Charlotte Spencer
Acordei com a sensação de que algo em mim havia mudado. O sonho ainda estava vívido na minha mente, tão real que eu podia quase sentir o calor do toque dele, o som grave da sua voz ecoando em meus ouvidos. Nunca me senti assim antes — acordar com o corpo formigando, o coração acelerado e uma inquietação que não sabia nomear. Ele não era apenas um sonho; era um desejo que eu nunca soube que tinha.
Enquanto fazia minha rotina matinal, sua imagem continuava me assombrando. Os cabelos vermelhos, o sorriso predatório, o olhar intenso que parecia prometer desvendá-la e destruí-la ao mesmo tempo. Ele era o tipo de homem que nunca encontrei na realidade — alguém que parecia feito para desmoronar o mundo de quem se atrevesse a se aproximar. Eu não o conhecia, mas queria conhecê-lo. Não sabia de onde vinha aquela vontade insana, mas ela estava ali, pulsando sob minha pele como uma segunda vida.
Na universidade, tentei focar nas aulas, mas cada página dos livros parecia trazer ecos do sonho. Nas discussões sobre literatura gótica, cada palavra soava como um lembrete daquele olhar, daquele toque. Voltei para casa exausta, mas não era um cansaço físico. Era como se algo dentro de mim estivesse se expandindo, me empurrando para uma versão de mim mesma que eu não entendia.
Meu apartamento era pequeno, mas tinha uma personalidade peculiar, muito mais uma extensão da minha avó do que de mim. Evelyn havia insistido em me ajudar a decorar, enchendo o lugar com cortinas de renda branca, vasos de plantas nos parapeitos das janelas e almofadas bordadas. Mas a minha parte estava ali também: prateleiras abarrotadas de livros antigos, algumas velas espalhadas aqui e ali, e o crucifixo na parede, que parecia observar tudo como uma sentinela silenciosa.
A noite caiu cedo, como sempre em Red Hollow, e o som da chuva fina contra a janela me convidava ao isolamento. Decidi relaxar. Preparei um banho quente, acendi algumas velas ao redor da banheira e deixei que a água quente aliviasse a tensão acumulada no meu corpo. A luz tremulante das velas lançava sombras dançantes pelas paredes, criando um jogo de luz e escuridão que parecia me envolver.
O diário estava ali, sobre a bancada ao lado da banheira. Eu não planejava abri-lo, mas ele parecia me chamar. Havia algo nele que não me deixava em paz, como se quisesse ser lido, como se tivesse algo para me dizer. Com as mãos ainda molhadas, deslizei os dedos sobre a capa de couro e a abri, deixando que as páginas se desdobrassem por conta própria.
Os textos eram fascinantes. Alguns trechos falavam de coisas que eu m*l compreendia, mas que pareciam sussurrar segredos antigos, coisas que nunca deveriam ser reveladas. Então, meus olhos pousaram em uma página específica. As palavras ali eram diferentes. A caligrafia parecia mais firme, como se cada letra tivesse sido gravada com propósito. Era um poema, ou pelo menos parecia ser.
"Lux in tenebris.
Ex umbris ad lucem.
Sanguis, vita, anima.
Invoco vinculum aeternum."
As palavras eram escritas em latim, um idioma que eu reconhecia apenas pelo som, mas elas pareciam me alcançar de forma diferente, como se as compreendesse em um nível visceral. Era como uma música que eu já conhecia, mesmo sem nunca tê-la ouvido.
Sem perceber, comecei a recitá-las. A princípio, minha voz era baixa, quase um sussurro, mas à medida que as palavras fluíam, elas ganhavam força. Cada sílaba parecia vibrar no ar ao meu redor, e a luz das velas começou a piscar.
"Luz nas trevas.
Das sombras para a luz.
Sangue, vida, alma.
Eu invoco o vínculo eterno."
Assim que terminei, algo mudou. O ambiente ficou mais frio, a água da banheira parecia pesar mais, como se quisesse me prender ali. As chamas das velas tremularam violentamente antes de apagarem todas ao mesmo tempo, deixando-me envolta em uma escuridão sufocante. O som da chuva lá fora ficou distante, quase inaudível, substituído por um silêncio absoluto que parecia pulsar com vida própria.
— O que está acontecendo? — sussurrei, minha voz soando fraca e perdida.
Então eu senti. Era como se o próprio ar tivesse ganhado densidade, pressionando contra minha pele. Uma energia desconhecida parecia preencher o quarto, rastejando pelas paredes, pelo chão, até alcançar a banheira. Minhas mãos agarraram as bordas, o coração batendo descontroladamente.
O diário caiu no chão com um som seco, suas páginas se abrindo ao acaso, mas eu não conseguia me mover para pegá-lo. Era como se o mundo ao meu redor tivesse se transformado em algo... diferente. Algo que eu não podia ver, mas que sabia estar ali.
Uma palavra ecoava na minha mente, como se tivesse sido plantada ali por algo ou alguém.
Vínculo.
Eu estava conectada a alguma coisa, algo além da minha compreensão. O vazio ao meu redor parecia pulsar, como se estivesse vivo, respirando, esperando.
Tentei me levantar da banheira, mas meu corpo estava pesado, e minha visão parecia turva. O som de batidas — ritmadas, firmes, como o bater de um coração gigante — encheu o ambiente. Não sabia se vinha de dentro de mim ou de algum lugar além.
E então, tão rápido quanto começou, tudo parou.
As velas se acenderam novamente, como se nada tivesse acontecido. A água da banheira estava calma, mas meu coração ainda estava acelerado, como se tivesse corrido quilômetros. Peguei o diário com as mãos trêmulas e o fechei, colocando-o de volta na bancada.
— Foi só a minha imaginação — murmurei para mim mesma, tentando convencer a única pessoa que sabia a verdade.
Mas no fundo, eu sabia. Algo havia sido desencadeado. Algo que não seria facilmente contido.
O coração ainda martelava no peito enquanto eu me levantava da banheira, a água quente escorrendo pela pele. Segurei uma toalha felpuda contra o corpo, tentando me reconectar com a realidade. "Não é nada," pensei. "Você está apenas cansada." Era mais fácil acreditar nisso do que enfrentar a ideia de que algo inexplicável havia acontecido.
Enquanto me secava, olhei para o espelho do banheiro. Meu reflexo parecia diferente. Não fisicamente, mas havia algo nos meus olhos, um brilho que eu nunca tinha notado antes.
— Você está ficando louca, Charlotte — sussurrei, quase rindo de mim mesma.
Pensei no diário. Pensar naquelas palavras em latim fazia minha pele arrepiar, mas ao invés de ceder ao medo, decidi brincar com minha própria situação. Eu estava sozinha, afinal. Se não pudesse rir de mim mesma, o que me restava?
— Bem, pelo menos tenho bom gosto para alucinações. Quem mais sonha com homens bonitos de jaqueta de couro e cabelos vermelhos? — falei em voz alta, para ninguém além das paredes do meu apartamento.
A ideia dele me fez sorrir, apesar do desconforto que ainda sentia. Eu me lembrei dos olhos âmbar que pareciam despir minha alma e do toque que tinha sido tão real que até agora podia senti-lo. E então, me ocorreu uma ideia absurda, mas irresistível: se ele era um produto da minha mente, talvez pudesse voltar para mim nos meus sonhos.
Decidi me preparar como se fosse encontrar alguém especial — mesmo que esse alguém existisse apenas na minha imaginação.
Meu apartamento, pequeno e humilde, se tornava aconchegante à noite, quando as luzes fracas das luminárias e velas faziam tudo parecer mais caloroso. O chão de madeira rangia levemente enquanto eu caminhava para o quarto, a toalha ainda enrolada no corpo. Meu guarda-roupa era um reflexo da minha vida simples, cheio de roupas práticas e confortáveis, mas naquela noite, decidi fazer algo diferente.
Peguei um pijama de cetim azul claro que raramente usava. Era um presente da minha avó, que dizia que uma mulher sempre deveria ter algo bonito, mesmo que fosse só para ela. Vesti-o lentamente, o tecido macio deslizando pela pele. Penteei o cabelo com cuidado, deixando-o solto em ondas que caíam sobre os ombros. Passei um hidratante com um leve perfume floral, sentindo o aroma suavizar a tensão que ainda restava no meu peito.
Deitei-me na cama com mais velas acesas do que o necessário, mas o jogo de luz e sombra me acalmava. O diário estava sobre a mesa de cabeceira, fechado, mas sua presença parecia pesar no ambiente. Olhei para ele, e um sorriso irônico surgiu em meus lábios.
— Quem sabe você não me traz de volta o homem bonito de cabelos vermelhos? — brinquei, cruzando os braços atrás da cabeça.
A solidão, que às vezes parecia esmagadora, naquela noite se tornou quase reconfortante. Eu podia ser ridícula, rir sozinha e imaginar coisas impossíveis sem ninguém para me julgar.
Por um momento, pensei na minha avó e nas palavras dela: Deus testa aqueles que ama. Talvez eu estivesse sendo testada. Ou talvez estivesse apenas... mudando. Sentia algo diferente, como se uma parte adormecida de mim tivesse despertado.
Os olhos começaram a pesar, e minha mente se entregou lentamente ao sono. Apesar de tudo o que aconteceu, meu coração estava leve, cheio de uma expectativa boba e doce. Se aquele homem era fruto da minha imaginação, eu o queria de volta. Queria seus olhos ardentes e seu sorriso predatório.