ONDE ELA NÃO PERTENCE

1905 Words
Nicole começou a entender que não pertencia ali muito antes de saber para onde queria ir. Era uma sensação antiga, discreta, que surgia nos momentos mais simples. Quando as meninas da idade dela falavam sobre namoros que duravam uma semana. Quando riam de coisas que ela não achava graça. Quando aceitavam o futuro como algo curto, imediato, limitado às vielas onde cresceram. Nicole queria mais. Mesmo sem saber exatamente o quê. Ela passava horas estudando em silêncio, sentada no canto da casa, ignorando o barulho do morro que nunca dormia de verdade. Estudar era o único jeito que encontrara de não pensar demais. De não sentir demais. De não olhar demais. Mas era impossível não perceber quando Caio Vinícius estava por perto. O morro avisava. O som mudava. As pessoas se organizavam. O ritmo se ajustava como se tudo girasse ao redor dele. Nicole percebia isso sem precisar ver. O corpo reconhecia antes da mente. Às vezes, ela o observava da janela, escondida atrás da cortina fina. Caio sempre parecia distante, mesmo cercado. Não ria alto. Não fazia gestos desnecessários. Falava pouco, mas quando falava, era ouvido. Era poder sem espetáculo. Autoridade sem esforço. Nicole não admirava aquilo como quem quer fazer parte. Admirava como quem reconhece algo que jamais poderá tocar. Com o tempo, ficou claro que Caio a mantinha fora de tudo. Não apenas fisicamente. Em atitude. Em postura. Ele nunca a incluía nas conversas, nunca a tratava como alguém do morro, nunca a misturava àquele mundo. Era proteção. Mas também era exclusão. Quando Rafael chegava em casa tarde da noite, às vezes machucado, às vezes cansado demais para conversar, Nicole sentia o nó no peito apertar. Sabia que Caio estava por trás de tudo. Não como vilão. Como realidade. — Você confia demais nele — disse uma vez, sem pensar. Rafael a olhou com atenção. — Confio porque ele não mente — respondeu. — Ele é o que é. Nicole entendeu. Caio Vinícius nunca fingiu ser outra coisa. Talvez fosse isso que mais a atraísse. Ela crescia observando. Guardando. Silenciando. Na escola, os professores elogiavam sua dedicação. Diziam que ela tinha potencial. Que devia pensar em faculdade. A palavra parecia distante demais para quem cresceu onde crescer não era garantido. Mas Nicole pensava. Pensava em ir embora. Pensava em atravessar o asfalto. Pensava em respirar outro ar. E, toda vez que pensava nisso, sentia culpa. Porque ir embora significava deixar coisas para trás. Inclusive ele. Ela nunca contou a ninguém o que sentia. Nem mesmo a si mesma em voz alta. O amor era algo que existia em silêncio, sem forma definida. Não tinha expectativa. Não tinha sonho romântico. Era apenas um fato. Caio Vinícius existia. E ela o amava. Às vezes, via as mulheres que passavam por ele. Bonitas, confiantes, acostumadas àquele tipo de homem. Algumas ficavam. Outras desapareciam rápido. Nicole observava tudo com um misto de dor e lucidez. Ela sabia que nunca seria uma delas. Não porque não fosse bonita. Mas porque ele jamais permitiria. Caio nunca ultrapassava a linha com ela. Nunca se aproximava demais. Nunca ficava sozinho com ela. Nunca dava a******a para interpretações. Era rígido. Deliberado. Definitivo. E isso, para Nicole, era pior do que qualquer rejeição dita em voz alta. Certa tarde, ela descia a viela com livros nos braços quando quase trombou com ele. O impacto foi pequeno, mas suficiente para fazê-la perder o equilíbrio por um segundo. Caio segurou seu braço. Foi rápido. Automático. O toque firme durou menos de um segundo. — Cuidado — disse ele, sério. Nicole sentiu o coração disparar de um jeito que não fazia sentido. O braço parecia em chamas onde ele havia tocado. — Desculpa — respondeu, baixa. Ele a soltou imediatamente. O olhar dele passou por ela sem se deter. — Não fica andando sozinha por aqui — acrescentou. — Principalmente a essa hora. Aquilo não era carinho. Era ordem disfarçada de conselho. — Tá — ela respondeu. Ele seguiu caminho sem olhar para trás. Nicole ficou parada por alguns segundos, tentando recuperar o controle da respiração. Aquilo tinha sido nada. Um gesto simples. Um aviso comum. E, ainda assim, tinha sido tudo. Naquela noite, ela chorou em silêncio, abraçada ao travesseiro. Não por ele não a querer. Mas por ele querer do jeito errado. Caio Vinícius jamais a veria como mulher. A veria sempre como limite. O tempo passou. Nicole completou dezessete anos com a sensação de estar presa entre dois mundos. Um que a queria ali, calada, encaixada. Outro que ainda não tinha nome, mas a chamava em silêncio. Ela começou a juntar documentos. A se informar sobre bolsas de estudo. A sonhar escondido. E, ao mesmo tempo, sentia o coração apertar ao pensar em deixar o morro. Deixar Rafael. Deixar a mãe. Deixar Caio. Não por esperança. Mas porque amar alguém assim cria raízes difíceis de arrancar. Caio, por sua vez, observava Nicole à distância com atenção calculada. Não era distração. Era vigilância. Ele percebia que ela crescia. Que não era mais criança. Que os olhares dos outros começavam a mudar. E isso o incomodava. Não por ciúme. Mas por responsabilidade. Ela era território proibido. Não apenas para ele. Para todos. E Caio fazia questão de deixar isso claro, mesmo sem dizer uma palavra. — Fica de olho nela — disse certa vez a Rafael. — Ela não é desse lugar. Rafael entendeu o que aquilo significava. Nicole não ouviu. Mas sentiu. Sentiu que não pertencia ao morro. E também não pertencia a ele. Naquela noite, sentada na laje, olhando as luzes da cidade ao longe, Nicole tomou uma decisão silenciosa. Ela não diria nada. Não confessaria. Não esperaria nada. Amaria em silêncio até o dia em que pudesse ir embora. Porque amar Caio Vinícius não era uma escolha. Mas permanecer ali, esperando algo que nunca viria… era. E ela não queria passar a vida inteira onde não pertencia. . Ao perceber que crescer não era exatamente ganhar liberdade. Era perder ilusões. Quanto mais entendia o mundo ao redor, mais claro ficava que certas escolhas nunca estariam disponíveis para ela — não por falta de coragem, mas por sobrevivência. O morro ensinava isso cedo. Havia dias em que ela se sentia quase normal. Ria com as amigas, reclamava da escola, fingia que o futuro era algo distante. Em outros, tudo parecia pesado demais. Bastava ouvir o nome de Caio Vinícius em alguma conversa atravessada para o peito apertar sem aviso. Ela nunca se aproximava quando ele estava por perto. Nunca dava motivo. Nunca criava situação. A distância era uma regra que ela mesma impunha, como se assim pudesse controlar o que sentia. Não funcionava. Ela observava como Caio ocupava os espaços. Não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Ele não precisava estar presente para ser lembrado. Sua ausência também tinha peso. Quando ele não aparecia por dias, o morro ficava inquieto. Quando voltava, tudo se ajustava de novo. Era como se ele fosse uma espécie de eixo invisível. E ela orbitava longe demais para ser vista, perto demais para não sentir. Certa noite, houve confusão perto da quadra. Nada fora do comum, mas o suficiente para deixar a mãe de Nicole nervosa. Portas fechadas. Janelas apagadas. O medo cotidiano fazendo seu trabalho silencioso. Rafael saiu sem dizer muito. Nicole ficou sentada na cama, o caderno aberto no colo, incapaz de se concentrar. O barulho distante chegava abafado, mas o coração parecia escutar tudo. Pensou no irmão. Pensou em Caio. Pensou em como os dois estavam ligados de um jeito que ela nunca conseguiria separar. Quando Rafael voltou, horas depois, estava cansado, suado, mas inteiro. Nicole fingiu não reparar, mas sentiu o alívio atravessar o corpo inteiro. — Ele mandou você entrar — Rafael disse, jogando-se na cadeira. — Quem? — perguntou, mesmo sabendo. — O Caio. — Ele a olhou de lado. — Disse que você não devia ficar acordada até essa hora. Nicole sentiu o rosto esquentar. — Ele não manda em mim. Rafael deu um meio sorriso. — Não manda. Mas cuida. Aquilo a desarmou. Cuidar não era amar. Mas também não era indiferença. Naquela noite, Nicole demorou a dormir. Pensava no cuidado que vinha sempre em forma de limite. No respeito que nunca cruzava linha alguma. No homem que parecia enxergar tudo — menos o que ela sentia. Ela se perguntava se Caio tinha ideia do efeito que causava. Se sabia que, para ela, cada gesto seco, cada distância calculada, cada silêncio imposto, machucava mais do que se ele fosse c***l de verdade. Talvez escolhesse mesmo assim. Os meses passaram devagar. Nicole terminou o ensino médio com notas altas e poucas comemorações. Não gostava de chamar atenção. Preferia vitórias silenciosas. A mãe se orgulhava. Rafael fingia não se emocionar, mas se emocionava. Caio apareceu no dia da pequena comemoração improvisada em casa. Não ficou muito. Parabenizou Nicole com um aceno discreto, uma palavra curta. — Continua assim — disse. Só isso. Ela assentiu, sentindo aquela frase carregar mais peso do que ele imaginava. Continuar assim significava continuar longe. Continuar em silêncio. Continuar amando sem nunca tocar. Naquele dia, quando ele foi embora, Nicole subiu para a laje e ficou ali por um tempo longo demais, olhando a cidade ao longe. Pensou em tudo que ainda não tinha vivido. Pensou em tudo que jamais viveria se ficasse. E pensou nele. Não como fantasia. Não como romance. Mas como impossibilidade concreta. — Você não é pra mim — murmurou, sem raiva. Dizer isso em voz alta doeu. Mas também trouxe uma clareza estranha. Nicole decidiu, ali, que faria o que estivesse ao seu alcance para sair daquele lugar. Não por desprezo ao morro. Mas por amor próprio. Porque ficar significava continuar sendo alguém que observava a vida dos outros passar. Ela começou a juntar papéis, pesquisar programas, perguntar sem parecer interessada demais. Cada pequeno passo era dado em segredo, como tudo que realmente importava para ela. Caio percebeu a mudança antes de qualquer outro. Ela andava diferente. Mais focada. Menos dispersa. Não era mais a adolescente distraída com livros apenas. Havia algo nela que apontava para longe. E isso o incomodava mais do que gostaria de admitir. Não porque a quisesse perto. Mas porque sabia o que o morro fazia com quem não pertencia. — Ela vai embora — comentou um dia, quase para si mesmo. Rafael o ouviu. — Talvez — respondeu. — E talvez seja o melhor. Caio não respondeu. Olhou para o horizonte com o maxilar tenso. Parte dele queria concordar. Outra parte se irritava com a ideia de perdê-la daquele jeito silencioso. Não que fosse dele para perder. Nicole, naquela noite, escreveu em um caderno velho uma frase simples: Eu não pertenço aqui. Fechou o caderno, guardou na gaveta e respirou fundo. Não havia tristeza na decisão. Havia maturidade. A mesma maturidade que a fez amar em silêncio. A mesma que agora a empurrava para longe. Ela não sabia ainda que o tempo estava acabando. Que crescer demais perto de alguém proibido cobra um preço. Que o amor guardado por tanto tempo não desaparece — apenas espera o momento errado para explodir. Mas isso ainda viria. Por enquanto, Nicole seguia vivendo naquele lugar onde não pertencia, sem saber que, muito em breve, cruzaria uma linha que jamais poderia descruzar. E Caio Vinícius, o homem que controlava tudo ao redor, seguia sem perceber que a única coisa que realmente ameaçava seu domínio era justamente aquilo que ele se recusava a tocar.
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