Parte II — Marcas do passado

4706 Words
Então, a necessidade crescente daquilo, do proibido, na manhã seguinte, foi mil vezes mais intensa. Era como se a alma de ambos gritassem que se pertenciam, que faziam parte da essência um do outro, um vínculo inquebrável, por mais que aquele amor fosse rechaçado pelo corpo e consciência ingênua daquela vida. A alma lembrava-se e rebelava-se, através de uma dor profunda, contra aquele afastamento proposital. E foi assim que, pelo o lado do mais velho, indo contra si próprio, e pelo lado do mais novo, forçando-se a não fazer nada, que Yoongi partiu para Daegu rumo a um novo começo e, esperançosamente, a um novo amor que talvez o fizesse esquecer aquele pelo irmão. Porém, como as palavras sábias de Jungkook proclamaram, foi em vão. Anos se passaram, eram adultos, praticamente desconhecidos, pois m*l se falavam. Yoongi, com a sua busca incansável pelo esquecimento, evitava Busan a todo custo. Se nos últimos cinco anos tivesse voltado para a casa dos pais umas cinco vezes era muito. Já Jungkook, este tentava seguir, nem esquecer ou lembrar, apenas seguir. Compreendia que aquilo que sentia pelo irmão não era passageiro, mas não podia forçá-lo a ficar consigo, a enfrentar as consequências e pagar o preço pedido para viver aquele amor proibido. Anos de distância tinham acabado com o seu receio moral que, apesar de não ser tão forte quanto o de Yoongi, ainda existia em si, o corroendo de culpa por amar quem não devia amar. Porém a dor da distância o maltratava e, por mais que dissessem que tocar no irmão para o inferno o condenaria, sorria daquela sátira, pois inferno era não tê-lo, era o queimor em seu peito ao lembrar daquele único beijo, do seu cheiro, do seu rosto ou simplesmente do seu nome. Tudo estava gravado em sua memória e alma. Amar Yoongi era inesquecível, imensurável e tão inevitável que repudiava a culpa por tal ato. Nunca escolheram se amar daquela forma, nunca! Tudo foi tão gradativo, como se fossem predestinados, almas gêmeas desafortunadas pelo laço genético que os uniam, mas que não podiam, conseguiam ou escolhiam se amar de forma intensa e moralmente errada. Então como pagar por algo que estava além de sua capacidade de escolha? E sempre que se perdia nesses pensamentos, Jungkook desejava que Yoongi pensasse o mesmo ou que um dia chegasse à mesma conclusão que a sua: que o encontrasse e acabasse com aquela distância que fazia os seus dias miseráveis, com o seu calor de um sol, derretesse o período de inverno de sua alma, o trouxesse a vida. Pois se amavam e não podiam mudar o que sentiam, então para que lutar contra? A chance que Jungkook tanto esperava estava chegando, pois, há alguns meses, um convite chegara pelos correios. Por alguns segundos, encarou o convite, intrigado. A caligrafia impressa era fina e dourada, tinha e estava destinada a si: "Para meu melhor amigo, Jeon Jungkook". Assim que o abriu e leu o conteúdo, ligou para Hoseok. Não o via com frequência, mas ainda se encontravam para beber juntos e pôr o papo em dia. Não acreditou que seu amigo iria casar-se e, além de lhe parabenizar, ficou sabendo que um convite igual aquele que tinha em mãos estava a caminho de Daegu junto a uma carta de exigência. Hoseok fazia questão de ter seus dois melhores amigos em seu casamento. Os rapazes se conheceram na escola, quando Yoongi e Jungkook não achavam estranhos os seus sentimentos, aquela vontade desmedida em estar juntos, os afagos nos cabelos e sorrisos doces. Nem Hoseok achava que havia nada de estranho naquilo — admirava o cuidado que os irmãos tinham um com o outro. Os três nutriram uma amizade forte. Iam aos seus lugares favoritos e matavam um bom tempo na casa do outro, jogando. Hoseok adorava o jeito responsável do mais velho dos Jeon, os conselhos que lhe dava, então sempre desabafava com o mesmo. Gostava de brincar com Jungkook, ir às lanchonetes e dividir seus gostos musicais semelhantes. Mesmo que parecessem tão distintos, na realidade estavam sempre juntos, porque os irmãos Jeon estavam sempre junto ao outro. Por isso, quando Yoongi também teve acesso ao convite e a carta de seu velho amigo lhe pedindo para que comparecesse à cerimônia, não pôde rejeitar. Nada podia dar errado só porque passaria alguns dias em Busan. Ao menos ficaria uns dias com seus pais. Sentia falta deles e Jungkook já não morava mais com eles. Tentava se convencer disso, enquanto o trem para Busan corria, velozmente, o deixando cada quilômetro mais apreensivo. Do mesmo modo, Jungkook sentia-se a sua espera. Era tão raro ter Yoongi em casa, ainda mais passando tantas noites. Talvez fosse uma excelente oportunidade para deixar de ser passivo àquela situação e tentar mostrar ao irmão que o amor entre eles podia ser algo mais que apenas um pecado cristão. Não aguentava mais apenas sonhar com aquele beijo e com a confirmação de que não estava sozinho naquilo. Queria senti-lo mais uma vez, queria novamente unir suas vidas que foram separadas sem a real vontade de nenhum deles. E quando o trem finalmente chegou a estação de Busan, Yoongi sentiu o ar pesar e o medo se alastrar por todo o seu corpo. A distância não tinha melhorado nada, namorados avulsos muito menos. Tudo dentro de si ainda gritava em ânsia por aquele que não podia tocar. Temia o ver, temia ser fraco mais uma vez, principalmente porque sabia que os toques dele eram as únicas coisas que poderiam findar a constante sensação de vazio. — Yoongi hyung? — escutou a voz que lhe chamava e se deparou com o ruivo sorridente de braços abertos. — Será que um dia você irá crescer? — brincou com o mais velho, que resmungou algum palavrão típico. — Acho que os anos longe fizeram você esquecer o respeito para com os mais velhos. — deu um tapinha no ombro do amigo e depois o abraçou. Sentia saudades de Hoseok. Se lembrava que no início ficou com uma impressão r**m do Jung, talvez por ciúmes de Jungkook, já que os dois mais novos sempre se deram bem quase instantaneamente. Porém, depois, percebeu que o garoto de sorriso aberto era apenas amigável com todos, além de um amigo fiel. — Acho que posso "desrespeitar" — dramático, fez sinal de aspas. — o meu hyung um pouco depois dele me deixar praticamente duas horas plantando aqui. — resmunga. — Você disse que pegaria o trem das oito horas, Yoongi. — Desculpe, saeng, você sabe como fico imerso em minhas produções... — E mais uma vez dormiu em seu estúdio? — completou e viu o mais velho assentir. — Você sabe que isso não é saudável, não é? Olha essas olheiras. — Eu vou ficar bem, apenas me leve para casa que uma boa soneca me fará novo. Desconversou, afinal, toda essa história de produção era uma rasa desculpa. Não dormiu porque imaginou-se estar de frente de Jungkook e isto o deixou ansioso. Não pegou o trem mais cedo, porque simplesmente travou na estação e praticamente desistiu de vir ao casamento. Entretanto amava o amigo e sabia que, sem uma explicação boa, o coração sensível de Hoseok se magoaria, e já bastava a mágoa que deixou no coração do irmão há cinco anos atrás. — Certo, certo. Vamos. Imerso nas conversas sobre o casamento e sobre a vida pessoal de Yoongi, os dois amigos nem sentiram o tempo passar e, quando deram por si, estavam na frente da casa dos Jeon. Os rapazes entraram juntos e, após receber um abraço apertado dos pais, Yoongi foi para o quarto com seu amigo para colocar o papo em dia. Estar em sua antiga casa e com um amigo de longa data o trazia uma nostalgia deliciosa. Há muito tempo não tinha uma tarde agradável como aquela, mas, como era de se esperar, o exausto Yoongi, que m*l pregara os olhos na noite anterior, adormeceu no meio da conversa. Hoseok riu e o cobriu com um lençol para ao menos protegê-lo do frio. Imaginava o quão descuidada era a vida que o mais velho devia levar longe de Busan. Ele nem lhe lembrava mais aquele garoto responsável de antes, negligenciando até mesmo seu sono. Se despediu dos pais de seus melhores amigos, avisando-os sobre o filho adormecido. Ambos riram e Hoseok se foi. A tarde acabou muito rápido, mas dentro dos sonhos de Yoongi, onde o tempo corria diferente, pareceram-se longos dias, mas na realidade foi apenas tempo suficiente para um convidado chegar. O mais novo dos Jeon entrou na casa quando o sol já estava se pondo. Não era mais aquele garoto que perseguia o irmão mais velho com admiração; era um homem feito e que atraía muita atenção para si. Assim que entrou na casa dos pais, seus olhos vasculharam pelo irmão mais velho. Abraçou seus progenitores e, sem mais enrolação, perguntou: — Achei que o Yoonie estaria por aqui. — Ah, por isso mudou de ideia sobre o convite para jantar, não é? Seus velhos estão aqui todos os dias, mas seu irmão... Jungkook riu, forçado e, no entanto, aliviado por seus pais realmente não enxergarem nas entrelinhas. — Ele chegou cansado e pegou no sono. — contaram. — Vá chamá-lo, o jantar está quase pronto, mesmo. — Okay. Jungkook foi até o quarto que sempre fora de Yoongi e abriu a porta com cuidado. O viu deitado em sua cama com o lençol quase caindo. Dormia pesado e ainda assim tinha uma expressão bonita em seu rosto fofo. Aproximou-se a passos lentos, não queria acordá-lo; poderia apreciá-lo melhor sem aquele costumeiro terror que Yoongi tinha nos olhos ao lhe ver, antes de desviar, o evitando. Sentou-se na beirada da cama e afagou-lhe os cabelos, deslizou os dedos pela bochecha gordinha e sorriu só por estar na presença daquele que amava. Jungkook abaixou-se um pouco, encostando o nariz nos cabelos escuros do rapaz adormeci e inalou seu cheiro. Azaleias. Agora conhecia bem o cheiro que sempre sentia em Yoongi, porém era apenas quando tal fragrância exalava da pele alheia que lhe era tão irresistível. Sentia que podia passar horas e horas apenas sentindo o aroma, tocando os cabelos do menor, velando o seu sono sereno, pois aquele amor era muito mais abrangente que um simples desejo ardente. E o passar dos anos fora apenas mais uma prova cabal de que tudo o que sentia e sente pelo irmão não era uma loucura adolescente. Ainda sentia a sua pele queimar ao tocar-lhe a face e nem o toque mais intenso com outro lhe fez ter a mesma sensação que esse singelo toque. E naquele momento, revivendo aquela sensação que só o irmão lhe trazia, o Jeon mais novo reafirmou a sua convicção; não queria outro. Errado ou não, era só ele, então lutaria, o faria enxergar. — Yoonie...? — sussurrou, alisando as bochechas e vendo o bico fofo do menor e sua voz rouca resmungando coisas incoerentes. — Amor, acorde. — Não... — ainda sonolento, empurrou a mão desconhecida que tentava acordá-lo e se enrolou mais no lençol. — Aish... — sorriu aberto ao ver os mesmos antigos costumes no irmão. — Você continua o mesmo dorminhoco. Puxou o lençol de vez e viu o menor se encolher, contrariado. Jungkook levou suas mãos grandes até a cintura esguia, começando a fazer cócegas e, como antes, Yoongi começou espernear e sorrir com a investida do irmão e logo seus olhos gateados se abriram de vez. — Bem-vindo de volta a casa, irmão. — Jungkook? — tentou se afastar do toques daquelas mãos, que pareciam maiores, mas o mais novo as manteve ali, assim como o seu corpo. — Por favor, não fuja. Eu vim em paz. — mesmo contrariado, foi soltando o corpo alheio. A maturidade o fez mais paciente. O que aconteceu no passado e naquele mesmo quarto foi uma experiência para Jungkook saber que se pressionar o irmão demais apenas o faria fugir. Então, pelo menos por aquela noite, não falaria daquele amor. — Como sabia que estava aqui? Analisava Jungkook como um faminto e realmente, depois de tanto tempo distante, era um. Seus olhos ávidos percorriam cada centímetro do irmão. Reparou em como seu corpo estava tão bem desenvolvido. Jungkook já era maior que si, porém sua massa parecia ter duplicado e seus músculos firmes ficavam bem evidentes naquelas camisas brancas básicas que o mais novo sempre gostou de usar. Olhou para cima e encontrou o fim de um desenho, uma tatuagem, mas focou no rosto muito mais maduro e com maçãs proeminentes, além do maxilar marcado e viril, porém a expressão gentil era do garoto que sempre conheceu. — Tatuagem, cabelos grandes... Jungkook o encarou com um sorriso sugestivo e acabou deixando um flerte escapar. — O quê? Gostou? Na verdade, Yoongi tinha amado. O rapaz estava extremamente sexy com seu novo estilo e isso só era mais um motivo para não o encarar tanto ou voltar a comentar sobre isso, porque sabia que não ia poder disfarçar o desejo em seu olhar. Seu corpo quase tremia só de se imaginar entre aqueles braços fortes e tatuados, que quase não lembravam aquele Jungkook de antes. — Você está bem, não é mais aquele garotinho... — Eu não sou desde que foi embora. — riu. — Mas você sempre me evita quando vem na cidade, né? — retrucou. — Parece que fugir não resultou bem e eu ainda mexo com você. Claro que aquela fala deixou o Jeon mais velho desconcertado, mas ele tentou encenar o máximo que podia. Revirou seus olhos e levantou-se da cama. — Eu estou faminto. — desconversou, embora estivesse fugindo de uma situação complicada para cair em outra. Era sempre assim quando tinha Jungkook por perto. Fingir que não derretia na sua presença era extremamente exaustivo. Sem insistir, Jungkook o seguiu para fora do quarto. E assim que sentou-se na mesa, com seus pais e irmão, Yoongi sentiu-se voltar no tempo e isso não era algo exatamente bom, porque sua nostalgia era sobre o desconforto de estar jantando com Jungkook tendo seus pais à mesa, já que eram nesses momentos que Jungkook se aproveitava para tocá-lo, e nem eram toques maliciosos, apenas sua mão pousando em seus ombro quando comentava algo engraçado ou um afago no topo de sua cabeça para zoar sua altura, afinal, mesmo sendo o mais velho, Yoongi era bons centímetros menor que o outro. Isso sempre fazia todos rirem, sem perceberem como se esforçava para não corar sempre que sentia o calor das mãos do irmão em seu corpo. — É tão bom ter a família junta assim. Primeiro foi o Yoongi, que criou asas, e depois meu bebê... — Mãe, eu não sou um bebê. — Jungkook riu, sem jeito. — É, não é, mesmo. Você já está até parecido com seu irmão mais velho, namorador. — riu com certa malícia. Jungkook sentiu seu sangue gelar. Não queria que Yoongi soubesse dos outros caras com quem saía, até porque não conseguia levá-los a sério. Eram só pessoas com quem tentava dar certo e no fim desistia por causa da presença forte de Yoongi em si. Com movimentos travados, virou o rosto para a cadeira ao lado, seus olhos, tímidos, buscando a reação do outro e acabou se surpreendendo com o que viu no rostinho fofo que costumava mostrar certa indiferença. A testa franzida, as sobrancelhas arqueadas, os olhos magoados, o biquinho de irritação, indicava qualquer coisa, menos indiferença. E Yoongi até tentou manter-se neutro sobre aquela notícia, mas não conseguiu se controlar. A raiva, o ciúmes e, confessava, um toque de inveja do outro que podia tocar em Jungkook tomou controle de si. — Filho? — a senhora Jeon chamou o mais velho de seus meninos. — Você está bem? Ficou um pouco sem cor. — T-tudo bem, mãe. — pigarreou e lançou um olhar raivoso para Jungkook, que continuava a conversa sobre os namoros com o seu pai, porém ainda com a mão grande em seu ombro. — Apenas acho que é a fome. Não comi bem antes de sair de casa e quando cheguei aqui, logo dormi. — Meu Deus, Yoongi. Você é adulto, tem que se alimentar. A Jeon começou um discurso de mãe preocupada, porém a mente de Yoongi só captava as desculpas de Jungkook sobre o tal namorado e a sua mão insistente em seu ombro, o causando paz e inquietação ao mesmo tempo. — Eu vou, mãe, não se preocupe. — Não me preocupar? Olha essas olheiras, e com certeza está mais magro. Começou mais uma vez com o discurso de mãe zelosa, fazendo Yoongi, que agora tentava prestar atenção na mais velha, revirar os olhos algumas vezes, mas sorrir com saudades daquelas reações exageradas da mãe. — Acho que agora você está num intensivão dos sermões da mamãe. — Jungkook, de forma sorrateira, aproximou a sua boca do ouvido do irmão, soltando um baixo suspirar antes de sua fala apenas para ver a pele tão pálida arrepiada. — É bom te ter de volta, irmão. Quando era mais novo, tocava em Yoongi nesses momentos familiares por saudades, mas, hoje, apreciar as suas reações tão gritantes aos seus toques era bem mais divertido. Yoongi parecia queimar com qualquer contato simples e gostava daquela reação tão sensível. Imaginava como seria delicioso apreciar aquela reação mais intensificada ao tocá-lo de forma mais íntima. — Pare! — falou baixo, sorrindo para qualquer pergunta de sua mãe. — O que estou fazendo, Yoongi? — continuou a sussurrar. — É pecado estar gostando de não ser o centro das atenções da mamãe? Escolheu não responder. Jungkook não era mais aquele garoto com medo; era um adulto decidido e, naquele momento, tinha decidido brincar com suas reações. Então Yoongi apenas escolheu esperar aquele jantar torturante terminar — assim como aquela viagem inteira. Não via a hora de estar em sua casa de novo, no lugar onde Jungkook apenas lhe perturbava em sua cabeça, sem levantar qualquer suspeita. — Vou tomar banho. — disse, assim que terminou de comer. Seu plano era ficar no baheiro tempo o suficiente para que seu irmão já tivesse ido embora quando saísse, além de relaxar seu corpo da viagem e de toda tensão que estava passando nas poucas horas em Busan. Yoongi quase correu para o banheiro. Lentamente, retirou suas roupas, as deixando se amontoar no chão, perto de seus pés. Faria tudo lentamente; não estava com pressa e era seu momento sozinho. Entrou no box e girou o registro, logo molhando seu corpo na água morna. Sua pele clara ia ganhando um tom rosado pelo contato da água em temperatura elevada. O rapaz deslizou as mãos por seu corpo e lembrou dos toques de Jungkook na mesa. Fazia tanto tempo que não sentia aquelas mãos, o peso delas, o calor e a comichão de causava em sua pele, fazendo seu corpo inteiro tremer, a pele eriçar-se e um conforto lhe abraçar. Como podia sentir-se tão seguro só por estar perto dele? A única coisa que lhe incomodava de verdade era não deixar tão claro que aquele conforto em estar perto do irmão não era nada fraternal e que, se Jungkook lhe olhasse mais como olhava ou lhe tocasse um pouco mais ousado, se jogaria em seus braços, beijaria seus lábios pequenos e sentaria nas coxas grossas, se esfregando tão devagar que faria o mais novo pagar por cada provocação, o levando à loucura, porque se tinha uma coisa que sabia era levar qualquer um ao seu limite com seu corpo. — p***a! — xingou, deixando a voz rouca ecoar pelos azulejos. Bastou um jantar para se deixar levar por pensamentos tão sujos, para que seu coração gritasse de vontade por aquele que sempre o despertava. Se ensaboou rapidamente, antes que ficasse e******o de verdade. Se recusava b*******a sob aquele teto, pensando em como Jungkook amaria seu corpo. Sentiu-se novamente tocado pela inveja de todos aqueles que puderem ter de seu irmão mais do que ele jamais teria. Embora tivesse seu amor, seu lábios eram seu karma e prová-los era mais que um ato suicida agora — era impossível, estava decidido. Nunca mais experimentaria daquela boca novamente e tudo ficaria mais fácil quando estivesse em Daegu novamente. O banho relaxante e lento foi mais rápido que imaginava. Parece que tocar em seu próprio corpo e pensar em Jungkook, que estava apenas a alguns cômodos de si, não tinha sido uma ideia viável. Então era melhor tentar dormir mais uma vez e desta vez trancaria a porta do quarto para não receber visitas desejáveis, porém proibidas. Porém, quando entrou no quarto, ele já estava lá, olhando algo em sua cabeceira e lhe dando uma bela visão de suas costas largas, colocando mais imagens sujas em sua mente "doente". — Você ainda o tem? — pega as pulseiras com pingentes de lobos se entrelaçando e, sem virar para o menor, começa a falar sobre o objeto brilhante. — Lembro quando comprei pra você. Eu entrei naquela loja de raridades e vi essa pulseira. Se lembra o que disse? — Que ela parecia lhe chamar. — nunca esqueceria, pois, quando Jungkook lhe entregou o objeto, sentiu a mesma coisa. — Sim, e quando... — virou para o menor e viu o seu tronco nu, o fazendo engolir em seco. — perguntei o valor, que era tão caro para um adolescente, e ganhei uma história. Dizem que esse amuleto foi forjado em eras medievais por um lorde arrependido e que estes lobos são a representação de um casal apaixonado que teve um fim trágico por amor. — tocou no pingente delicado, apesar de rústico. — Sei que pode ser apenas uma história de vendedor, mas tal lenda me fez o querer mais, então passei uns bons seis meses economizando dinheiro para dá-lo a você em seu aniversário. — apertou o objeto nas mãos e sorriu aberto e sem malícia, deixando Yoongi um pouco menos receoso com a presença do mais novo e a sua falta de roupa. — É bom saber que nesse tempo longe você manteve uma parte minha em você. — Sempre tem uma parte sua em mim, Jungkook. — falou brando. — Quando me questionou sobre o meu afastamento, eu lhe disse que não o odiava. Você sabe que te amo. Você tá em tudo que vejo, até em lugares que não devia. E por isso eu fujo, porque não podemos. — Por que não, amor? — largou a pulseira no colchão e foi até o mais velho, lhe tocando o rosto com suavidade. — Por que nos condena a esta vida miserável? Eu te amo, Yoongi. Eu te amo tão loucamente e intensamente que já não me importo com as consequências se no final eu te ter. — Como pode perguntar isso, Jungkook? Somos irmãos, esqueceu? Por que nós acabamos de jantar com nossos pais, caso não tenha percebido, os mesmo pais. — ironizou no final, com uma grande carga de tristeza. — E daí? — manteve sua mão mais firme no rosto redondinho e o encarou, mostrando toda a sua seriedade sobre o assunto. — Você só pode estar louco. Yoongi encarou os olhos do irmão e se viu perdido. Não parecia nada com loucura, havia ali apenas ternura e nunca o ouvira falar num tom tão suave. — É, eu estou, não me ouviu? Eu estou tão louco de amor que eu já não me importo mais. Será que não dói em você, como dói em mim, essa distância, essa sensação de que nunca vai ser possível? O mais novo não sabia o que estava falando, porque até mesmo aquelas palavras doíam em seu irmão. Se tinha algo que ambos conheciam era a dor, a dor desse amor correspondido e no entanto proibido. — N-não me toque, por favor. — Yoongi fez um biquinho de tristeza, enquanto verbalizava seu pedido. — Eu não vou fazer nada com você, Yoonie. — disse, deslizando a mão para a nuca do mais velho. — Porque eu sei que se eu te tocar só um pouco você vai se entregar a mim, mas não é o que eu quero. Eu quero que venha a mim, te quero decidido como eu estou. Então não precisa ter medo dos meus toques... — Eu não tenho medo deles, Jungkook... Você não entende como eu me sinto perto de você. Não quero que me toque porque dói em mim também. Dói te rejeitar quando te quero tanto, mas eu sei que não posso. E quando você me toca é tão bom que dói quando sua mão está longe de mim. Me dói te amar assim, porque somos irmãos. Você está certo, eu me entregaria facilmente a você se insistisse um pouco, mas eu não sei se aguento viver com esse pecado. Jungkook curvou o rosto na direção do menor, sentindo o cheiro fresco de sua pele após o banho, e encostou seus lábios na maçã do rosto alheio. Sentiu o gosto levemente salgado da lágrima que fizera brotar dos pequenos e lindos olhos de Yoongi. — Não importa quanto tempo leve. — sussurrou com doçura. — Eu vou te esperar até que nosso amor possa ser vivido sem empecilhos, Yoonie, porque, você queira ou não, ele já está dentro de nós. Se tem medo do pecado, ele já existe e disso você não consegue fugir. Seu coração é meu, assim como o meu é seu, e não unir nossos corpos não muda isso. — afastou seu rosto e deslizou o polegar na outra lágrima que escorria. — Boa noite, meu amor. Jungkook saiu, o deixando ali. Sentia-se despido. As palavras sempre tão bem rechaçadas por sua fé cega, pela moral, transpassaram aquele muro que fora construído pelo Jeon mais velho, pois de uma coisa o mais novo tinha razão: o pecado estava tão fincado em si como uma raiz de uma árvore centenária e aos dias, meses e anos passarem, aquele amor se enraizou-se mais em si, como se fosse uma parte física de seu ser. E tentou, céus, como tentou! Anos de autoflagelo, mas tentou fugir daquele amor por seu irmão, tentou buscar Deus, tentou os prazeres da carne em outros, tão fisicamente parecidos com seu irmão, porém aquele pecado estava marcado em sua alma. E por mais que tentasse fugir dos pensamentos sobre o irmão, era impossível, pois quilômetros longe dele não mudavam o fato de que Jungkook era uma parte sua. Sabia que o moreno não voltaria, só o encontraria mais uma vez no casamento, mas ainda assim trancou a porta. Queria um mínimo de privacidade dos seus pais. Então jogou-se na cama, as lágrimas pesadas desciam sobre seu rosto, o cheiro de Jungkook ainda tava ali e a sensação do seu tato tão viva em sua pele, que ardia como brasa. Agarrou-se a si mesmo e, como fazia em sua solitária casa, permitiu-se chorar mais uma vez por aquela "proibição". Estava tão cansado daquilo de resistir. Machucava-se demais naquelas tentativas falhas de mudar o imutável, pensou no futuro e em sua previsão sombria e solitária, pois sabia que para si não existia outro que não ele. Olhou a pulseira, largada na cama a sua frente, e tomou em seus dedos. Tocou os lobos e pensou na lenda, pensou se era verdade e se por amor valia a pena a morte ou, no seu caso, a condenação. Buscava respostas, se via louco em dúvidas, desejos e culpa, e no fim sempre desejava o mesmo: os braços de Jungkook. Queria o seu conforto. Se sentia tão débil que sentia seu corpo fraco, tão doente com a sua alma sem aquele que tanto ansiava. E, naquele momento confuso, se perguntou se realmente toda aquela distância valia a pena. Tinha sido menos pecado não o tocar, mas nunca o esquecer? Não sabia. Naquele momento, não sabia mais de nada. Enquanto Yoongi se perdia em confusão, Jungkook voltava para casa mais obstinado que nunca. Yoongi ainda era tão seu, seu corpo não lhe negava e deixava tão claro quão bem-vindo e quão ansiado eram os seus toques, bastava apenas o convencer de que aquele amor não era passageiro, não era uma escolha. Era uma verdade e esta nunca se mantinha escondida por muito tempo.
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