☆Lívia Carter ☆
Quem é que precisa de inimigos quando se tem cinco minutos, um celular desbloqueado com acesso irrestrito à internet e uma melhor amiga que, claramente, é uma devota do caos?
Summer não apenas acendeu o fósforo — ela armou a lona, ergueu o picadeiro, chamou o público e me deixou bem no centro do circo, com o nariz vermelho invisível e a dignidade em chamas. Tudo isso enquanto foi se trocar, cantarolar qualquer coisa animada e se preparar para o maldito passeio que ela organizou em meu nome, como se estivesse fazendo um favor.
E agora?
O que exatamente eu deveria fazer com essa bomba-relógio piscando no meu colo?
Eu não posso simplesmente vestir um biquíni, fingir naturalidade e ir apreciar o pôr do sol no iate do meu chefe como se nada tivesse acontecido. Isso soaria como um convite silencioso, um aceno perigoso, a confirmação muda de que estou aberta a… qualquer coisa que Mason possa estar interpretando dessas mensagens vergonhosamente sugestivas. Algo que eu não pretendo, não quero e definitivamente não autorizei.
Dou alguns passos sem rumo pela sala. Vou até a janela. Volto. Giro sobre mim mesma no meio do tapete, como se o movimento pudesse, por algum milagre físico-quântico, reorganizar meus pensamentos — que agora mais parecem um bando de pássaros histéricos se chocando contra as paredes do meu crânio, gritando corre, corre, corre sem saber para onde.
Abro a conversa com Mason de novo. Leio tudo mais uma vez, com aquela esperança infantil e patética de que as palavras tenham mudado sozinhas. De que talvez eu tenha alucinado. De que emojis indecentes não tenham brotado magicamente dos meus dedos enquanto eu dormia. Mas não. Lá estão eles. Imutáveis. Constrangedores. Criminosos contra a minha reputação.
— Talvez eu devesse mandar uma mensagem dizendo que não vou… que não fui eu quem armou esse circo todo… — murmuro, mais para o vazio do apartamento do que para mim mesma.
Digito algo sobre ter passado m*l. Apago.
Digito sobre um imprevisto de última hora. Apago de novo.
Escrevo “desculpa, houve um m*l-entendido”, mas isso soa fraco, quase culpado, como se eu estivesse admitindo algo que não fiz.
Nada convence. Tudo soa suspeito quando, minutos antes, a mesma pessoa convidou o próprio chefe noivo para um pôr do sol romântico em alto-mar usando emojis que definitivamente não constam no manual de ética corporativa.
Vou até a cozinha sem sede alguma. Abro a geladeira, encaro o nada lá dentro e fecho. Volto para a sala. Paro no meio do corredor, sendo julgada em silêncio por Sombra, que me observa do sofá com aquele olhar felino de quem já entendeu que humanos são emocionalmente instáveis, tomam decisões idiotas e depois fingem surpresa com as consequências.
— Não me olha assim. Isso é culpa da Summer — digo, apontando para ele como se meu gato fosse redigir uma ata oficial de acusação.
Bufo ao encarar meu reflexo no espelho do corredor. Eu estou a personificação do desespero, e não daquela forma charmosa que os filmes vendem. Meu cabelo está preso de qualquer jeito, embolado em um nó que vou levar séculos para desfazer, minha pele está brilhando de suor e eu estou usando o mínimo de tecido possível por um motivo muito simples: estou na minha casa e os termômetros estão flertando com os quarenta graus. Quase quarenta graus em Miami é dizer que o inferno resolveu abrir uma filial temporária no meu apartamento.
Respiro fundo, apoiando as mãos na pia, sentindo o frio do mármore contrastar com o calor que sobe pela minha espinha.
Não vai rolar.
Eu não vou.
Não hoje. Não desse jeito. Não depois desse desastre digital que atende pelo nome de Summer.
》☆☆☆《
É claro que minhas palavras não adiantam de nada, que eu sou uma completa palhaça que não sabe dizer não. Por que eu juro, eu tentei, tentei outra vez dizer que não ia.
Pelo celular claro, e foi o suficiente para minha melhor amiga entrar no modo ameaça de me dizer que me faria entrar naquele iate pelos cabelos, mesmo que eu não quisesse.
Conhecendo bem Summer, eu sei que, mesmo que eu diga que não vou, Summer tem uma disposição quase sobre-humana para me arrastar para onde quiser. É um talento, eu diria. Um dom caótico.
Resumindo: eu vou.
Mesmo não tendo planejado isso.
Mesmo odiando a ideia.
Mesmo com meu bom senso gritando socorro dentro de mim.
Sigo para o quarto em busca de algo minimamente decente para vestir, porque se ela acha — se ela sequer jura — que eu vou usar a sugestão indecente que ela deixou separada sobre a cama, ela está vivendo em uma realidade paralela. Nessa realidade, provavelmente eu também não tenho vergonha na cara.
Reviro gavetas, afasto algumas peças jogadas de qualquer jeito e encontro algo que ainda parece habitável depois da última passagem de Summer pelo meu apartamento: um conjunto em tom de verde-água e uma roupa leve para usar por cima. O tipo de escolha que não é exatamente um manifesto de sedução, mas também não é uma declaração pública de celibato.
Pego as coisas e sigo para o banheiro.
“Ah, mas você vai tomar banho de mar”, ecoa a voz imaginária de Summer na minha cabeça, naquele tom de quem acha que tudo se resolve com água salgada e exposição ao sol.
Vou tomar banho de mar.
Vou nadar.
Vou me expor ao sol.
E justamente por isso, no mínimo, eu vou proteger o meu cabelo.
Da última vez, meus cachos ficaram tão ressecados que pareciam pedir aposentadoria por invalidez.
Pego todos os produtos que vou precisar e entro no banheiro sem me preocupar em trancar a porta. Summer tem a chave — o que por si só já é uma violação ética — e, por algum motivo que ainda não superei completamente, Mason também. Considerando que ele transformou minha casa em um jardim botânico três vezes na última semana, talvez eu devesse cobrar aluguel emocional.
》☆☆☆《
Saio do banheiro enxugando o excesso de produto do cabelo, já vestida com o conjunto que escolhi e um vestido mais folgado por cima. Não sei por que não me surpreendo ao encontrar Mason sentado no meu sofá, como se aquele fosse um cenário perfeitamente normal.
É claro que ele estaria ali.
Óbvio.
Meu dia não poderia ser apenas caótico — ele precisa ser cinematográfico.
Reviro os olhos e entro no quarto, mas ouço seus passos logo atrás de mim, até pararem na porta. Pendurou a toalha em uma das araras para secar. Faço isso por puro reflexo condicionado. Se eu não fizer, minha mãe é capaz de atravessar o país só para me dar uma bronca presencial.
— Você pretende levar seus gatos? — a voz de Mason ecoa com curiosidade genuína. — O iate tem bastante espaço e…
— Mason Miller, a sua disposição para tentar assassinar meus animais é simplesmente memorável — respondo, ligando o secador e deixando o ar quente fazer o resto do trabalho.
— Eu não estou tentando fazer isso… eu só queria… — ele hesita.
Pelo espelho da penteadeira, consigo ver seus olhos me encarando com intensidade. Não é provocação. É algo mais pesado. Mais atento. Mais sério do que eu gostaria que fosse.
— Não foi você quem enviou aquela mensagem.
Ele não pergunta.
Ele afirma.
E a constatação parece ter um gosto amargo demais para ser engolida sem careta.
— Cinco minutos — digo, com uma calma ensaiada. — Foi esse o tempo que Summer ficou sozinha com o meu celular. Você pode tirar suas próprias conclusões.
A ficha cai de uma vez. O riso que escapa dele não é leve, nem divertido. É curto, seco, quase um reflexo de quem acabou de perceber que foi feito de i****a por uma força maior chamada melhor amiga inconsequente.
— Eu vou indo… isso… isso é uma merda, eu vou…
— Você não vai a canto nenhum — corto, com uma firmeza que até me surpreende. — Você prometeu um passeio de iate. Mesmo que não tenha sido eu quem enviou a mensagem.
— Espera… então você…?
— Sim, Mason. Eu vou. — viro-me para encará-lo de frente. — Não vou perder a oportunidade de curtir um pôr do sol e pegar um bom bronzeado às custas do meu chefe. Seria quase injusto recusar, não acha?
Ele não responde.
Paralisado demais para formular qualquer coisa coerente, apenas concorda com a cabeça.
Levanto-me, e percebo seus olhos varrendo meu corpo por um segundo a mais do que o socialmente aceitável. Reviro os olhos, mas ignoro.
Homens.
Reviro os olhos, já cansada demais para discutir, e tento passar por ele para voltar à sala. Preciso de ar. De espaço. De distância segura de homens altos demais e situações emocionalmente m*l explicadas.
Mas Mason se move no exato instante em que eu avanço.
O corpo dele bloqueia a porta com uma naturalidade irritante, como se aquele fosse o lugar mais óbvio do mundo para estar. Alto, largo o suficiente para transformar a saída em um conceito abstrato, ele me encara em silêncio. O quarto parece encolher ao nosso redor, as paredes se aproximando como cúmplices.
— Dá licença — digo, seca, tentando contornar seu braço.
Ele não se mexe.
Por alguns segundos, ficamos ali. Um encarando o outro, o ar pesado, carregado de coisas que não foram ditas — e talvez nunca devam ser. O secador ainda ligado faz um ruído baixo ao meu lado, um som quase constrangedor diante da intensidade daquele silêncio.
Mason dá um passo em minha direção.
Eu recuo, por instinto.
Ele avança de novo, lento, medido, como quem testa um terreno instável. Dou outro passo para trás, sentindo o coração acelerar por razões que me recuso a analisar naquele momento. O mundo parece reduzir-se ao espaço entre nós dois, uma distância pequena demais para ser confortável, grande demais para ser ignorada.
Mais um passo dele.
Mais um recuo meu.
Até que minhas costas encontram o guarda-roupa.
O impacto é suave, mas definitivo. Madeira fria contra a pele quente. Não há mais para onde ir. Estou presa entre o móvel e o homem à minha frente, e isso não é uma metáfora poética — é um fato logístico.
Mason para a poucos centímetros de mim.
Perto o suficiente para eu perceber o cheiro discreto do perfume, para notar o movimento lento do peito dele ao respirar, para ver nos olhos aquele brilho perigoso — não é descaramento, nem pura provocação. É algo mais quieto. Mais contido. Uma adoração velada, quase contida à força, como se ele estivesse segurando um impulso que não ousa nomear.