O Espanhol

1179 Words
Uma das características que Marco nunca perdeu foi a habilidade de fazer dinheiro, apesar de saber que o que tinha acumulado, aliado aos conceitos básicos de investimentos que ensinou a esposa, deixaria tanto Ayla quanto os filhos seguros quando ele partisse, mesmo assim, trabalhar se tornou um hábito, algo que fazia com tanta naturalidade quanto os exercícios matinais. Quando notou a tensão no rosto de Sombra imaginou que Ayla pudesse ter feito algo errado, usava as demandas da organização para ensinar a esposa, ela sempre foi cuidadosa, desde muito antes de estarem casados, mas pessoas erram e assumiria sem problemas qualquer coisa que tivesse fugido a normalidade. Ethan levou os dois soldados não porque quisesse intimidar a família do contador, eram as regras, cobrar um soldado exigia a presença de duas testemunhas, mas acabou notando pelo desespero de Ayla que nem todas as regras servem para todas as ocasiões, o rosto da israelense o fez lembrar o dia em que foi preso e Júlia entrou em desespero, na época achava que as coisas poderiam ter sido feitas com mais prudência e respeito, agora pensava a mesma coisa. - Vamos conversar, Espanhol. Sombra ainda bagunçou os cabelos de Joshuá, o filho mais velho de Marco era apegado ao subchefe e Sombra também adorava o menino. - Vai ficar tudo bem El niño. Não conseguiu garantir o mesmo para Ayla, os conceitos eram diferentes, mas desde que chegou estava decidido a fazer as coisas da melhor forma, indiferente do que tivesse levado Marco a tomar aquela decisão e trair o amigo, o contador voltaria para o filho. Caminharam lado a lado até a porta do galpão em que costumavam fazer aquele tipo de interrogatório, mas Sombra mudou de ideia. - Toma alguma coisa comigo, Espanhol? - Prefiro que fale o que está errado, Ethan, seja o que for tenho como pagar, não precisava disso, podíamos ter resolvido amanhã. Sombra pensou em conversar em casa, mas a esposa e os filhos estavam lá, então o levou para onde considerava o seu segundo lar, o estande onde dava treinamento de tiro para os soldados. Entregou uma cerveja para Marco e abriu uma para si, o empresário não era afeito a bebida então apenas segurou a garrafa. Sombra entregou em seguida o mesmo relatório que recebeu do hacker e esperou a reação do contador. - O que pode me dizer sobre isso Espanhol? - Não muito, ele tem muito dinheiro, mas não é um bom aliado, trabalho com Sheng Zhi desde que me formei fiz um estudo de recuperação de uma usina nuclear do grupo que ele preside, foi o meu trabalho de conclusão de curso, a usina que operava com prejuízos só precisava realizar a troca dos reatores para.... - Tá, chega, então são amigos? - Na verdade eu desenhei um projeto que deu certo, ele me procurou alguns meses depois, e me contratou como consultor financeiro, nunca vi o rosto do homem, todas as reuniões são on-line e com as câmeras fechadas. Já disse que ele não pode ajudar, é excêntrico demais, mas nossas contas estão boas, temos um lucro anual de... - Para de falar de dinheiro, engomadinho! Sabe que eu te amo, cara? Marco estava ficando ainda mais confuso, nem sequer sabia se estava sendo ameaçado ou elogiado. - Ethan, achei que o seu casamento com Júlia era algo firme, o meu é e mesmo que não fosse, você não faz o meu tipo. Sombra deu risada, não pela brincadeira, mas por ter certeza de que Pablo estava errado, ao menos em parte, Marco era sim o homem da Tríade, só não sabia disso. - Inteligente, não posso negar! - Do que está falando, Sombra? Sério, não sei se percebeu, mas o seu jeito assusta as pessoas, Ayla está com medo. - Sim, sim... você fica aí vou dar um jeito nisso. Ethan pediu a esposa que fosse a casa do contador e dissesse a israelense que estavam em uma reunião de trabalho. - Esquisita, faça companhia para Ayla, fiz merdα e ela ficou assustada, mas Marco volta para casa assim que terminarmos, diga a ela que tem a minha palavra de que está tudo bem. Combinou tudo com Júlia e foi para a casa do chefe, tinha um prazo, mas também precisava garantir que Ivan estivesse calmo quando entrasse no estande, sempre teve certeza de que havia algo errado, agora sabia que o tal Sheng Zhi era realmente esperto, recrutou um jovem recém formado, com potencial e que aceitaria trabalhar sem questionar por estar no início de carreira, com o tempo formou Marco conhecia todos os negócios da Tríade, sem realmente saber para quem trabalhava. Teve que admitir que era genial, qual o risco de ser traído ou roubado uma vez que o seu administrador devia gratidão, era o único responsável, recebia um excelente salário e não imaginava o que estava de fato fazendo? Foi recebido pelo capô e percebeu que era um excelente momento para aquela conversa. Ivan estava só de bermuda e Sara com a face corada e um sorriso fácil. - Entra magrelo, estava indo pegar uma cerveja, quer uma? Acabou rindo com a cena, a esposa do capô seguiu o marido até a cozinha como se não pudesse ficar nem mesmo esse tempo longe de Ivan. Sombra sentou e esperou que o amigo voltasse, no final não era exatamente uma notícia r**m e sim um trunfo. Sara foi até a cozinha com Ivan e preparou uma tábua de frios, era rápido e os três gostariam. - Acho que não é uma visita, pequena, que acha de subir e tomar um banho, ainda não terminamos, mas gostei do que fez no sofá, podemos repetir. - Sei que não é uma visita, não estou tentando agradar ele, quero cuidar do meu marido, posso? Ivan abraçou a mulher por trás e pressionou a ҽreção no corpo da garota. - Quero comer a mesma coisa que estava comendo quando ele chegou. Sara sentiu o corpo reagir, a voz do marido era tão forte quanto o que ele a fazia sentir. Se virou de frente para Ivan com um olhar que gritava que ela também queria. - Então termine isso logo. Ivan foi falar com o subchefe e Sara serviu a tábua de frios em seguida. - Vou deixar vocês conversarem. Falou antes de deixar os homens sozinhos, apesar de querer ficar junto com o marido, sabia que nem sempre participar daquelas conversas era o melhor caminho, na maioria das vezes acabavam brigando quando o assunto era o controle da organização e não queria brigar, não aquela noite. - Possa saber o que fez para a bravinha colaborar assim? Opa, deixa pra lá, não quero saber. Acabaram gargalhando juntos, como os amigos que sempre foram e como se a tensão e o estresse que o assunto da Tríade causava tivesse evaporado junto com angústia da descoberta de que Marco seria o culpado. Só torcia para que Ivan fosse capaz de enxergar as coisas da mesma forma que ele e não buscasse fazer justiça contra alguém que não tinha culpa alguma.
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