☆ Livia Carter ☆
Eu não me afasto porque me faltam forças, porque o cheiro dele se torna inebriante rápido demais, porque o meu próprio corpo parece trair qualquer resquício de razão ao se recusar a abrir mão do calor que se forma entre nós. É como se cada célula minha estivesse consciente da presença dele, como se tudo em mim respondesse antes mesmo que eu tivesse a chance de pensar.
Seus lábios deslizam por minha nuca, tocando minha pele com uma reverência perigosa, distribuindo beijos demorados, pequenas mordidas e carícias que fazem um arrepio percorrer minha coluna a cada novo toque. Meu corpo reage sem permissão, como se já conhecesse aquele caminho, como se já soubesse exatamente o que esperar… e ainda assim quisesse mais.
Isso não deveria estar acontecendo.
Quero dizer, estamos no trabalho. No escritório dele.
A qualquer momento alguém pode bater à porta. Chloe pode entrar trazendo o relatório que foi buscar, alguém pode interromper, pode ver… e transformar isso em algo muito maior do que eu posso controlar. Algo que eu definitivamente não estou pronta para enfrentar.
Eu não posso… não posso me entregar dessa forma.
É errado.
Mason é errado.
Complexo demais, intenso demais, perigoso demais para alguém como eu.
Talvez… em outro momento.
Em outra vida.
Em um possível futuro onde ele não fosse quem é… e eu não fosse quem me tornei ao redor dele.
— Mason… eu não posso, eu…
Ele não me deixa terminar.
Nunca deixa.
Uma de suas mãos desliza por minhas costas até alcançar minha nuca, se enredando em meus cabelos, e sinto seus dedos puxarem meus cachos com firmeza suficiente para inclinar minha cabeça, expondo meu pescoço completamente para ele. Não é um gesto bruto, mas também não é gentil. É possessivo… e perigosamente eficaz.
Em um reflexo que eu não consigo conter, levo minhas mãos até sua nuca, permitindo — talvez até incentivando — que ele se aproxime ainda mais, que ultrapasse aquela linha que eu passei tanto tempo fingindo que estava bem definida, que jamais seria cruzada.
Meus dedos se enroscam em seus fios loiros, trazendo-o para mais perto, porque a verdade é simples e c***l: mesmo que eu negue com palavras, meu corpo não esqueceu.
Não esqueceu o calor.
Não esqueceu a forma como ele me tocou naquela tarde de domingo, meses atrás.
Não esqueceu o que quase aconteceu.
Meu corpo ainda reage à memória dele como se fosse presente, como se cada lembrança fosse um convite perigoso para repetir tudo outra vez. E por mais que minha mente tente resistir, tente impor limites, tente lembrar todos os motivos pelos quais isso é uma péssima ideia… há uma parte de mim que ainda quer saber.
Que ainda quer sentir.
Mesmo sabendo que ele pode ser insuportável, arrogante, completamente impossível na maior parte do tempo.
Ainda assim… eu quero.
Minha mente trai a razão ao imaginar como teria sido ir até o fim naquele dia, como teria sido ceder completamente, abandonar qualquer controle e me permitir cair nessa loucura que nos cerca há meses. E a pior parte… é perceber o quão perto estou de simplesmente parar de lutar contra isso.
De ignorar tudo.
De deixar acontecer.
Mason intensifica os beijos, sua respiração mais pesada contra minha pele, seu corpo se aproximando ainda mais do meu, eliminando qualquer espaço restante entre nós. O calor cresce, se espalha, me envolve, e eu fecho os olhos por um instante, permitindo-me sentir, mesmo sabendo que não deveria.
Seus lábios continuam explorando minha pele com uma avidez contida, como se ele estivesse constantemente à beira de perder o controle… mas ainda assim segurando algo. Ele não toca minha boca. Não cruza essa linha.
E isso, mais do que qualquer outra coisa, me desarma.
Como se aquele fosse o único limite que ele se recusa a ultrapassar sem que eu permita.
Como se, no meio de todo o caos que ele é… ainda existisse uma regra.
Seus lábios retornam à minha nuca, quentes, insistentes, enquanto ele murmura algo baixo demais para que eu compreenda, palavras desconexas que soam mais como um desabafo do que qualquer outra coisa.
— Por que… — ele sussurra contra minha pele, a voz baixa, rouca, quase falhando enquanto seus lábios continuam distribuindo beijos demorados por toda a extensão da minha nuca. — Por que sorriu para ele, Lívia… por que o meu irmão… por que Christopher…
Seu aperto em minha cintura se intensifica, firme o suficiente para me manter presa ali, como se temesse que eu desaparecesse no segundo seguinte. Seus beijos se tornam mais urgentes, menos controlados, carregados de algo que vai muito além do desejo.
— Por que dar uma chance a ele enquanto eu espero… — continua, a voz embargando levemente entre uma palavra e outra, como se estivesse revelando algo que guardou por tempo demais. — Por tanto tempo, Lívia…
Seus lábios deslizam lentamente até meu ouvido, e quando ele prende suavemente o lóbulo entre os dentes, há algo naquele gesto que não é apenas provocação… é frustração, é posse contida, é um pedido disfarçado de exigência.
— Não é justo… — ele murmura, quase para si mesmo, a respiração quente contra minha pele me fazendo fechar os olhos por um instante. — Eu te quero há tanto tempo, amor… antes de tudo isso começar, antes mesmo de você pisar o pé nessa empresa pela primeira vez… eu te vi primeiro… eu te quis primeiro… então por que… — sua voz falha por um segundo, e quando ele continua, há algo cru ali, algo exposto demais — por que você não consegue me olhar da forma que olha para ele…
As palavras dele me atingem como um golpe seco, direto, roubando o ar dos meus pulmões.
Meu corpo reage antes da minha mente.
E antes que eu consiga organizar qualquer pensamento coerente, encontro forças — não sei de onde — para empurrá-lo para longe.
O contato se quebra de forma abrupta.
Fria.
Real.
Respiro fundo, uma, duas, três vezes, tentando recuperar o controle que claramente já não tenho, enquanto levanto o olhar para encará-lo.
Mason está… desfeito.
Seus cabelos estão levemente bagunçados, a camisa social cinza amarrotada, desalinhada, como se ele tivesse perdido a noção de si mesmo há minutos atrás. Seus lábios estão inchados, avermelhados pelos beijos que deixou em minha pele, e sua respiração ainda carrega o ritmo acelerado de alguém que esteve à beira de ultrapassar um limite.
Mas não é isso que me prende.
São os olhos dele.
Há dor ali.
Aberta.
Escancarada.
Sem máscara.
Ele passa as mãos pelo rosto, como se tentasse se recompor, como se quisesse apagar qualquer vestígio do que acabou de acontecer, mas é inútil. Nada na postura dele agora transmite controle.
Nada.
E ainda assim… ele não desvia o olhar.
— Mason… — minha voz sai mais baixa do que eu gostaria, quase um sussurro, carregada de algo que eu não sei nomear enquanto continuo encarando-o. — O que quis dizer com “me viu primeiro”? O que significaram aquelas palavras? O que quis dizer com me querer antes mesmo que eu pisasse o pé nessa empresa…
Ele hesita.
E isso, vindo dele… diz muito.
— Eu me equivoquei… — responde por fim, a voz mais contida, mais distante, como se estivesse recuando para dentro de si mesmo. — Me deixei levar… eu peço que perdoe minhas atitudes, Lívia… eu não deveria…
Ele interrompe a própria frase, passando novamente as mãos pelo rosto, dessa vez com mais força, como se estivesse tentando recuperar o controle à força.
— Você está certa… — continua, mais baixo, mais duro agora, como se cada palavra fosse um esforço consciente. — Eu não tenho o direito de te dizer o que fazer… eu não posso te forçar a nada.
Ele ri sem humor, um som breve, amargo.
— p***a… eu não posso, Lívia… — seus olhos voltam para os meus, e a intensidade ali ainda está presente, ainda que agora venha misturada a algo quebrado. — Mesmo te querendo mais do que tudo nessa vida… eu não posso te forçar a ser minha.
E, pela primeira vez desde que entrei naquele escritório… Mason Miller parece um homem que perdeu.
— Mason… o que você…
— Por favor, Lívia, apenas esqueça o que eu disse, certo? — a voz dele ecoa, mais séria do que antes, mais contida, e ainda assim carregada de algo que faz meu estômago revirar de leve. Não é irritação. Não é arrogância. É algo mais fundo. — Esqueça minha agenda… desmarque tudo. Eu não quero ver ninguém hoje. Apenas me deixe sozinho.
Franzo o cenho, dando um passo à frente sem perceber, como se aquela mudança brusca nele me puxasse junto.
— Mason, o que diabos aconteceu? — digo, tentando manter a firmeza na voz, ainda que ela não soe tão estável quanto eu gostaria. — Eu só fiz uma pergunta…
— Você não entenderia, amor. — ele responde, e o tom volta a baixar, perigoso, íntimo demais para o contexto. Seus olhos se fixam nos meus, e há algo ali… algo vulnerável, exposto, que me atinge de um jeito que eu não queria sentir. — Tudo o que precisa saber é que eu não estou mentindo. Eu faria qualquer coisa para ter uma noite com você, Lívia… qualquer coisa.
Um pequeno sorriso surge em seus lábios, lento, calculado, como se ele vestisse novamente aquela máscara de sempre, como se estivesse tentando esconder tudo o que escapou segundos atrás. E eu… eu empurro para o fundo da mente qualquer traço de preocupação, qualquer dúvida, qualquer suspeita que insiste em crescer dentro de mim.
Porque eu vou descobrir.
De um jeito ou de outro.
E, por enquanto… eu posso jogar.
— Qualquer coisa, é? — pergunto, deixando minha voz descer alguns tons, mais suave, mais provocativa do que deveria. — Você é bom com negociações, Mason… vejamos se me convence.
Os olhos dele brilham de imediato.
— O que você quiser, amor… — há um toque de ansiedade ali, sutil, mas inegável, e isso me faz sorrir de verdade dessa vez.
Dou um pequeno passo, cruzando os braços com falsa casualidade.
— Pois bem, já que está sendo tão generoso… acho que posso usufruir um pouco da sua bondade. — digo, mantendo o sorriso. — Talvez um carro novo seria bom. Estou cansada de pegar transporte público todos os dias… férias nas Maldivas… um novo apartamento, quem sabe uma cobertura… alguns milhares de dólares na minha conta… e ações da empresa… acho que isso deve…
— Considere feito.
Ele não me deixa terminar.
Não hesita.
Não questiona.
A resposta vem imediata, limpa, como se eu tivesse pedido algo trivial.
Por um segundo, eu apenas o encaro.
— Você sabe que eu não estou falando sério, certo? — digo, agora mais firme, mais direta, esperando qualquer sinal de recuo.
— Nem eu, amor… — ele responde com a mesma tranquilidade irritante. — Você me pediu, eu vou fazer. Afinal… o que são duzentos mil na sua conta até amanhã? Não é grande coisa.
As palavras dele caem com uma naturalidade absurda, como se estivéssemos discutindo o clima e não uma quantia que faria qualquer pessoa parar para pensar duas vezes.
E é nesse momento que a certeza me atinge.
Ele não está brincando.
— Mason, eu já falei… eu não falei sério. — reforço, sustentando o olhar dele. — Eu vou… eu vou pensar sobre o seu pedido.
Há uma breve mudança na expressão dele, quase imperceptível, como se aquela resposta não fosse exatamente o que ele queria… mas ainda assim aceitável.
— Almoça comigo hoje? — ele pergunta de repente, mudando de assunto com uma facilidade desconcertante, como se nada daquilo tivesse acontecido. — Você escolhe… pode ser em algum restaurante ou apenas aqui na sala.
Solto um suspiro baixo, tentando reorganizar os pensamentos.
— Eu vou pensar, Mason. Agora eu preciso voltar, cancelar suas reuniões e remarcá-las.
— Esqueça isso. — ele diz, fazendo um gesto despreocupado com a mão, descartando completamente o assunto. — Pegue suas coisas… estamos indo à concessionária escolher seu carro.
Balanço a cabeça em negativa imediatamente, ajeitando o vestido que ainda guarda marcas sutis do que acabou de acontecer, recuperando aos poucos a postura profissional que quase deixei escapar.
Pego o tablet com a agenda dele, firmando-o contra o corpo antes de encará-lo por um breve momento.
— Você deveria ser comediante, Mason. — digo, deixando um leve sorriso escapar, mais controlado dessa vez. — Até o almoço, senhor Miller.
Viro-me sem esperar resposta e saio do cômodo, sentindo o peso do olhar dele ainda sobre mim enquanto caminho pelo corredor.
E mesmo colocando distância entre nós… minha mente não me dá trégua.
Porque agora eu tenho mais perguntas do que respostas.
E uma, em especial, não para de ecoar.
O que ele quis dizer… quando disse que me viu muito antes de eu sequer pisar naquela empresa?