Sentamos com nossos sorvetes, e ela olhou para mim com os olhos profundamente vazios.
— Então, porque eu? — Ela olhou em volta como se fosse um absurdo alguém nota-la.
— Primeiro, estou cansado de correr, segundo, você é muito bonita e eu desejei sua companhia para um sorvete, que está delicioso por sinal!
—Você não mente muito bem, só para esclarecer, eu não sou nada interessante para alguém como você, e você não gostou do sorvete, tomou apenas uma colherada e fez careta. Então, motivo real?
—Bom ponto, excelente observadora! — Me entreguei surpreso, levantei-me indo a lixeira e joguei fora o horripilante sorvete. — Você acertou a respeito do sorvete, mas errou feio a seu respeito, você é linda e muito interessante, não se engane. — Isso a pegou de surpresa, e ela desviou os olhos.
— Mas você tem razão, o motivo maior não foram esses. Eu vi os seus olhos e o que está escrito neles! — Eu afirmei com medo da sua reação.
— O que poderia estar escrito em meus olhos?
—Essa avenida é bastante movimentada! — Eu desviei o assunto.
— Sim, todos os dias pelo menos um atropelamento acontece ao longo dela!
— Pensei que você não conhecia a cidade! — Indaguei surpreso.
— Não disse que não conhecia, disse que não sou daqui, mas venho para cá algumas vezes, e esse lugar é especial para mim, só isso!
— Pera mim também, e agora mais ainda!
—Penso ter ouvido você dizer que não é daqui também! — Ela devolveu minha fala, com um muito leve sorriso.
Eu ri, ela é esperta.
— Você me pegou, sou americano, estou aqui a trabalho, vinha muito aqui com meu pai, desde criança!
— Percebi, eu conheci alguns americanos, dois na verdade!
— Namorados? — Pega leve Nick! Corrigi-me mentalmente.
— Hã? Não claro! — Ela me olhou como se eu tivesse perguntado se tem agua em Marte.
— Uau! Americanos idiotas! — Deixei escapar e ela riu pela segunda vez.
— Um deles foi namorado da minha irmã, e o outro conheci no trabalho!
— Você tem namorado? — Tentei ir direto para tentar entende-la, um namorado possessivo e violento, explicaria boa parte do problema.
— Hã? Não, e não sei é uma boa área para essa conversa, eu... Uh! Não tenho intenção de..., quer dizer, não estou afim de...
— Ei tudo bem, eu não pensei nisso, eu só tentando entender o que vi nos seus olhos. Não quis ser abusado, desculpe.
— Ah! Então espero que não seja uma cantada i****a de gringo, porque seria uma merda mesmo — avisou mostrando sua irritação pelo que fosse que eu interrompera — Meu dia, para não dizer minha vida, não está bem hoje!
— Talvez eu possa te ajudar!
— Uau! Você tem uma máquina do tempo? – ela disse colocando a mão na boca.
Eu ri, adorei seu senso de humor, isso é bom.
— Não, eu adoraria ter uma, mas elas não existem, momentos ruins não vão embora e não são desfeitos infelizmente!
Eu disse não conseguindo evitar a tristeza nas minhas palavras, e ela pareceu perceber, pois senti um leve relaxamento em seus ombros.
— Então você não pode me ajudar, não tem outro jeito!
Ela disse e seus olhos ficaram vazios e distantes outra vez. Meu coração se doeu por ela.
— Você não me disse seu nome? — Eu disse trazendo-a de volta.
— Acho que você não perguntou!
— Bom ponto de novo, fui indelicado desculpe-me mais uma vez.
— Olá! Eu sou o Nicholas, mas pode me chamar de Nick, É um prazer conhecê-la senhorita? —Eu disse pegando sua a mão e beijei a no dorso. Ela retirou a mão rapidamente.
—Oi! Eu me chamo Nina, e estou decidindo se é um prazer conhecê-lo, senhor Nicholas!
— Brilhante mais uma vez. Então Nina! Eu estou aqui a trabalho e o que a trouxe a Belo Horizonte?
— Uh! Eu vou fazer uma prova amanhã, eu acho!
— Prova?
— Exames de bolsa. Estou tentando uma vaga em uma faculdade aqui!
—Legal! Você estuda o que?
— Uh! Estudo administração, mas tento uma vaga em Analista de Marketing!
— Uau! Excelente escolha, mercado promissor esse!
— É sim, eu acho!
— Você me parece uma pessoa que tem projetos, uma meta a seguir, gosto disso!
— Não sei se ajudou muito, mas se eu conseguir esta bolsa poderia arrumar um emprego, e me mudar pra cá, acho!
— É um bom plano, posso perguntar sua idade?
— Dezoito anos por enquanto, faço dezenove em duas semanas!
— Bom motivo para comemorar então! Eu disse batendo palmas.
— Você é estranho! — Ela riu pela terceira vez e eu vibrei.
— Não tenho muitos motivos para comemorações ultimamente!
— Janta comigo hoje? Por favor! — Eu convidei calmamente, tentando não assustá-la.
— Não acho uma boa ideia, além do mais não trouxe roupas para isso! — Ela apontou para a mochila.
— Não se preocupe, é um jantar informal!
— Não sei, além do mais não conheço você e nem a cidade o suficiente para sair à noite!
Pensa Nick, pensa.
— Concordo, segurança é tudo, mas e se eu mandar um carro até seu hotel, digamos às 18h? Em que hotel você está?
— Não vou entrar em nenhum carro com você ou qualquer outro estranho, pode esquecer!
— Tudo bem, você é bem desconfiada e isso é bom! Faremos assim! — Dei lhe um cartão do hotel. — Estou hospedado aqui, você pode chamar um táxi, lá tem um excelente restaurante, você vai gostar, e também terá total controle sobre a sua chegada e partida, o que acha?
— Você é bem insistente, tudo bem eu vou, a que horas?
— Que tal as sete?
— Você janta cedo assim?
— Não, mas quero ter tempo para conversar com você, sua companhia é agradável e além do mais não falamos sobre seus olhos!
— Em que hotel você está? — Não custa nada tentar né? Pensei rindo da minha audácia.
— Uh! Bem eu...
— Tá não precisa dizer, mas eu gostaria muito de ver você de novo.
— Eu preciso ir, te vejo a noite então, até mais Nick.
— Posso te levar até seu carro?
— Eh! Não eu, vou de ônibus!
— Promete que vou te ver a noite?
— Bom, eu acho, e se você for um… Bom acho que não faz diferença, além do mais estou curiosa a respeito do que meus possa estar escondendo de mim! — Ela riu tímida.
— Eu não acho que eles escondem, eu acho que os ouço gritar.
— Já disse que você é estranho? — Eu ri
Ela é incrível, como alguém pode tentar destruir isso.
— Me empresta o seu celular?
— Hã? Pra que?
— Por favor? — Ela me deu eu anotei meu número, e tirei uma foto minha, meu consciente bufou em reprovação.
— Pronto se eu for serial killer, eles saberão onde me encontrar certo? — Ela riu e saiu, e eu chamei o Oscar.
— Siga-a, vá onde ela for, e interfira se preciso.
— Sim senhor! — Oscar me deu as chaves do carro e eu voltei ao hotel.