°° Mason Miller °°°
Ela estava absurda naquele maldito vestido — um golpe certeiro de beleza que grudou na minha pele, no meu ar, e até no tecido da minha camisa. O perfume dela ficou preso em mim depois que se foi, e, droga, eu devia ter segurado aquela mulher por mais tempo. Lívia Cárter é a razão do meu desejo e da minha insônia há dois anos. Sempre impecável, sempre chamando atenção, sempre me provocando com um simples olhar.
Sim, eu transformei a vida dela no escritório num inferno particular. Sim, isso faz de mim um babaca. Mas, inferno, ela fica perfeita quando está irritada: o semblante fechado, os braços cruzados, aquele bufar impaciente… e o revirar de olhos que me destrói.
Dois anos tentando — falhando mais do que acertando — apenas para que essa mulher percebesse que ela nunca saiu da minha cabeça.
E aí, do nada, Christopher aparece. Um papinho leve, um sorriso b***a… e pronto, conseguiu o número dela em minutos. Em minutos, enquanto eu venho implorando por migalhas de atenção há anos. Sinceramente, já posso cavar minha cova.
Não que Christopher não mereça. Ele é um bom homem, um irmão de ouro, gentil, educado, cavalheiro. Ficou viúvo recentemente — minha cunhada tirou a própria vida há alguns meses — e desde então ele anda quebrado por dentro.
Foi ideia minha trazê-lo hoje. Eu só não esperava que ele fosse mirar justamente na minha mulher. Sim, minha. Lívia será minha esposa — o fato de ela não saber disso ainda é detalhe.
Falando em casamento… é tudo fachada. Samantha e eu cursamos um período da faculdade juntos e acabamos bons amigos, apesar da diferença de idade. Ela até já foi modelo de campanhas da empresa da família.
A situação é simples: Samantha precisava de um empurrão na carreira. E eu, como bom amigo, topei ajudar. Afinal, o que promove melhor alguém do que ser noiva de um dos homens mais poderosos do país?
E, claro, eu também ganhava com isso. Na minha mente genial, Lívia surtaria de ciúmes e acabaria aos meus pés — como todas as outras.
Que i****a eu fui. Ela nunca será como todas as outras.
Respiro fundo, passo a mão pelos cabelos e tento recompor o pouco de dignidade que restou. Ainda sinto o impacto do golpe porque, honestamente, a desgraçada me acertou bonito.
— Tudo bem, irmão? — a voz de Christopher me puxa de volta. Só percebo que voltei para nossa mesa quando olho ao redor. — Parece perturbado. Ansioso pro casamento, talvez? — ele brinca.
— Recebi uma ligação. Algo da empresa — minto, tentando soar convincente.
— Você é um homem de sorte, Mason. Samantha é uma bela mulher — ele comenta, observando-a dançar com algumas amigas. E, embora eu devesse focar na minha futura noiva fake, minha mente só conseguia perseguir a imagem de Lívia, que nesse momento já devia estar do outro lado da cidade.
Provavelmente furiosa porque eu estraguei a noite dela.
Parabéns, Mason, você conseguiu de novo, penso, enquanto viro o drink de uma vez só.
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° Lívia Carter °°°°
Chegar em casa nunca foi tão libertador quanto agora. Assim que tiro os saltos e deixo o vestido escorregar pelo chão, sinto o corpo desinflar. Depois de alimentar meus gatos, me permito afundar na banheira. A água quente envolve meus músculos como se estivesse recolhendo cada pedaço da noite e me devolvendo um fio de paz.
Mesmo sendo cedo — algo entre 2h e 2h50 — já estou no meu apartamento, muito antes do horário combinado com Summer. Ela até tentou me acompanhar quando subi num táxi às pressas, mas eu recusei. Estava sóbria o suficiente. Ou, pelo menos, irritada o bastante para não querer testemunhas.
Saio da banheira depois de longos minutos e visto algo confortável. Meus dois gatos — meus leões — já estão jogados na cama como os donos absolutos do território. Desde que chegaram, nunca mais dormi sozinha, e honestamente? Com o tamanho que já alcançaram, minha cama king está começando a pedir socorro.
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Talvez aceitar ir ao shopping com Summer tenha sido burrice. Desde o momento em que saímos, ela decidiu transformar minha existência num interrogatório à la FBI: “Por que você fugiu da boate? O que aconteceu? Quem morreu?”
Agora são por volta das 19h17. Já compramos maquiagem, demos uma volta em outras lojas, assistimos a um filme e finalmente estamos na praça de alimentação. Ela me observa como quem conhece meus pecados antes mesmo de eu cometê-los.
— Quando vai me contar a verdade? — ela pergunta, tomando um gole de suco e me encarando com aqueles olhos verdes que enxergam até pensamento indecente.
— Tá bom, eu admito. Eu não queria ter vindo. Eu queria estar dormindo. — Minha voz sai quase chorosa; ela revira os olhos.
— Lívia, falando sério.
— Eu simplesmente não estava me sentindo bem. Só isso. — digo, mordendo meu hambúrguer com toda a convicção mentirosa possível.
— Eu vi quando você foi ao banheiro. E vi o Mason indo atrás de você logo depois. Não vai me dizer que não aconteceu nada. — Ela cruza os braços, implacável.
— Não, Summer. Nada aconteceu. Eu só não suporto o Mason. Não suporto respirar o mesmo ar que ele. E, sinceramente, não queria meu chefe infiltrado no meu grupo de amigos. — Meu tom sai mais irritado do que eu gostaria, e ela até recua um pouco. — Podemos mudar de assunto, por favor?
— Eu achei que ele tivesse feito—
Corto-a com um olhar mortal.
É exatamente nesse instante que meu celular começa a tocar. Na tela: Mason Miller.
Summer abre um sorriso que eu, sinceramente, gostaria de apagar com um tapa de carinho.
— Nem pense — aviso, antes de atender no viva-voz.
— Não estou em horário de trabalho, senhor Miller. Seja o que for, pode esperar até segunda. — Disparo assim que atendo.
— Lívia?
A voz do outro lado não é dele. É mais suave, mais hesitante.
— Senhor Miller?
— Sou eu, Christopher.
Sinto Summer praticamente gargalhando em silêncio.
— Ah… ok. O que houve?
— Sinto muito ligar do telefone do Mason. Aconteceu algo ontem e acabei perdendo o meu. E… por consequência, seu número. — Aquele nervosismo doce na voz dele quase me desmonta.
Summer cochicha: “AAAAA QUE FOFURA”.
— Que pena, Chris. Mas… tudo bem. O que você precisava?
— Eu pensei… talvez pudéssemos sair hoje. Ver um filme, conversar. Gostei muito de falar com você ontem, mas sinto que não tivemos tempo suficiente. Só que, enfim… perdi o celular, entrei em pânico porque pensei que tinha perdido seu número e—
A verborragia nervosa dele me arranca um riso que eu não consigo segurar.
— Hoje não posso, não estou em casa. Mas amanhã à noite… pode ser? Se estiver bom pra você, claro.
Ouço ele prender a respiração do outro lado, como quem acaba de ouvir a palavra “sim” no altar.
— Amanhã seria perfeito. Sério… perfeito.
— Então amanhã às oito? — confirmo.
— Às oito. Nos vemos amanhã, Lívia. E me desculpe por interromper.
Desligamos. Summer explode num sorriso que ilumina metade do shopping.
— Já pensou você virar a cunhada do seu chefe? — ela solta, animada, como se tivesse acabado de prever o apocalipse romântico perfeito.
A ideia entra na minha cabeça como um choque elétrico.
Eu tinha acabado de marcar um encontro com o irmão do meu chefe.
Eu não suporto o Mason como chefe. Imagine como… familiar?
Nem ferrando.
— Não tenta me dar pesadelos, Summer — murmuro, rindo.
Ela gargalha, porque Summer vê futuros brilhantes onde eu só enxergo incêndios.
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° Mason Miller °°°°
Saio do banho ainda secando o cabelo com a toalha quando percebo que meu celular não está onde deixei. Nem na cômoda, nem no criado-mudo, nem no canto da cama onde tenho certeza absoluta de ter largado. O quarto inteiro parece conspirar contra mim enquanto reviro tudo — gavetas, cobertas, até o chão. Nada. E o relógio insiste em me lembrar que tenho um compromisso em questão de minutos.
Prendo um palavrão entre os dentes, visto a primeira camisa que encontro e continuo a caça ao celular desaparecido. Mas a essa altura já sei exatamente quem é o ladrão.
— Christopher! — chamo, alto o suficiente para ecoar pela casa.
Meu irmão está ficando comigo por alguns dias — talvez semanas, talvez meses, quem sabe — até encontrar um apartamento novo. Ele se recusa a voltar ao antigo lugar onde a esposa tirou a própria vida. E eu… não posso julgá-lo por isso.
— Tô indo! — ele responde de algum lugar do corredor.
Alguns segundos depois, Christopher aparece na porta do meu quarto. E, claro, meu celular está tranquilamente repousando na mão dele. Óbvio. Natural. Como se fosse dele por direito.
Meu maxilar chega a doer de tão forte que aperto.
— O que você está fazendo com o meu celular? — pergunto, tentando soar civilizado. — Achei que tivesse comprado o seu esta manhã.
— Sim, comprei — ele diz, como se estivesse relatando o clima. — Mas lembrei que tinha perdido o número da Lívia. E lembrei também que ela é sua secretária, então, lógico, você teria o contato dela. Só peguei emprestado por um minuto.
“Não é possível.”
Respiro fundo. Depois mais fundo ainda. Tento não socar uma parede. Christopher sempre teve essa capacidade irritante de agir como se tudo fosse completamente razoável enquanto acende incêndios ao meu redor.
— Você não pode simplesmente pegar meu celular e vasculhar minha agenda, Chris — digo, mantendo a voz tão neutra quanto consigo. O que não é muito.
Ele baixa o olhar por um segundo, e quando fala, a voz vem carregada, pesada de culpa antiga.
— Eu sei que você ainda não confia em mim, mesmo depois de tudo. Mas eu juro que só peguei o número da Lívia. Nada mais. Não quero te machucar, Mason. Eu sei que errei… lá atrás. Mas isso passou. Já faz dez anos. Eu não sou mais aquele garoto — ele diz, e o pesar na voz dele me desmonta por dentro, mesmo que eu lute para não demonstrar.
Droga.
Droga, droga, droga.
O pior é que ele acredita mesmo no que diz.
— Tudo bem, Chris — respondo depois de alguns segundos. Desbloqueio o celular e vejo a chamada recente para o número dela. — Espero que tenha conseguido o que queria.
Ele sorri. Aquele sorriso de homem bom e genuíno que sempre fez todo mundo gostar dele sem esforço.
— Consegui. Ela aceitou sair comigo. Amanhã à noite.
O mundo não cai, mas sinto o chão dar uma leve afundada.
— Fico feliz por você — digo, mesmo que minha voz esteja tão afiada que poderia cortar vidro. — Agora, se me der licença, preciso terminar de me arrumar.
Ele concorda, sem perceber a rachadura na minha compostura, e sai do quarto de forma leve demais para alguém que acabou de desferir um golpe direto no meu ego — e no meu coração.
Assim que fico sozinho, a verdade cai sobre mim com o peso de um prédio:
Menos de vinte e quatro horas.
E Christopher conseguiu o que eu venho tentando conquistar há dois anos.
Não. Isso não vai ficar assim. Nem por cima do meu cadáver.
Uma notificação chega. Uma mensagem.
De Lívia.
O endereço dela. O horário em que Chris deve buscá-la amanhã.
Quase posso ouvir o destino gargalhando da minha cara.
Fecho os olhos por um momento, tentando conter o impulso absurdo de atravessar a cidade e aparecer no prédio dela só para… o quê? Me humilhar? Ser preso? Ou pior, assustá-la a ponto de ela pedir demissão e me denunciar por assédio?
Eu precisava manter o controle. Precisava.
Ou ia destruir tudo por completo.
Termino de me vestir, respiro fundo mais uma vez e saio de casa.
A noite me engole, e eu já sei — vai ser longa. Muito longa. E eu não tenho certeza se vou gostar do homem que serei quando ela terminar.