Ming levou a esposa para uma casa grande e aconchegante, não é difícil encontrar um lugar adequado quando se tem dinheiro e poder a disposição. Ela queria ficar no México, então organizou para que Lis tivesse a melhor experiência, contratou uma enfermeira para garantir que ela não esquecesse o tratamento, alguns empregados, seguranças, cozinheiros.
- Por que não podemos ficar no hotel? Gosto de lá.
Lis ficou infeliz com a escolha do marido, mas não podia demonstrar com o peso que realmente sentia, então apenas questionou.
- Aqui terá conforto e não passaremos pelos problemas que tivemos lá, por mim fecharia aquele lugar, não é seguro para abrigar a minha mulher, é mαl frequentado, tem uma estrutura precária e a organização é frustrante.
Havia um tom diferente na voz do marido, notou, o problema era descobrir o que tinha motivado aquela mudança. Optou por seguir o jogo.
- Obrigada por se preocupar comigo.
- Sempre, sempre vou me preocupar com as pessoas que são leais a mim, você é leal, não é Lis?
Ela soube que tinha sido descoberta, só não sabia até que ponto, o celular que recebeu de Dragón havia ficado no hotel, assim como Pablo. Estava por conta própria outra vez e pelo que tudo indicava estava na estaca zero novamente com o marido.
- Sou leal a mim e aos meus objetivos, nada e ninguém além disso, sou uma sobrevivente, Ming, não luto por outras pessoas além de mim mesma.
- É uma escolha inteligente, agora fique à vontade, tenho trabalho a fazer.
O subchefe estava certo quando temeu que os sentimentos do hacker o fariam agir sem cuidado. Pablo garantiu que não seria descoberto no hotel, mas se esqueceu completamente disso no hospital e Ming não era um amador, deixou a esposa sozinha, mas nunca se esqueceu que ela era uma prisioneira, o hospital em que ela ficou, assim como qualquer outro tinha sistema de monitoramento e ele fez questão de acompanhar, deixou que Pablo e Lis imaginassem que estavam o enganando e agiu, deixou a mulher bem alojada antes de ir buscar a sua presa, não havia acordo a ser respeitado uma vez que foi atacado primeiro.
Não se deu o trabalho de buscar pessoalmente o rival, deixou que seus homens fizessem o trabalho.
Ming realmente estava desistindo, por um tempo quis que Lis o visse como homem, que pudesse se interessar por ele, mas não aconteceu e não estava disposto a passar a vida lutando por algo perdido, sabia escolher as suas batalhas e lembrou do que Dragón falou, estava lutando contra algo que não podia vencer, a saudade potencializa as coisas boas e suprime as ruїns.
Lis parecia não se lembrar de que Pablo a trocou por Rachel, que construiu uma família apesar do tudo que ela havia feito por ele e provavelmente continuaria fazendo se tivesse oportunidade.
Voltou para a China e refletiu sobre o que tinha feito, tentou pensar se Lis sentiria a sua falta pelo menos alguma vez, ou se viveria para chorar a perda de Pablo, talvez ela seguisse em frente, lembrou da cunhada, Rachel ainda tinha o mesmo semblante doce e servil apesar dos anos, jantou com o sobrinho e falaram sobre o futuro, o colégio que o menino estudaria, desejou que o garoto pudesse seguir um caminho diferente dele e de Wan, mas não era uma opção, não havia escolhas.
Jin soh estava marcado para se casar com Mel Biach assim como Wan foi escolhido para desposar a mãe e no fundo Ming não conseguia concordar com nada daquilo.
Lis estava em uma casa cercada de luxo, mas a ausência e o vazio que tinha era muito maior do que qualquer coisa. Quis várias vezes voltar ao hotel, Ming não tinha voltado, mas achou que seria arriscado, não tinha ideia de que o marido a tinha deixado livre para partir.
Dragón voltou ao quarto do hacker como sempre fazia, a ideia era pedirem a refeição juntos, manter a entrada e saída dos hóspedes dentro da normalidade, mas encontrou o lugar uma bagunça, o computador com a tela quebrada, sangue no assoalho, o celular sobre a cama. O hacker era metódico, extremamente organizado, nada ali parecia com um quarto ocupado por Pablo, soube que havia algo errado, mas estranhou que Ming não tivesse buscado nele também a sua vingança, se preocupou com Solar e correu de volta para onde estavam hospedados. Lamentou, pela primeira vez, ter entregado o celular para Lis, pensou no aviso do subchefe, discutiram quando Dragón decidiu que não deixaria Solar no condomínio, foi avisado do risco, mas insistiu.
E enquanto cada um vivia o seu próprio inferno, Sombra bateu na porta do contador.
Marco era vice-presidente do Grupo Bianchi, amigo de Ivan, responsável por todos os pagamentos da organização, investimentos, negociações, mas além de ser um homem de confiança do capô era respeitado por todos no condomínio, abriu mão do próprio salário, continuou trabalhando fora da organização, tinha uma família que era exemplo para a maioria. A conta não fechava, mas as provas estavam ali, o Espanhol era o homem da tríade dentro da organização.
Marco estava sentado com a filha mais nova no colo enquanto assistia a Ayla preparar uma espécie de compota de frutas que os dois adoravam.
A israelense abriu a porta, deixou as coisas caírem e correu para perto do marido. Tinham vivido um trauma que a marcaria para sempre. A guerra com a tríade nasceu em algum lugar no passado, ninguém sabia como Joseph, irmão de Ivan tinha se aliado aqueles homens, mas o fato era que todos pagaram preços altos por essa aliança entre o um irmão que não conseguia admitir o sucesso do outro e uma organização com poderes nos seis continentes.
O relacionamento de Ayla com o empresário nasceu em berço simples, sem os conflitos da máfia, ela era só uma refugiada que recebeu ajuda de Ivan e se tornou secretária de Marco e ele um empresário solteirão que adorava a vida libertina que tinha. Os motivos para que esse amor desse certo? Nenhum, a israelense era muito mais jovem, recém chegada em um país estranho e cheia de sonhos de independência, o homem gostava de viver com liberdade e nunca planejou uma família, mas se apaixonaram, primeiro Ayla, nessa época ele até a olhou, mas como olharia para qualquer mulher bonita, depois a amou com tanta profundidade que já não era possível enxergar uma vida em que ela e os filhos não estivessem.
Marco abraçou a mulher, mas não estava com medo, conhecia aqueles homens.
- Calma, cariño, estamos seguros aqui, minha borboleta.
Não estavam, e os soldados entraram na casa, assim que Ayla se recusou a soltar o braço do marido e Sombra viu que as coisas sairiam de controle, decretou.
- Chega! Saiam daqui, eu resolvo com o espanhol.
Marco também tinha começado a ficar confuso com o que estava acontecendo, entregou a filha para a esposa e beijou a testa da israelense.
- Está tudo bem, cariño, eu volto para dar o banho das crianças, não se preocupa.
Ayla não tinha certeza se realmente estava tudo bem, mas confiava no subchefe, ainda assim, sentiu medo. Uma sensação estranha de que algo que lhe era muito caro estava sendo levado e não havia nada que pudesse fazer.
Olhou para o subchefe com expressão de súplica.
- Está tudo bem?
Ethan não conseguiu responder, conhecia a história dos dois, sabia que o que passaram para conquistar a paz que experimentavam, ainda assim, regras são regras e a traição era assunto do conselho.
Aquela noite, Ayla não dormiu e o marido não voltou para casa como tinha prometido.