☆Summer Hawkins.☆
— Eu acho… acho que deveria ficar mais um pouco, Summer, eu…
Lívia começa novamente a falar, obedecendo àquela vozinha interior irritante que ela carrega desde sempre. Aquela que a acusa em silêncio por todas as tragédias do mundo. A que a convence de que cada coisa r**m que acontece à sua volta é, de alguma forma, culpa dela.
Ela bateu com um vaso na cabeça de Mason. Sim, ela fez isso.
Mas vamos deixar algo muito claro.
Não foi fúria. Não foi vingança. Não foi impulso vazio.
Foi reflexo.
Um gatilho antigo, enterrado sob anos de medo, dor e memórias que nunca cicatrizaram direito. Um movimento automático, nascido de traumas que ainda respiram dentro dela.
E está tudo bem.
Ela não tem culpa.
Ela só estava se defendendo.
— Nem pense nisso. — interrompo antes que ela termine a frase, antes que comece a se afogar em desculpas que não lhe pertencem. — Lívia Carter, você vai pegar sua bolsa, as chaves do meu carro, e vai para casa. Agora.
Ela me encara, surpresa.
— E vai deixar que do resto cuido eu. — continuo, firme. — São quase duas da manhã. Você teve uma noite incrível com um bofe gostoso, e eu me recuso solenemente a deixar que sua noite termine em um quarto de hospital cheirando a desinfetante.
— Mas, Summer, você não pode…
— Meu amor, eu não posso ficar sem o meu café. De resto, eu me viro. — sorrio de lado. — Os médicos já disseram que seu encosto de estimação vai ficar bem. Você pode ir.
Faço um gesto vago com a mão.
— Eu já liguei para a Sammy. Ela viajou de última hora para uma campanha publicitária, mas volta em dois dias. E até lá… — inclino a cabeça — seu chefe vai ter bastante tempo para descansar e, quem sabe, recobrar um pouco do juízo que perdeu.
Um sorriso enfim brota no rosto de Lívia.
E esse sorriso… esse sempre me desmonta.
Ela é minha metade, sabe. Minha irmã de outra mãe. Nós nos conhecemos quando ainda usávamos fraldas, no berçário da escolinha.
Eu não lembro de tudo. Faz tempo demais. Tipo… muuuuito tempo mesmo.
Mas lembro o suficiente para afirmar, sem medo, que nossa amizade é sólida como rocha.
E é exatamente por isso que estou fazendo o que estou fazendo agora.
Para impedir que ela se machuque mais do que já se machucou.
Merda… eu vi Lívia no fundo do poço. Em um relacionamento abusivo. Se desfazendo aos poucos por causa de um lixo humano com cara de gente.
Eu vi o pior dela.
Assim como ela viu o meu, quando eu afundei em depressão depois de perder meu irmão mais velho.
Mas isso não vem ao caso agora.
O que importa é: eu me recuso a deixar que ela volte para aquele buraco.
Nem que, para isso, eu precise tomar o lugar dela.
— Você é impossível, sabia? — ela diz, finalmente rindo de verdade. — Eu vou então. Mas você sabe… pode me ligar se precisar de qualquer coisa e—
— Claro, claro. — interrompo, displicente. — Eu te ligo se decidir dar cabo do corpo de seu chefe.
Digo como se estivesse comentando sobre o clima.
— Agora vai para casa. Descansa. Amanhã você trabalha.
Ela me abraça apertado, daquele jeito que só quem conhece suas rachaduras por dentro sabe abraçar. Repete que qualquer coisa eu posso ligar. Que ela volta correndo. A qualquer hora. Por qualquer motivo.
E eu não duvido nem por um segundo.
Espero alguns minutos, até ter certeza absoluta de que ela foi embora.
Então volto o olhar para a figura deitada na cama do hospital.
— Eu acho é pouco… que ela tenha batido com o vaso na sua cabeça. — digo com serenidade, examinando minhas unhas. — Eu, no lugar dela, teria usado um martelo.
Faço uma pausa.
Encaro o homem que insiste em fingir, com toda a dignidade possível, que está dormindo.
— Já pode parar de fingir, Mason. — minha voz sai baixa, perigosa. — Eu sei que você está acordado.
Me aproximo da cama devagar.
Mason ainda mantém os olhos fechados, a respiração medida demais para alguém que deveria estar desacordado. Mas eu vejo. Vejo o leve tremor em suas pálpebras, o esforço quase patético para fingir um sono que não existe.
— i****a. — murmuro, a palavra carregada de raiva contida, enquanto cravo minhas unhas em sua panturrilha.
O grito estridente explode de seus lábios sem qualquer dignidade.
E eu sorrio de lado.
— c*****o, Summer. — ele resmunga, abrindo os olhos com dificuldade, ainda zonzo, mas já me encarando com aquela raiva crua que lhe é tão familiar. — Precisava fazer isso?
— Precisava, seu i****a. — respondo, sem diminuir o tom. — Quem você pensa que é para invadir o apartamento da minha amiga e cobrar alguma coisa, sendo que vocês não têm nada?
Cravo minhas unhas na panturrilha outra vez, com gosto.
Ele solta um gemido rouco, o rosto se contorcendo em uma careta feia de dor.
— Você perdeu o juízo? — digo, intensificando ainda mais o aperto. — Quando você me disse, Mason, que estava apaixonado pela Lívia e queria conquistá-la, eu disse que ajudaria. Se isso a fizesse feliz.
Solto sua perna de repente.
— Mas até agora… você só fez merda, p***a.
Me afasto alguns passos, levo as mãos ao rosto, respirando fundo enquanto ando de um lado a outro no quarto. Sinto minha paciência escorrer pelos dedos, gota por gota, como se alguém tivesse aberto um ralo invisível dentro de mim.
— Uma semana, Mason. — paro de frente para ele. — Em uma maldita semana você fez mais merda do que eu em toda a minha vida.
Meus olhos se estreitam.
— E olha que eu tenho uma lista imensa.
— As coisas não saíram como planejado. — ele resmunga, desviando o olhar. — Eu acabei me frustrando. p***a, Summer… uma semana. Uma maldita semana que meu irmão está na cidade e ele já fez mais progresso que eu em dois anos. Eu perdi a cabeça.
Não consigo evitar.
Uma gargalhada escapa de mim, curta, incrédula, quase amarga diante das merdas que saem da boca do homem à minha frente.
— O que ele tem que eu não tenho? — ele pergunta, ferido demais para esconder.
— Juízo, talvez? — respondo calmamente. — Atitude. Quem sabe ele é um homem normal, que sabe chegar em uma mulher e pedir o número dela… ao invés de armar um maldito casamento de fachada só para tentar chamar a atenção dela?
Ele abaixa a cabeça.
— Eu sei que fiz merda. — diz, a voz mais baixa. — Mas eu realmente não sei como consertar isso. Eu prometi à sua irmã que ajudaria ela e…
— E com o dinheiro que você tem, você vai encontrar uma forma de compensar a Samantha. — interrompo, com sarcasmo escorrendo na medida exata. — E tenho certeza que ela vai ficar grata por isso.
Cruzo os braços.
— Porque, sinceramente, Mason, você está queimando todos os encontros dela com essa ideia de casamento. Sammy não é uma pessoa monogâmica e tenho certeza que você já percebeu isso.
Dou um passo em direção à porta.
— Contudo, esse problema é seu para lidar. Está tarde. E eu preciso ir.
— Vai me deixar aqui sozinho? — ele pergunta, escolhendo as palavras com cuidado suficiente para tentar me provocar culpa.
Eu paro.
Viro o rosto lentamente na direção dele.
— Você é um homem adulto, Mason. Totalmente são. E com um corte na cabeça. — digo, encarando-o com desdém. — Você vai sobreviver.
Bufo enquanto caminho pelos corredores longos e excessivamente brancos do hospital. O som dos meus passos ecoa baixo, misturado ao cheiro insistente de álcool e cansaço.
Passo pela recepção e cumprimento Deby — colega de faculdade, agora guardiã das madrugadas alheias. Ela retribui com um sorriso automático, desses que já viraram reflexo.
Me sento em uma das cadeiras da sala de espera e, sem pensar muito, me perco no celular.
Alguns vídeos aleatórios. Gente caindo, receitas impossíveis, teorias da conspiração às duas da manhã. Qualquer coisa serve quando se precisa matar o tempo.
Tenho que esperar até as 03h30 para ir embora.
É quando termina o plantão do Ethan.
E eu vou para a casa dele.
Pretendo dirigir.
Ele está há quase trinta e seis horas sem dormir e eu não tenho o menor interesse em brincar com a sorte — nem com a vida dele, nem com a minha.
Ethan é um velho amigo.
Nós ainda estamos… nos encontrando.
Nada oficial.
Nada pesado.
Algo gostoso, leve, sem compromisso.
Mas com aquele toque de ciúme que só quem gosta finge que não sente.
Mas isso, honestamente, não vem ao caso agora.
O que vem ao caso é que eu estou p**a da vida com Mason.
Porque aquele i****a diz que ama Lívia, mas não sabe chegar nela como um adulto funcional e simplesmente chamá-la para sair.
Claro que não.
Ele precisa armar um maldito circo.
Um espetáculo caro, barulhento e desnecessário — e, de bônus, afastar ela ainda mais.
Eu sabia que ele tinha uma queda por ela.
Sabia mesmo.
Ele próprio me contou.
Lívia e eu trabalhamos na mesma empresa.
Ela como secretária de Mason, apesar de já ter tentado outros cargos — e eu tenho quase certeza de que nunca conseguiu por obra direta dele.
E eu?
Departamento de relações internacionais.
Um trabalho chato.
Exaustivo.
Burocrático.
E, se eu for honesta comigo mesma, eu não faço ideia do que estou fazendo da minha vida.
Estou apenas seguindo.
Só não sei a quem.
Nem para onde.
Quando Mason descobriu — de alguma forma muito conveniente — que eu era amiga de Lívia e, coincidentemente, irmã de Sammy, uma das caras da empresa em termos de campanha e imagem…
Ele simplesmente montou esse plano elaborado.
E depois me contou.
Como se estivesse narrando a receita de um bolo.
Aí me diz:
como você diz ao seu chefe que ele parece um maníaco com essa ideia i****a… sem perder o emprego?
Eu tentei avisar.
Juro que tentei.
Mas ele não ouviu.
Samantha entrou nesse rolo porque ele prometeu alavancar a carreira dela.
E bem…
O resultado é esse caos elegante que vemos agora.
Minha amiga tentando evitar problemas.
Mason criando problemas.
Sammy banhando-se nas graças da mídia com o anúncio de um noivado falso.
E eu…
Tentando não surtar.
Tentando não tacar o f**a-se em tudo.
Tentando fingir que ainda tenho algum controle sobre a minha própria vida.
Enquanto assisto vídeos idiotas numa sala de espera às duas da manhã, esperando que alguém termine de trabalhar para eu poder continuar fugindo.