Desde a morte da Chloe, papai abandonou seus hobbies, ele amava o que fazia, há vários hotéis bem rentáveis que só o são porque meu pai os trouxe de volta a vida.
Agora ele estava com sete hotéis, que ele nem se quer visitava, e por isso concordou com a venda deles, mas para isso me fez prometer cuidar das vendas pessoalmente, eu não entendo nada de administração de hotelaria, mas posso reconhecer uma boa oferta e fazer um bom negócio. Quatro desses hotéis já foram vendidos, agora restam três, todos no Brasil e dois deles ficam em Belo Horizonte, cidade em que passei alguns verões com meu pai, e o outro fica em Camboriú, onde temos um grande resort, pelo menos por enquanto. Eu Mandei a Jackie e o Armand para lá para verificar a situação do hotel. Claro que ele me deve uma, eu saberei cobrar.
Julian e Beck e o Paul vão comigo eles vão aproveitar para curtir as férias até acontecer à venda depois iremos todos curtir praia. Janeiro em Boston é muito frio e as meninas só falam em praia.
A situação dos hotéis em BH não era das melhores, um dos hotéis está em situação crítica, vou ter que investir capital se quiser chamar a atenção da companhia quer compra-los.
Será difícil abrir mão desse hotel em especial, principalmente por ele lembrar tanto a minha família.
Mesmo tendo passando por muitas reformas, o andar ocupado por minha família ainda mantinha algumas características, principalmente as dadas por mim e por Chloe, tudo me lembra de nossa infância aqui.
Após receber os relatórios e verificar o faturamento, eu decidi analisar tudo na minha suíte, chegamos muito cedo e não parei para descansar ainda, Então após um banho e jantar no quarto, eu caí na cama apagando logo em seguida.
Tive mais um pesadelo, nessa noite pareceu mais intenso.
Acordei assustado, suando muito, mesmo com o ar condicionado.
Sentado na cama minhas mãos tremiam, e a voz da Chloe soava na minha mente, olhei no relógio 4 horas da manhã, eu fui até o bar peguei uma dose de uísque, eu não sou de beber, mas precisava me controlar.
A voz dela ecoava dizendo;
— Estava em meus olhos Nick e você não viu!
A imagem do olhar vazio, um cânion, um abismo, a Chloe me olhou assim pelo menos três vezes e eu não entendi, que era um pedido de socorro.
— Desculpa Chloe! Você tinha razão, eu não vi você tentou me avisar e mesmo assim eu não pude te salvar. Eu não cheguei a tempo!
Eu virei o copo, e chorei por elas de novo, e de novo. Sentindo o líquido queimando na minha garganta.
Preparei-me para uma corrida, assim que possível, estava muito cedo.
Mas quando o dia amanheceu, chamei Oscar, meu segurança, calcei um tênis, e desci para uma corrida, esse tipo de exercício sempre me ajudou a pensar melhor.
O hotel fica próximo a lagoa da Pampulha um lugar que me traz paz, Oscar me levou de carro, então fiz um alongamento, liguei meu iPod, selecionei algumas músicas e comecei a correr seguido de perto pelo Oscar.
Na segunda volta talvez, meu tênis desamarrou de novo, revolto me por estar com um tênis com um cadarço tão r**m que insiste em ficar desamarrado.
Paro num banco, e volto a amarrá-lo, e foi aí que ouvi uma estranha conversa.
— Você nunca mais vai colocar a mão em mim, seu desgraçado. Deixa-me em paz!
Ela pareceu falar com uma raiva mortal, fez se um silêncio e logo em seguida em meio a um choro doído, desesperado, e embora um tanto silencioso, ela disse;
— Eu entendi, eu vou voltar, desculpa, mas deixa minha família em paz, por favor!
Nunca fui indiscreto, mas meu instinto me dizia para não sair, e eu fiquei sentado no banco atrás dela separado por uma planta alta, e eu esperei.
— Oi Ana eu estou bem, apenas ansiosa com a prova!
— Eu te amo! Não se esquece disso tá? Estou bem eu juro!
Ela pareceu ter desligado e seu celular tocou, ela atendeu.
— Droga, inferno eu já testou indo, por favor, não faça isto! Ela é só uma criança, eu já estou voltando!
Algo grave estava acontecendo, eu a ouvi chorar, até que algo me impeliu a dar a volta e passar por ela, o olhar de reprovação de Oscar dizia ser um erro, mas mesmo assim eu fui.
Foi quando a vi, ela parecia pequena, cabelos cacheados castanhos, pele que lembrava verão, estava em jeans e camiseta e um colete, ela se levantou e um livro caiu de seu colo, mas ela pareceu não notar.
Uma avenida com tráfego muito intenso estava a nossa frente e ela atravessou como se estivesse andando no parque, eu fechei os olhos, esperando o som de freios e de morte, mas ela chegou ao muro de proteção, eu atravessei correndo sob os protestos de Oscar, e a alcancei, não queria assusta-la. Então chamei;
— Moça? Ei garota? — Ela não me ouviu.
Eu não podia toca-la, então chamei de novo e ela virou se para mim, e como se o mundo se abrisse sob meus pés, eu senti meu coração na boca.
— Hã? — Ela olhou-me, seus olhos castanhos escuros, quase negros, estavam tão vazios, como um abismo, seu olhar me tocou da mesma forma que os da Chloe quando me olhou pouco antes de morrer, era como se os olhos dela me pedisse para olhar lá dentro, como uma vidraça, diante de um curioso. Meu coração gelou, eu precisava pensar e agir rápido.
— Desculpe, eu não quis assustá-la, você poderia me ajudar?
— Quê? Como? Quer dizer, em que posso te ajudar?
— Tudo Bem? Você pode me dizer como chegar ao Hotel Boston? Eu não sou daqui eu saí para correr e me perdi!
— Não, me desculpe não moro aqui, eu só vim para..., Não posso ajudar, sinto muito!
— Talvez possa, se aceitar tomar um sorvete comigo!
"Sorvete Nicholas? seu e******o” — Me bati mentalmente.
— Que? Uh! Sorvete? — Ela me olhou surpresa.
Seja mais original Nick, ou vai perdê-la.
— Se eu te chamar para jantar você aceitaria? Com certeza não, além do mais é um pouco cedo, então acho que sentarmos naquele banco, tomando um sorvete comprado daquele senhor ali, não parece tão assustador certo? Então você aceita né?
Eu disse apontando para um vendedor em um carro próximo.
Ela riu mesmo seu sorriso não alcançando seus lindos olhos, eu senti uma pontada de esperança.
— Bem, Uh! Não sei, acho que sim!
— Perfeito! — Eu relaxei um pouquinho, respirando aliviado.
— Porque eu? Qual a razão disso, eu não entendo!
— Acho que talvez eu possa explicar. Mas primeiro o sorvete, ok?
— Ah! Sim, eu acho!
—Vamos então? — Ofereci minha mão, mas ela não aceitou e ela se encolheu.
Preciso me lembrar de que estou no Brasil, e seja qual for o motivo que a deixou assim, ela não vai baixar a guarda, tenho que ser cuidadoso para não deixá-la escapar.