☆ Capítulo 15☆

1656 Words
☆ Livia Carter ☆ — Terra chamando, Lívia. A voz masculina chega aos meus ouvidos com aquele timbre rouco e familiar, me arrancando à força dos meus próprios pensamentos. Piscar parece insuficiente para voltar à realidade, mas ainda assim faço isso algumas vezes antes de erguer o olhar na direção de quem me chama. E lá está ele. Christopher Miller. Parado bem à frente da minha mesa, vestindo um terno impecável que parece ter sido feito sob medida para cada linha do corpo dele. O tecido escuro valoriza a postura naturalmente elegante, enquanto os cabelos negros, levemente bagunçados, quebram a formalidade na medida certa. Nos lábios, aquele sorriso gentil de sempre… fácil, leve… perigoso de um jeito completamente diferente. — Chris… — digo o nome dele, e dessa vez o sorriso que surge nos meus lábios é genuíno, espontâneo, quase automático. — Como vai? — Estou bem, gatinha… — ele responde, soltando um suspiro divertido enquanto leva a mão até a nuca, coçando devagar, como se ainda estivesse tentando se recuperar de algo. — Ainda juntando os cacos do meu cérebro depois daquela reunião de quase quatro horas, me dividindo entre explicar o novo projeto em chinês e coreano. Digamos que não foi exatamente um dos meus melhores momentos. Solto uma pequena risada, observando o jeito dele, a leve tensão nos ombros, o desconforto misturado com humor. — E você… como tem estado? Já faz algum tempo, não é? — Sim, algumas semanas… — respondo, mantendo o sorriso enquanto apoio levemente os braços sobre a mesa. — Tenho estado bem. Dias corridos, longos… caóticos até, mas bem. Ele me observa por um segundo a mais, como se analisasse cada detalhe da minha resposta. — Isso é bom, certo? — Sim, sem dúvidas — afirmo, com leveza. — Acho que você deve ter vindo falar com o Mason… ele ainda não chegou e não deixou nenhum recado. Mas, se quiser, eu posso— — Foi por você. As palavras saem de repente, cruas, sem preparação alguma, como se tivessem escapado antes que ele pudesse filtrá-las. Franzo levemente o cenho, confusa. — Não entendi. Ele passa a mão pelos cabelos, desviando o olhar por um instante. O nervosismo é visível agora, completamente fora do personagem sempre seguro que ele costuma sustentar… e, por algum motivo, aquilo é quase… adorável. — Eu vim por você… — ele repete, dessa vez com mais cuidado, mas ainda assim sem esconder o desconforto. — Queria te ver. Te chamar pra sair, sabe? Talvez um jantar, cinema… qualquer coisa assim. Fico em silêncio por um breve momento, apenas observando ele. Faz semanas desde a última vez que nos vimos. Quase um mês e meio, na verdade. Christopher precisou viajar a trabalho e, no meio de toda a correria, nossas conversas foram se perdendo. Mensagens que não foram enviadas, ligações que não aconteceram, dias que passaram rápido demais. Ele voltou há alguns dias, mas mesmo assim… nossas rotinas continuaram desencontradas. Até agora. — Um cinema seria ótimo — respondo, sorrindo. E, por um segundo, ele simplesmente trava. Literalmente. Fica me encarando como se eu tivesse dito algo completamente absurdo, como se estivesse tentando entender se ouviu certo ou não. — Sério? — pergunta, ainda incrédulo. — Você quer mesmo… quer dizer, sair comigo de novo? Solto uma risada baixa, inclinando levemente a cabeça. — É claro que sim, seu bobo… eu— Não termino. Minha voz morre no meio da frase no exato instante em que ouço meu nome sendo chamado, alto o suficiente para atravessar todo o andar. E eu reconheceria aquele tom em qualquer lugar. — Eu não lhe pago para bater papo com meu irmão, senhorita Carter. A voz de Mason surge atrás de Christopher, cortando o ar com precisão cirúrgica. Fria. Controlada. E carregada daquele desprezo sutil que ele faz questão de usar como marca registrada. Meu olhar se ergue lentamente, passando por Christopher… até encontrar Mason. E, por um instante… só um instante… O clima muda completamente. Ele caminha em nossa direção com a postura ereta de sempre, como se cada passo fosse calculado para afirmar presença. Os cabelos loiros estão levemente bagunçados, em um contraste irritante com o restante impecável, e os olhos azuis… frios, calculistas… se fixam diretamente em mim enquanto ele se aproxima. O terno azul-marinho, feito sob medida, acompanha cada movimento do corpo dele com precisão, realçando de uma forma quase ofensiva o quão… atraente ele consegue ser. O que, sinceramente, só piora tudo. — E quanto a você, Christopher… — ele diz ao parar ao lado do irmão, virando-se na direção dele com aquele ar insuportável de quem sempre tem o controle da situação. — Espero que tudo tenha corrido bem com a reunião. Os asiáticos serão peças importantes para nossos planos de expansão. — A reunião correu bem, Mason — a resposta de Chris vem imediata, mas diferente de antes. O tom suave desaparece, dando lugar a uma postura mais firme, mais centrada… quase desafiadora. — Tão bem que não precisamos da sua presença. A provocação paira no ar, densa, carregada de um tipo de rivalidade que não precisa ser explicada para ser compreendida. Há um leve traço de superioridade na voz dele que me faz arquear as sobrancelhas, surpresa com a mudança. Mason não reage de imediato. E isso, por si só, já é um sinal. — É bom saber que finalmente resolveu crescer e assumir responsabilidades — ele responde, a voz fria, precisa… cortante. — Isso ao menos mostra que você não é tão incompetente quanto parece. — Mason… — o nome dele escapa dos meus lábios antes que eu possa conter, carregado de uma repreensão automática que eu me obrigo a engolir no mesmo instante. Erro. Grave erro. Porque, se tem algo que eu preciso mais do que paz mental nesse momento… é do meu emprego. Preciso manter meu padrão de vida, preciso sustentar meus gatos — que, convenhamos, vivem melhor do que muita gente — e, por mais que uma parte de mim ainda queira voar no pescoço desse maldito loiro insuportável… Ele ainda é meu chefe. — Não me lembro de ter lhe dado tal liberdade para me chamar pelo primeiro nome, senhorita Carter — a voz dele vem firme, ácida, carregada daquele tom provocativo que ele sabe exatamente como usar para me tirar do sério. Respiro. Engulo. Sorrio internamente de um jeito nada saudável. — Erro meu, senhor Miller — respondo, controlada, mesmo que por dentro eu esteja a dois segundos de mandar ele diretamente para o inferno. — Precisamos revisar sua agenda, senhor. Se me permite, eu— — Faremos isso quando eu disser que faremos. Ele não eleva o tom. Não precisa. Os olhos dele permanecem presos aos meus, firmes, dominantes, como se estivesse medindo até onde consegue me pressionar antes que eu ceda. Ou exploda. — Agora, faça o favor de ir buscar meu café. Não funciono sem cafeína pela manhã — continua, como se estivesse me dando a ordem mais natural do mundo. — E quando voltar, vá até a minha sala. Temos muito o que resolver. — Sim, senhor Miller… — Menos palavras e mais ação, senhorita Carter — ele corta, frio, impaciente. — Você claramente não é paga para falar. O silêncio que se segue é pesado. Denso. E eu respiro fundo. Na verdade… eu respiro fundo demais. Porque, neste exato momento, estou reconsiderando todas as escolhas que me trouxeram até aqui. Cada decisão, cada passo, cada maldito “sim” que me colocou sob o comando desse homem. Mason Miller claramente saiu de casa hoje com um único objetivo: Testar o meu autocontrole. E, pelo andar da carruagem… Eu estou perigosamente perto de falhar. 》☆☆☆《 ☆ Mason Miller ☆ Não bastasse o inferno da noite passada, o destino — ou o próprio capeta — resolve completar o cenário colocando Christopher no meu caminho logo pela manhã. E não satisfeito, ainda me brinda com a visão dele parado na mesa dela, conversando com a minha mulher como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. A minha mulher. O pensamento surge automático, possessivo… perigoso. E eu odeio o quão natural isso soa dentro da minha cabeça. Ignoro completamente a expressão de desagrado estampada no rosto dele e passo direto, como se sua presença não fosse nada além de um detalhe irrelevante no meu dia. Sigo em direção ao meu escritório sem diminuir o ritmo, mas, como esperado, os passos dele ecoam logo atrás dos meus. Sempre foi assim. Desde criança. Christopher nunca soube quando parar. Nunca soube aceitar limites. Sempre precisou reagir, retrucar, criar seu próprio espetáculo… como se o mundo estivesse constantemente devendo atenção a ele. Mas hoje… Hoje eu não estou com paciência para isso. Entro no escritório e encontro tudo exatamente como deveria estar. O computador já ligado, a luz natural invadindo o ambiente pelas janelas abertas, cada detalhe no lugar certo. Lívia. Claro. Solto um suspiro baixo, mais para mim mesmo do que por qualquer outra coisa, enquanto retiro o blazer e o jogo no sofá de couro cinza no canto da sala. Sem perder tempo, sigo até a pequena adega embutida. Porque, honestamente? Tem dias em que administrar uma empresa exige mais do que competência. Exige álcool. Sirvo uma dose generosa de bourbon, observando o líquido âmbar preencher o copo com uma calma que contrasta completamente com o caos dentro da minha cabeça. — Você não deveria tê-la tratado daquela forma, Mason. A voz de Christopher invade o ambiente carregada de reprovação, e eu nem preciso olhar para saber que ele está com aquela expressão irritante de superioridade moral. Levo o copo aos lábios antes de responder, deixando o gosto forte da bebida se espalhar pela minha boca, descendo queimando pela garganta. — Lívia é paga para trabalhar, não para trocar confidências com meu irmão mais novo — respondo, frio, direto, sem espaço para discussão. — Você a estava atrapalhando. Eu apenas intervim.
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