Afeganistão

1119 Words
Ivan ouviu o que Sombra tinha a dizer, o subchefe não havia realmente perguntado nada para Marco, mas ainda assim tinha a resposta. - Acha mesmo que ele não sabia? Dinheiro corrompe as pessoas, magrelo. - Me diz você, achei que eram amigos e que o conhecia, você o trouxe para a organização, acha que ele nos trairia? Grandão o Espanhol está trabalhando, para nós e para eles, a diferença é que aqui ele está porque quer, sabendo o que faz, lembra de como ele reagiu quando descobriu o que fazíamos? É só mais um engomadinho sendo usado de laranja, não um traidor. Foram juntos para o estande e encontraram Marco com a mesma expressão confusa, a essa altura já sabia que estava com problemas, mas o que mais o angustiava era Ayla, ver a mulher com a expressão assustada, outra vez, era como se voltasse no tempo e outra vez não fosse capaz de cuidar da própria família. Não fazia muito tempo que o condomínio tinha sido invadido e a israelense baleada, o medo de perdê-la ainda o fazia acordar a noite, ela se recuperou, depois de um tratamento longo e doloroso, tentou se mudar, encontrar um lugar que Ayla gostasse de viver, mas a mulher decidiu ficar e ele não conseguia dizer não a ela, devia muito a israelense, foi ela quem o salvou quando ficou refém dentro da própria casa, quem o ajudou a superar os medos que tinha, deu uma razão para viver quando pensou em desistir, mas principalmente, era grato por ela o escolher todos os dias apesar das inúmeras razões que ele acreditava que ela teria para partir. Tentava desesperadamente merecer esse amor que ela lhe oferecia, a vida tem nuances estranhas, porque do outro lado Ayla pensava exatamente a mesma coisa. Achava que Marco não tinha nenhum motivo para amá-la, era um homem bonito, com posses, acostumado a vida noturna, poderia ter quantas mulheres quisesse, modelos, empresárias, atrizes, quando se conheceram era esse o tipo de mulher que frequentava o quarto do empresário, enquanto ela era uma garota comum, sem nada que a tornasse especial. E tentando merecer um ao outro, sem confessar esses pensamentos, eles eram perfeitos juntos. Mas nesse momento Ayla estava abraçando os joelhos sentada no sofá da própria casa e lutando contra a vontade de procurar pelo marido. Já havia se arrependido da decisão de ficar no condomínio, reconhecia o olhar das pessoas e viu que aqueles soldados não estavam ali para conversar, teriam arrastado Marco de casa se não tivessem sido parados pelo subchefe e Sombra não sustentou o olhar quando ela perguntou se o marido ficaria bem. - Júlia, o que aconteceu? Por favor, o que querem de nós? - Juro que não sei, Ayla, mas pode confiar em mim, Ethan garantiu que estava tudo bem, que Marco voltaria bem para casa e eu confio nele, ele nunca mentiu para mim. Aquela conversa tranquilizou em parte a israelense, mas ainda não via motivos para alguém ser tirado de casa aquela hora e daquela forma. Enquanto isso, Ivan ouvia os planos do subchefe e Marco tentava refletir sobre o que tinha descoberto. - Você sabe exatamente onde operam e quanto faturam, essas informações vão nos colocar a frente deles, entende? - Ivan eu não posso fazer isso! É meu trabalho, conhece a confidencialidade do nosso trabalho. Marco era um verdadeiro workaholic no sentido mais puro da palavra, acreditava no trabalho como fonte de crescimento pessoal, o chinês não era o seu único cliente, tinha inúmeros com o mesmo perfil, o serviço de consultoria oferecia retorno rápido e pouca dedicação. Ivan entendia o paradigma do contador, conhecia aquele universo, cresceu como executivo e não como o líder da máfia que era hoje, no mundo dos negócios a confiança é tão valiosa quanto na organização. Já o subchefe tinha uma forma bem mais prática de enxergar o mundo e uma abordagem capaz de anular qualquer bloqueio ético. - Tá certo, Ivan, deixa o engomadinho aí, o cliente tem sempre razão, mesmo quando esse mesmo cliente manda alguém invadir a sua casa e matar a sua mulher e seus filhos no meio da noite. Por alguns segundos, Marco esqueceu completamente o respeito que tinha pelo subchefe, chegou a se levantar, mas a imagem de Ayla sangrando em seus braços nublou a visão do empresário. Olhou para Ivan, sabia que o amigo o entendia. - Tem certeza de que o senhor Sheng e a Tríade são a mesma coisa? - Tenho, Marcão. Ming usou você para me desafiar, disse que era um tal de papel, ou sei lá o que branco. Disse que roubamos você deles, assim como ele roubou Lis da gente e agora entendo o que ele quis dizer, faz a mesma coisa aqui e lá. - Vou buscar o meu HD e já volto. No final Ethan acabou indo buscar o que o contador precisava, passaram a noite estudando sobre o que Marco tinha arquivado, as operações, os valores, investimentos, mas o que mais se destacou entre todas as operações da Tríade eram os depósitos estratosféricos para contas do Talibã. O líder da organização chinesa estava financiando um dos grupos mais violentos e extremistas do mundo, desde 1994 o Talibã estava no poder no Afeganistão e era responsável por execuções públicas, massacres e atentados genocidas em todo o mundo. - Pablo estava certo, não tem conversa, Grandão, é um mαldito terrorista. Marco não havia ligado as transferências de Shing aquelas empresas ao Talibã, para ele eram apenas investimentos, pensava inclusive que era arriscado, a economia instável do lugar fazia do Afeganistão um péssimo lugar para investir, mas o cliente nunca o ouviu e sua função era apenas aconselhar. Agora entendia os motivos reais e sentiu ainda mais raiva por ter sido usado por tanto tempo para algo tão podre, lembrou do ataque a sua casa, Ayla era israelense e judia, duas coisas que os Talibãs odiavam, pela primeira vez concebeu que tiveram sorte com o resultado daquela noite. Se Ayla fosse levada tudo poderia ter sido muito pior. Estavam certos, as informações que tinham os levariam ao 439, o que ainda não sabiam era que bem mais perto deles outras coisas aconteciam sem que se dessem conta. Dragón foi o responsável por avisar do desaparecimento de Pablo e Lis. O que sabiam só os deixavam ainda mais de mãos amarradas. - Terroristas só respeitam a própria loucura, não há como negociar com essa gente. Ivan sabia que Marco e Ethan estavam certos, mas no momento, a família era a prioridade. Ming era o único que podia dar aquelas respostas e daria, era o fim do acordo, não se aliariam a terroristas, mesmo que isso custasse um alto preço.
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