a maldade humana a separava da felicidade, já era muito mais do que tinha há alguns dias, por isso, agradeceu e seguiu com o plano. - O que aconteceu? O que fizeram com você?! Passou a mão com cuidado no rosto do chinês e manteve a expressão aflita o máximo de tempo que conseguiu. - Seus amigos não são muito hospitaleiros, mas ficamos bem, trouxe um presente. Estendeu a caixa para a esposa e Lis refletiu sobre o motivo de Ming não ter acusado o hacker, esperava que ele usasse a preocupação dela para tentar afastá-la ainda mais do que sentia, não aconteceu. Abriu a caixa, achou o colar ridículo, imaginava que tinha custado uma pequena fortuna, mas para ela lembrava uma coleira de luxo. - É lindo! Obrigada. Deu um beijo nos lábios do marido e se virou para que ele colocasse em seu pescoço. Pablo assistiu a cena com um tremor no corpo quase incontrolável, sentia doer o peito, pensou em quantas vezes ela não tinha feito a mesma coisa, em quantas noites Ming a tocou, quis entrar no quarto de Lis e a tirar de lá, tentou se controlar, bebeu, se afastou do computador, se arrependeu das microcâmeras que colocou no quarto ao lado, seria muito melhor não ver. Apesar do incômodo que sentia, achava o rosto de Lis tão transparente, parecia tão óbvia a mentira que chegava a ser estranho que Ming acreditasse. Nada estava lá, nem o sorriso com olhar, nem o jeito que ela deitava a cabeça para o lado esquerdo, não colocou o cabelo de lado, nada que demonstrasse desejo. Pablo conhecia cada um daqueles gestos e o que significavam, mas o chinês passou um ano casado com Lis e ainda não tinha descoberto o quão adorável ela podia ser. Lis convenceu o marido a jantarem no restaurante do hotel. - Não, não... esse não é o plano, boxeadora. Falou olhando para a tela. Dragón havia conseguido alguns comprimidos de Flunitrazepam o remédio era capaz de induzir o sono, mas para isso teriam que estar no quarto ou chamariam a atenção dos seguranças. Lis não se preocupou, não pretendia controlar o marido com drogas, sabia que ele provavelmente descobriria após a primeira noite e estaria em problemas. Ming olhou para o móvel onde Lis tinha colocado a caixa da joia que ganhou e notou a bomba de insulina desmontada. - Tentando se ver livre de mim, Lis? Nem o seu messias se sacrificou duas vezes. Lis entendeu a referência, mas respondeu fingindo despreocupação. - Não combinava com o vestido e queria comer no restaurante hoje. Você chegou e vai ser melhor ainda, detesto comer sozinha. Era mais uma mentira, Lis tinha passado os últimos dias com o ex-noivo e por mais bobo que parecesse, ela gostava que ele fizesse as aplicações, sentiu um frio na barriga ao lembrar que tinha deixado a caneta de insulina no quarto do hacker, se Ming perguntasse não teria uma resposta, por sorte ele apenas seguiu. - Está deslumbrante nesse vestido, ainda bem que cheguei ou não teria ninguém para afastar os pretendentes a me substituir. - Não estou disponível. Realmente não estava, nem mesmo para o marido, nunca esteve. Jantaram e Lis fez questão e cortar a carne para o marido, acariciar a mão de Ming sobre a mesa e ouvir atentamente o que ele falava, por fim, jogou a última carta. - Ming eu quero tentar, de verdade, sabe que eu não te amo, mas senti a sua falta esses dias, provavelmente tem mais lembranças ruins do que boas comigo, acho que podemos começar de novo. Prazer! Falou estendendo a mão para o marido e foi recebida com um sorriso, Ming segurou a mão de Lis e beijou. - Também prometo ser um marido melhor. Beberam, dançaram e voltaram para o quarto aos beijos, as mãos de Ming na cintura da mulher foi onde Pablo fixou o olhar antes de fechar o computador. Tomou algumas doses de destilado, olhou o celular, tentou se fixar na paisagem do lugar, pensou em sair, sabia exatamente onde aquelas carícias levariam o casal do quarto ao lado.
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