Nos três dias que se passaram até a grande cerimônia, Jungkook ia até a casa dos pais para jantar todos os dias, coisa que o rapaz não costumava fazer com tanta frequência assim, mas não havia nada de estranho nisso, já que era raro a família ter a companhia do filho mais velho.
Jungkook, aos poucos e de modo sutil, se aproximava de Yoongi, não como um irmão, mas também não de forma descarada. Ele buscava conversar, saber mais da vida do outro na outra cidade. Contava sobre a sua e quando Yoongi se distraia, nem percebia como sentava-se perto do outro, lhe tocava sem medo e sorria tão largo e sincero, que só despertava e lembrava que não eram estranhos que flertavam quando percebia o brilho no rosto de Jungkook. O mais novo ficava tão bobo vendo como o rosto alheio ficava lindo quando ele se abria para si.
"Não se preocupe", Jungkook dizia quando tentava se afastar e ele o segurava próximo a si. Mas Yoongi se preocupava, mesmo sabendo que o irmão não lhe tocaria de forma ousada, porque era seu corpo e seus sentimentos que lhe deixavam apavorado, a forma fácil como esquecia que aquele homem atraente, tão próximo, era seu irmão mais novo.
Faltando algumas horas para a cerimônia, Yoongi ajeitou sua gravata borboleta e penteou os cabelos como costumava. Ouviu batidas na sua porta.
— Yoonie, não está pronto ainda? É a noiva que deve se atrasar. — zombou.
O mais velho no lugar de cobrir seu pulso com um relógio, pegou a pulseira de significado profundo para si e colocou no pulso. Rumou para a porta, para perguntar o que Jungkook fazia ali, que ele sabia muito bem o caminho para a igreja, porém não deu tempo nem concluir seus pensamentos, ao escancarar a porta e encarar o irmão, ficou sem fala.
Jungkook estava lindo em seu terno preto, com os cabelos penteados para o lado, deixando a testa à mostra. O peito largo, assim como as coxas grossas, impossibilitando que qualquer roupa lhe fosse folgada, marcava bem como seu corpo era delicioso escondido abaixo delas. Se excitou totalmente com o ar maduro e másculo do outro, quase babando, sem conseguir falar qualquer palavra.
— Estou engraçado? — o mais novo fez uma careta, puxando a gravata, o que só deixou a cena mais sexy. — Eu odeio essa coisa.
— N-não, está muito bem em você. — se apressou a dizer.
E foi só isso que disse, porque sua mente tentava lhe dizer que não devia segurá-lo pela gravata e puxá-lo para si, roubando-lhe um beijo.
— Então vamos. — puxou o mais velho pelo pulso. — Hoseok já mandou mil mensagens, você sabe como ele é, não é?
— Sei...
— Então, ele quer falar com você, hyung, então vim te pegar.
Yoongi apenas assentia, enquanto Jungkook falava sobre como Hoseok lhe encheu de mensagens de ontem para hoje, porém o Jeon mais velho estava um pouco alheio a isso. Se sentia tão confuso na presença do irmão, pois tinha se preparado para a sua insistência, mas aquela compreensão e convicção lhe desconcertou completamente. Não sabia como agir perto do mais novo, afinal, Jungkook deixou claro que esperava apenas uma ação sua.
E cada vez era mais difícil se refrear — na verdade, nem sabia se valia à pena. Se sentia tão completo com aquelas conversas singelas com o irmão. Fazia tantos anos que não vivia um momento assim com Jungkook por medo que praticamente esqueceu do quão era bom. Esquecia-se do tom de sua risada, esquecia-se das brincadeiras que costumavam ter, esquecia-se do prazer dos toques inocentes, como um abraço ou afagar de cabelos, e não sabia se queria se privar mais.
— Você está bem, hyung? — quando Yoongi parou de lhe responder, não insistiu, mas agora, quando já chegavam na igreja, ficou preocupado com aquele tratamento de silêncio, principalmente por estarem mais próximos esses dias. — Você ficou calado de repente.
— Estou sim, Jungkookie, apenas me dispersei. Do que falava?
— De como o Hoseok inventou mil motivos loucos para sua noiva não aparecer.
— Ele ainda continua assim? Se lembra como ele ficou louco quando achou que a garota que ele gostava não iria no encontro?
— Sim, ele nos ligou quase chorando e obrigou a gente ir na lanchonete para dar apoio.
— "Eu não me importo com essa richa estranha de vocês, mas quero os dois aqui" — repetiu a fala do Jung e começou a rir. — Eu tive que ir dar uns belos sermões nele, e no fim a garota apenas tinha ficado presa no trânsito e com o telefone descarregado.
— É por isso que ele precisa de você aqui, hyung. Eu não conseguiria ter pulso firme com ele nesses momentos. É bom te ter de volta.
— Eu gosto de estar aqui. E realmente me arrependeria de não ver o Hoseok casar. — olhou para fora pela janela e suspirou pesado. — E também me arrependeria de perder esses momentos com você.
Por não esperar que Yoongi dissesse aqui, o maior sentiu seu coração estremecer, lhe acendendo uma fagulha de esperança. Talvez seu jeito de agir estivesse resultando em algo, se não fosse sobre o irmão cedendo ao que sentiam pelo outro, mas ao menos que fosse uma nova chance de se reaproximarem, sem toda aquela estranheza que os impedia até de conviver.
— É, esses dias foram incríveis, pena que quando o casamento acabar você vai embora de novo. — ele iniciou a fala com um sorriso doce, que logo foi dando espaço a um lamento.
— Somos adultos agora, temos nossas vidas. — tentou confortar o irmão, mas acabou sendo surpreendido por sua resposta.
— Eu largaria tudo que tenho aqui... Na verdade, eu viajo muito por causa da minha profissão. — passou a mão na nuca ao estacionar e abriu mais um sorriso, dessa vez sem jeito, porque quase voltou a ser o de sempre, que conduzia a conversa para um teor mais romântico e não queria regredir agora, assustando o mais velho.
Jungkook agarrou seu celular e abriu a porta do carro saindo.
— É o Hoseok de novo, vamos logo, Yoonie, antes que ele enlouqueça!
Ambos entraram apressados na igreja e logo se depararam com o amigo no altar. Hoseok estava muito bonito, porém já começava a suar e seus olhos corriam por todo o local, mostrando seu nervosismo. Foram para perto dele, e, enquanto o Jeon mais novo tentava uma abordagem mais doce, o mais velho lhe lançou um olhar rígido e seu tom saiu duro, mas era assim que sempre surtia efeito nas paranoias do noivo.
— Jung Hoseok, você acha que está em um filme ou quê? Vocês namoram há uns bons anos. — confessava que não sabia exatamente há quanto. — Você fez o pedido e ela aceitou, por que ela iria desistir segundos antes? Não confia no amor dela? Ah, você tá sofrendo por nada, cara, sabe que o amor nem sempre é fácil? Tem gente que não pode nem ficar com quem ama, isso machuca tanto, mas não dá pra fazer nada, sabe? Porque tudo é uma grande confusão e a vida nos prega peças estranhas, mas você está aqui, no altar, esperando a mulher que ama, deveria estar sorrindo. Você tem uma sorte de fazer inveja, embora não devesse ser. Estar com quem ama é um privilégio, então se acalme, noivas se atrasam. — desabafou, apertando os ombros do rapaz mais alto e, em um vacilo, seus olhos procuraram Jungkook. — Eu aposto que daqui há pouco ela entrará por ali e você vai ter pra sempre na cabeça a imagem da mulher mais linda que já viu, com o rosto feliz por estar unindo a vida com a sua. — desviou o olhar desajeitadamente e voltou ao seu amigo, dessa vez tentando lhe passar mais confiança.
— Eu sei, hyung, mas você sabe como às vezes minha mente surta. — dá uma respirada funda, tomando um pouco daquela confiança de seu hyung para si.
— Eu sei, Hoseok, mas você é um homem incrível e sua futura esposa sabe disso. Confie no amor que vocês têm e pare de suar como um porco e dar piti. A estrela dos casamentos são as noivas. — fala a última parte cochichando, como se fosse um segredo.
Hoseok amava tanto Yoongi. Sentiu tanta falta dessa forma ácida que o mais velho lhe colocava nos prumos. Sua tendência para drama às vezes era exagerada e tudo que precisava era desse toque de realidade que só Yoongi lhe dava, então abriu o seu belo sorriso de coração e abraçou o mais baixo.
— Me solte, Hoseok, não faça cena. — falava, dando tapinhas no maior.
— É meu casamento, hyung, deixe-me te abraçar, seu baixinho azedo. Eu senti a sua falta.
E como sentiu. Não compreendeu a mudança de comportamento de Yoongi — no início, com o tempo, teve uma leve suspeita sobre a motivação da mudança comportamental, pois, depois do distanciamento do mais velho do grupo, compreendeu algumas entrelinhas e, bem, Hoseok não era completamente i****a pra não entender o discurso de encorajamento do amigo hoje. Na verdade, muitas vezes era observador demais, e quando o Jeon mais velho se foi, Hoseok foi o amparo de Jungkook e, nas poucas vezes que cuidou de suas bebedeiras, escutou coisas.
— Eu já disse que eu também, agora me solte e guarde esse amor todo para a sua noiva. — se afastou, alisando o seu terno.
— Eu vou, hyung. Obrigado pelas palavras e quero você saiba que o amor não é um privilégio, mas sim uma dádiva, e às vezes não compreendemos ou lutamos contra em vez de aceitá-lo. — piscou para o mais velho.
— O quê?
— Nada, hyung. — viu um burburinho na porta da igreja e escutou um "a noiva está aqui". — Vá para o seu lugar, e obrigado por me ajudar.
Viu Jungkook cochichar algo para o Jung e lhe dar um abraço antes de puxá-lo pelo braço para o lugar que estava reservado para ambos, porém Yoongi se sentia no automático. Não era burro e nem se fazia. O que Hoseok lhe disse foi tão claro que não queria aceitar, ou melhor, não acreditava que, ao alguém descobrir o seu segredo, não o crucificaria como um doente pervertido.
Será que Jungkook tinha contado a Hoseok?
Enquanto a noiva fazia sua grande entrada, Yoongi apenas olhava para o moreno mais novo ao seu lado, que se mantinha totalmente alheio a sua especulação. Olhou mais uma vez para o altar, mas não para Hoseok e seus olhos marejados pela emoção, mas sim para a cruz, o símbolo de Deus, e mais uma vez pediu uma luz para tomar uma decisão, e o que recebeu em troca foram as palavras do padre.
— Estamos aqui para celebrar o amor desse casal. E no livro um de Coríntios 13:1-3, Deus, através de seu filho, Jesus, fala da importância deste sentimento tão poderoso. A passagem diz: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.(...)"
Yoongi sentiu as lágrimas grossas deixarem os seus olhos e discretamente buscou a mão do irmão, o amor. Não entendia as linhas tortas com que Deus escrevia o seu destino, mas correr do amor que sentia por Jungkook, tentar ser bom, ser justo, ser fiel ou fazer o certo de nada lhe trouxe proveito. Realmente sentia-se um objeto que agia de acordo com uma função — que no caso era manter-se distante de Jungkook. Não tinha um propósito real além daquele, e, por mais que houvesse fé e intuito de fazer o certo, não se sentia vivo, pois era seco, seco de amor.
Ao ver que Yoongi chorava, e sem saber como deveria interpretar aquele toque, Jungkook paralisou. Apenas teve tempo suficiente para organizar suas prioridades, e estas eram bem claras agora: Consolar seu irmão. Na verdade, odiava pensar em Yoongi como seu irmão, era algo que só precisava encenar em público. Odiava usar o termo que os afastava e impedia de assumirem os reais sentimentos que tinham um pelo outro.
De forma gentil, passou o braço por cima dos ombros do mais velho e recebeu sua cabeça em seu próprio ombro. Qualquer um que visse não acharia incomum que um irmão acalentasse o choro emocionado do outro, então, até o fim da cerimônia, o manteve ali, e foi quando a mesma chegou ao final que tiveram que levantar para seguir os noivos na chuva de arroz que sentiu a falta que o corpo lhe fazia.
Bastou Hoseok e sua — agora — esposa entrarem no carro rumo à recepção da festa que Jungkook afastou Yoongi dos outros e o encarou, preocupado.
— Você está bem?
— Estou... e com vergonha. — riu tímido. — Eu chorei quase a cerimônia toda. Obrigado por me acalmar.
— Eu só te abracei, Yoonie. — passou os dedos pelas bochechas, limpando as marcas das lágrimas.
— Eu sei, mas isso me acalmou.
E, assim como o toque em sua mão, essas palavras surpreenderam o mais novo e lhe trouxeram uma grande inquietação que não podia ser calada.
— Você está me dando sinais confusos, Yoonie, não faça isso. Eu até gosto, mas depois é frustrante. — ah, como se segurou para não beijar aquele rosto rosado depois de tanto choro. Tinha um ar tão adorável que era tentador.
— Jungkookie, me dê mais um tempinho, por favor. Hoje é o dia do Hoseok, podemos falar sobre nós quando acabar, tudo bem assim?
— Eu já esperei tanto tempo por isso, como se fossem milênios. Acredita em vida após a morte, Yoonie? — recebeu um olhar confuso. — Às vezes penso que estou sendo castigado por algo muito r**m que fiz na vida passada.
E mesmo que o mais velho dos irmãos Jeon nunca tivesse parado para pensar em vidas passadas e se acreditava ou não na sua existência, ele compreendeu o que Jungkook dizia de uma forma assustadora, porque às vezes era como se tivesse esperado tempo demais para finalmente estar junto à ele e não queria mais esperar, porém, como já tinha dito, isso era assunto para depois. E terem nascido como irmãos, de fato, parecia mesmo um maldito karma.
— Jungkookie, vamos à festa. — se limitou a dizer.
Não era uma desculpa como das outras vezes, não queria fugir mais. Só que realmente. Não era o momento deles, era o dia de Hoseok, e para quem já esperou tanto, algumas horas não seriam o fim do mundo.
Sentiu um grande peso deixar as suas costas. Tinha tomado uma decisão, finalmente. E agora estava mais leve para comemorar o dia do amigo. E assim o fez. Conversou com alguns antigos colegas de escola, relembrando momentos engraçados e constrangedores, mas de quem mais sentiu falta nesses anos foi de Jungkook, por isso passou um tempo com o mesmo e até com Hoseok, quando este podia fugir das suas funções de anfitrião.
Já Jungkook não entendia toda aquela mudança do mais velho. Yoongi ainda estava extremamente receoso no carro, com certeza mais receptivo que no primeiro encontro no jantar, mas ainda não totalmente entregue como agora. Ele lhe tocava como antigamente e, como ressaltou para ele, tinha medo daquelas mensagens dúbias, pois seu coração, completamente t**o por qualquer ação do menor, batia de forma errante e esperançosa, mas, como pedido, iria dar o tempo dele.
Por isso tentou aproveitar a festa, encontrou alguns velhos amigos e até alguns atuais, afinal como não tinha deixado Busan, ainda tinha alguns bons laços na cidade.
— Jungkook? — escutou a voz de Yugyeom, um ex seu. — Não vai apresentar o seu acompanhante?
Fala em um tom sugestivo, olhando para Yoongi e também chamando sua atenção. Afinal, o Kim já tinha escutado sobre a história de um irmão, mas nunca soube suas características físicas ou o tinha visto. E, bem, o mais novo ainda tinha grandes esperanças de reatar com o Jeon, e Yoongi, que lhe pareceu uma ameaça à sua pretensão, era um tanto que diferente de Jungkook para que Yugyeom o associasse como o irmão distante.
— Não acho que seja de sua conta, Yugyeom. — não queria chamar atenção, mas também não queria que o Kim fizesse alguma cena com Yoongi. Não gostava de expor os seus ex's ou deixar o menor pensar que qualquer outro podia tomar o seu lugar. — Tenho certeza que o Yoongi não está interessado em lhe conhecer. — falou mais rude que o normal, porém com o Kim não existia outra linguagem.
Tiveram um caso de pouco mais de dois meses e este já tinha sido findando há quase um ano. Porém o Kim não entendia, ou não queria entender, quando o Jeon dizia que já tinha alguém no coração e não podia dar a ele um amor de verdade.
— O Yoongi pode falar se quer me conhecer ou não, não é, Yoongi? — falou diretamente com o Jeon mais velho, que apenas olhava a cena calado.
— Acho que já sabemos o suficiente. Eu sou o Yoongi, e você... Yugyeom? Se me dão licença, eu vou pegar mais champanhe.
Sem dar tempo Yugyeom ou Jungkook dizerem qualquer coisa, o Jeon partiu com sua identidade sem ser revelada para aquele estranho inconveniente. Parecia tão óbvio o interesse daquele homem em Jungkook e, levando em conta o que havia descoberto de seu irmão recentemente, poderia até mesmo ser um ex. E por mais bobo que fosse, não queria ser apresentado como irmão, porque isso o faria deixar de ser uma ameaça e aquele maldito Yugyeom se jogaria ainda mais em cima de Jungkook.
Yoongi sentou-se em uma das mesas que ficavam mais ao fundo do grande salão e ficou bebericando o espumante, de cara fechada, amaldiçoando Jungkook por tocar outros, como se ele mesmo não agisse igual. Mas isso o tirava do sério de uma forma egoísta.
— Hm, essa cara... Eu até entendo, o Yugyeom sabe ser bem irritante quando se sente ameaçado. — era Hoseok. — Ele e Jungkook nem saíram por tanto tempo assim, na verdade, nunca dura muito. Acho que sabemos porque...
O amigo puxou a cadeira e sentou-se junto a si. Novamente havia sido bem explícito, então não tinha para que enrolar. Na verdade, queria tirar aquilo a limpo, entender como ele não podia estar estarrecido com um incesto entre seus melhores amigos.
— Como soube?
— Algumas coisinhas aqui e ali e um Jungkook bêbado, completamente inconsolável por te perder. — revelou.
— Como pode agir tão naturalmente? — abaixou a cabeça, sentindo vergonha.
Era estranho estar falando sobre aquilo com alguém pela primeira vez e era estranho como o amigo parecia tão bem com aquilo quando nem ele mesmo conseguia.
— Eu não estou aqui para julgar o amor de ninguém, Yoongi. Você e o Jungkook sempre foram ótimos amigos para mim, eu não podia negar apoio aos dois quando precisassem.
— Tem algo de errado com nós dois, era o que você devia dizer, Hoseok. — sentiu os olhos arderem.
Esperava cara de nojo, gritos, xingamentos, mas jamais compreensão, o que lhe dava ainda mais vontade de chorar e abria um caos em sua cabeça sobre tudo que fizera, como abrira mão de Jungkook, como teve medo dos olhares julgadores, da ira divina, mas, principalmente, de si próprio.
— Eu não acho que tem nada de errado com vocês, sabe. A sociedade está sempre mudando. Houve um tempo que incesto era comum e de repente não era mais. As convicções mudam tão facilmente. — falou com tranquilidade. — E mais, Yoongi, eu pude testemunhar a dor de vocês. Mesmo que você ou Jungkook nunca tivesse chegado a mim e realmente contado o que sentiam, eu notei.
— Somos óbvios?
— Não! Longe disso. Você realmente foi bem incisivo e bom ator nessa sua busca por distância, mas eu, como amigo dos dois, percebi. — tomou um gole do espumante que tinha em mãos. — Seus olhos o procuravam, Yoongi, por mais que seu corpo o mantivesse distante. Quando vocês estavam na presença um do outro, seus olhos mudavam. Refletiam culpa, medo, mas tanto amor.
— Eu ainda tenho medo, Hoseok. — olhou para Jungkook que falava com o garoto Kim, porém de tempo em tempo olhava para si. — Eu tenho medo do que falarão de nós, de como julgarão nosso amor como sujo ou mero desejo e, por Deus, nunca foi, nunca houve escolha, pra falar a verdade, nunca o amei como irmão e amarguei essa verdade por anos, tentei sufocá-la, mas só me tornei um miserável que sofre ao tentar esconder o amor que toma cada pedacinho de sua alma e corpo.
— Eu sei, Yoongi, eu vejo a sua dor. E mais, eu vivenciei a dor de Jungkook. Ele nunca citou seu nome sóbrio, mas falava de sua paixão proibida. Eu vi aquele garoto tentar mil vezes ter uma relação e seguir em frente, mas sempre voltava aos prantos por saudades de você e imagino que você também passou por isso em Daegu, não? — Yoongi assentiu.
— Eu o amo tanto, Hoseok...
— Então lute por ele, por seu amor. Não se condene a uma vida miserável por moral mundana, amigo.
— Se todos pensassem como você...
— Fodam-se todos, Yoongi. Lute, ame, seja feliz, amigo, e faça o meu pequeno Jungkook feliz também. — segurou a mão do menor e olhou pro seu rosto triste, assim como viu tantas vezes o de Jungkook. — E se não tem coragem, faça como antigamente; fuja. Mas fuja com ele. Viva o seu amor sem ninguém saber do parentesco de vocês. Condene-se a viver uma vida feliz com quem você ama, porque, Yoongi, se você teme o Inferno, creio que você já esteja vivendo em um. Então o que há para temer? Se sentir um pecador por um sentimento que não foi sua escolha? — falou como se aquilo que fosse a real loucura da situação. — É burrice tentar mudar o imutável, hyung, e você não é burro.
— Eu te amo, Hoseok. O que fiz na minha vida passada para te ter? — sorriu entre as lágrimas.
— Eu não sei, talvez esteja aqui para isto: juntar o meu casal preferido. — deu um sorriso radiante. — Agora vá, esta festa está quase no fim. Salve Jungkook do Yugyeom e, por Deus, se entendam e sejam felizes. Vocês já sofreram demais.
No momento, todo aquele apoio enchera seu corpo de euforia e coragem, então o menor levantou-se e, para surpresa de Hoseok, o puxou para um abraço, como se no altar não tivesse feito aquela cena em desagrado pelo mesmo ato.
— Obrigado, Hoseok. Talvez você nunca entenda de verdade o quanto suas palavras de hoje me fizeram bem. Eu vivi me sentindo uma aberração por causa desse amor. É a primeira vez que alguém, sem nenhum interesse nisso tudo, me diz que está tudo bem, que não há problema algum em amar... ele.
Os dedos compridos de Hoseok passearam pelos cabelos de Yoongi e do fundo de sua alma apenas desejava que aqueles dois fossem felizes. Era quase como uma coceira em seu interior; ele sentia que precisava apoiar e unir o casal, que, se o mundo inteiro os condenasse, ele os apararia.
— Agora eu vou dizer isso a ele.
Yoongi soltou o amigo do abraço apertado e andou devagar até Jungkook. Tinha algo em mente e precisaria encenar tão bem quanto andava fazendo a vida inteira.
— Jungkookie... — fingiu cambalear levemente na direção do irmão e logo recebeu seus braços como apoio, o que deixou seu acompanhante indesejado irritado. — E-eu não me sinto muito bem. Me leve para casa.
— O que houve, Yoonie? — o apertou contra si, lhe dando sustento, sem conseguir disfarçar a preocupação exagerada.
— Só me leva para casa, por favor. Eu já falei com o Hoseok... — acrescentou, a fim de evitar mais empecilhos como despedidas.
— Tudo bem.
O ego de Yoongi fora completamente massageado quando o mais novo se encaminhou para a saída consigo, sem nem despedir-se do Kim. Jungkook o ignorara por completo assim que havia aparecido com sua falta embriaguez. Sua cabeça apenas pensava em cuidar de seu amado e nada mais.
Então quando sentou-se no banco do motorista e viu Yoongi rir ao seu lado, o olhou confuso, mas o conhecia bem demais, o que lhe deu firmeza para fazer a acusação:
— Por céus, você estava fingindo.
E pronto, o mais velho caiu na gargalhada e até passou os dedos nos olhos, que lacrimejavam.
— O que deu em você? Eu fiquei preocupado.
— Desculpe... — curvou-se sobre ele, ali mesmo, protegido pelos vidros escuros, o que lhe deixou ousado o suficiente para passar os dedos por sua orelha. — Mas eu preciso conversar com você à sós. Me leva para sua casa?
— Y-Yoongi... — o encarou confuso, talvez porque tivesse medo que sua vontade tivesse enganando seu coração.
Então, como quem afirma que não era isso, mesmo sem poder ler seus pensamentos, Yoongi solta um doce: "Mas antes...", e agarra sua nuca e o choque de seus lábios tira do rapaz qualquer senso. Era como se nunca tivesse acontecido antes, como se cada beijo raro que pudesse desfrutar daqueles lábios proibidos fosse o primeiro, porque a emoção que lhe causava era sempre intensa. Sentia-se tão carregado de paixão, tão fora de si, como se estivesse sendo desligado de sua vida, tendo a certeza que, se ter Yoongi lhe custaria tudo, daria até mesmo sua alma. A daria até por segundos daquilo.
Chupou os lábios pequenos como os seus e enroscou a língua. Espantou-se e excitou-se com sua memória trazendo o cheiro daquelas belas flores justo naquele momento. Yoongi mordeu seu lábio e o encarou, finalizando aquele beijo com muito custo.
— Vamos logo, não precisamos esperar mais mil anos. — brincou com o motorista, lhe incentivando a pisar fundo.
O Jeon mais velho olhou para o lado como se não tivesse feito nada, entretanto era apenas mais um jogo para brincar com a ansiedade de Jungkook, assim como este fez consigo nos jantares junto aos pais. Pois, por dentro, Yoongi se sentia tão eufórico que sentia vontade de gritar e repetir aquele beijo milhões de vezes. Não mentiria, ainda sentia uma pequena pontada de culpa por beijar o irmão, aquele detalhe moral ainda era incômodo, entretanto, nada que o fizesse se arrepender, pois toda e qualquer dúvida estava sendo completamente esmagada pela sensação de bem estar.
Era um pertencimento inegável, e agora, depois de tanto lutar contra, aceitava isso. Imutável como o ato da passagem de tempo e Yoongi sentiu-se um t**o esse tempo todo em querer ir contra a correnteza, mas finalmente cansou-se de bater de frente com a sua felicidade. Não tinha escolha, pois não amar Jungkook nunca fora uma opção que estava a sua disposição, mas agora escolheria ele. Escolheria ficar em seus braços.
Já Jungkook se dividia entre prestar atenção na estrada e olhar para o reflexo animado de Yoongi na janela. Temia estar sendo envolto em um jogo, apesar que, se assim o fosse, não pararia ou hesitaria em tomar Yoongi como seu. Para o inferno as motivações, para o inferno se fosse apenas uma migalha; era um faminto e apenas uma noite com ele seria um banquete.
No entanto, queria que fosse Yoongi finalmente aceitando que era seu, que não tinham culpa ou escolha. Então enchia-se de pavor e esperança, pois um único beijo lhe atormentou por anos e ter o irmão de forma mais profunda poderia ser a sua destruição, mas, como um masoquista, ainda ansiava por aquilo tão fortemente que qualquer outro que estivesse de fora o chamaria de insano.
Entretanto, sabia também que seria uma crítica vaga, pois ninguém mais além de Yoongi entendia a profundidade daquele amor. Não entendiam como um simples toque da pessoa amada os destroem e fortalecem ao mesmo tempo. Pois escolher o amor para aquele casal nunca foi uma decisão fácil, sempre houve um preço que no fim era pago com prazer.
— Não se preocupe, Jungkook. — levou a mão até a coxa farta do maior. — Você vai gostar do que eu tenho pra falar com você.
— Eu não temo que não vá gostar, amor. — cobriu a mão do menor com a sua, afagando a pele tão desejada e depois a levando até o seus lábios em um carinho singelo. — Eu temo o futuro.
E assim, Jungkook prosseguiu rumo a sua casa. Ambos os corações ansiosos para dar também um rumo a sua velha história de amor proibido, tão antiga que nem mesmo os dois podiam imaginar, mas ainda sentiam as marcas das vagas lembranças pesando em seus corações. Afinal, ambos tinham, gravado em suas almas, a inquietação de terminar sua história interrompida. O amor que m*l iniciou-se e tragicamente foi interrompido para ter sua conclusão em outra vida, assim como o lobo desesperado do lorde Jeon suplicara em sua dor ao ter seu amado sem vida em seus braços.