Capítulo 3 - O Demônio na Terra

1823 Words
Charlotte Spencer O sono me envolveu como uma neblina densa e quente. Em algum ponto da noite, o mundo ao meu redor começou a mudar. Não era um sonho comum, tampouco a realidade como eu a conhecia. Eu sentia calor. Um calor sufocante que parecia emanar do próprio ar, como se o quarto estivesse se transformando em uma fornalha. Minhas pálpebras estavam pesadas demais para se abrir, mas eu podia sentir o calor se intensificando. Minha pele parecia queimar, não de dor, mas de uma febre súbita que fazia meu coração disparar. Era como se o próprio ar estivesse em chamas, denso e quente, envolvendo cada parte de mim. Lutei para abrir os olhos, certa de que veria algo errado — talvez fogo, talvez o teto desabando — mas quando finalmente consegui, tudo estava exatamente como antes. O quarto permanecia em silêncio, as velas já apagadas, e a única luz vinha da lua fraca filtrada pelas cortinas. "É a minha imaginação," pensei, tentando me acalmar. Mas o calor não cedia. O tecido do pijama parecia insuportável contra a pele, como se amplificasse a sensação sufocante. Com um movimento impaciente, puxei a blusa de cetim sobre a cabeça e a joguei no chão. A calça seguiu o mesmo destino, junto com o cobertor que parecia me aprisionar. Agora nua, deitei-me novamente, encostando a testa contra o travesseiro fresco, tentando dissipar a febre que dominava meu corpo. A sensação do lençol frio contra minha pele me trouxe algum alívio, mas havia algo mais, uma presença que eu não conseguia identificar. De repente, um arrepio percorreu minha espinha. Não era um arrepio de frio, mas algo mais profundo, como se alguém tivesse soprado em minha nuca. Minha pele se arrepiou inteira, e eu me encolhi instintivamente. Foi então que ouvi uma voz. — Olá. Me desculpe se te assustei. Meu coração parou por um instante. A voz era baixa, rouca e carregada de um charme que fazia cada palavra parecer uma carícia. — Perdi a concentração enquanto admirava o seu corpo nu. É bastante trabalhoso manter-se invisível em algumas situações. Minha respiração ficou presa na garganta. Meus olhos se abriram de imediato, e lá estava ele. De pé, encostado à parede, ele parecia tão fora de lugar quanto uma pintura renascentista em uma galeria moderna. Ele usava a mesma jaqueta de couro que eu lembrava do meu sonho, ajustada perfeitamente ao seu corpo. Os cabelos vermelhos caíam em mechas desordenadas sobre sua testa, brilhando sob a luz fraca do luar. E os olhos... aqueles olhos âmbar profundos estavam fixos em mim com uma intensidade que fazia meu sangue ferver novamente. — Quem é você? — sussurrei, minha voz trêmula, como se não conseguisse acreditar no que via. Ele sorriu. Um sorriso preguiçoso, quase indulgente, que revelou dentes brancos e perfeitos. — Você sabe quem eu sou. Meu coração batia descontroladamente enquanto lutava para juntar as peças. Ele era o homem do sonho, o homem que parecia ter saído diretamente das profundezas do meu desejo mais obscuro. Mas isso era impossível. Não havia como ele estar aqui, no meu quarto. — Você invadiu o meu apartamento? — perguntei, tentando desesperadamente racionalizar sua presença. Ele ergueu uma sobrancelha, como se estivesse genuinamente surpreso com a acusação. — Invadi? Não. Você me chamou. — Cham... o quê? Não, eu não chamei ninguém. Ele deu um passo à frente, saindo das sombras e revelando-se por completo. Era ainda mais bonito do que no sonho, se isso era possível. Cada detalhe, desde os traços fortes de seu rosto até a maneira como ele caminhava, irradiava confiança e poder. — Não se preocupe — ele disse, a voz carregada de charme e algo mais, algo predatório. — Eu não pretendo machucá-la. Pelo menos, não se você não quiser. Meu rosto ardeu com a insinuação, e me enrolei no lençol, cobrindo-me instintivamente. Ele riu suavemente, o som rico e quase musical, como se minha reação o divertisse. — Não seja tímida, Charlotte. Já vi tudo o que havia para ver. — Como você sabe meu nome? — exigi, ignorando o calor em meu rosto e tentando recuperar algum controle da situação. — Porque você me chamou, como eu disse. — Ele apontou para a mesa de cabeceira. — Aquele diário... foi o canal. Suas palavras abriram a porta. Olhei para onde ele indicava e vi o diário fechado, tão inofensivo quanto antes. — Você... você é do diário? — perguntei, sentindo o pânico crescer. Ele riu novamente, mas dessa vez, havia algo sombrio na sua risada. — Digamos que o diário foi uma ponte. Mas eu sou muito mais do que páginas e tinta. Meu corpo inteiro tremia, mas não sabia se era de medo ou de outra coisa. Ele se aproximou lentamente, parando ao pé da cama, e se inclinou ligeiramente, os olhos fixos nos meus. Minha mente estava em um turbilhão, tentando encontrar algum sentido naquilo. Ele estava ali, no meu quarto, tão real quanto o calor que ainda parecia impregnar o ar. Mas nada fazia sentido. Nada. Eu me enrolei no lençol, apertando-o contra o corpo como se fosse um escudo, tentando afastar a vulnerabilidade que sua presença evocava. — Eu quero que você saia do meu apartamento — exigi, minha voz soando mais firme do que eu me sentia. Ele ergueu as sobrancelhas, como se minhas palavras fossem um insulto ou, pior, uma piada. Em vez de se afastar, ele deu mais um passo em minha direção. Cada movimento dele era calculado, como o de um predador que sabia que a presa já estava encurralada. — Sair? — Sua voz era tão baixa que parecia roçar minha pele. Ele inclinou a cabeça, os olhos âmbar brilhando de maneira perigosa. — Você realmente acha que eu vim até aqui para simplesmente... ir embora? Meu coração disparou, e eu puxei o lençol mais para cima, como se isso pudesse protegê-la de alguma coisa. — Eu não sei quem você pensa que é, mas... Ele riu, interrompendo-me, e o som me fez estremecer. Não era uma risada de diversão; era algo mais sombrio, algo que fazia meu corpo se arrepiar inteiro. — Não sabe quem eu sou? — Ele deu mais um passo, e agora estava tão perto que eu podia sentir o calor emanando dele, uma presença avassaladora que fazia o quarto parecer menor. Ele inclinou a cabeça, me estudando, como se cada detalhe fosse fascinante. — Então o que me trouxe aqui? O que há de tão especial em você, Charlotte? Ele estendeu a mão, e por um momento achei que fosse tocar meu rosto. Mas sua mão pairou no ar, como se saboreasse a distância. Seus olhos âmbar se estreitaram levemente, e uma linha fina se formou entre suas sobrancelhas, como se ele estivesse irritado consigo mesmo. — É o seu cheiro? — perguntou, inclinando-se ligeiramente para mais perto. Ele inspirou profundamente, como se estivesse saboreando o ar ao meu redor. — Doce, mas com algo mais. Algo único. Minha garganta secou, e o pavor começou a se misturar com outra coisa — uma sensação que eu não queria nomear. — Ou talvez seja sua pele. — Ele inclinou a cabeça, os olhos percorrendo cada centímetro visível de mim, sua voz pingando com algo entre raiva e fascínio. — Macia como seda, como se tivesse sido feita para ser tocada. — Pare com isso! — gritei, minha voz falhando ligeiramente. Mas ele não parou. Se inclinou mais perto, o calor do seu corpo quase tocando o meu. Sua presença era sufocante, mas havia algo nele que me fazia querer... ceder. — E esses cabelos dourados? — Ele estendeu uma mecha solta do meu cabelo entre os dedos, sua mão quente o suficiente para que eu sentisse a diferença mesmo sem contato direto. — Parecem fios de luz. Você não é nem um pouco comum, Charlotte. Eu estava paralisada, mas ele ainda não havia terminado. Seus olhos, brilhando como brasas, se fixaram nos meus, e o sorriso predatório voltou a seus lábios. — E esses olhos. — Sua voz ficou mais baixa, quase um sussurro. — Olhos azuis como os de um maldito anjo. Minha respiração ficou presa, e por um momento ele ficou em silêncio, apenas me observando. Havia algo em seu olhar que parecia estar à beira de explodir, como uma tempestade contida. — É isso — ele disse finalmente, sua voz carregada de uma fúria controlada. — Você parece um anjo. Mas eu sinto... sinto que há algo mais em você. Algo que me puxa, mesmo quando deveria me repelir. Sua voz tremeu levemente, e sua mão caiu ao lado do corpo, fechada em um punho. Por um breve momento, ele parecia estar lutando consigo mesmo, como se não soubesse se deveria me odiar ou me desejar. Eu não sabia o que dizer ou fazer. O pavor ainda pulsava em mim, mas também havia algo mais. Algo que fazia meu corpo responder de maneiras que eu não queria admitir. Ele era assustador, sim, mas havia algo em sua intensidade que me atraía como um ímã. — Por que você está aqui? — perguntei finalmente, minha voz baixa, mas firme. Ele sorriu novamente, mas desta vez o sorriso era mais contido, mais perigoso. — Eu já disse. Você me chamou... A tensão no quarto era palpável, pesada como a própria gravidade. Eu não sabia o que era mais insuportável — o medo que ele despertava ou a curiosidade sombria que me fazia querer saber mais. Tudo em mim gritava para manter distância, mas meus dedos se moveram antes que minha mente pudesse detê-los. Minha mão tremia enquanto se aproximava do rosto dele, uma tentativa desesperada de confirmar sua existência. Minha respiração era curta e irregular, e meu coração martelava tão alto que m*l podia ouvir meus pensamentos. — Você é real? — minha voz saiu como um sussurro quebrado, carregado de incredulidade e algo que não queria admitir. Ele não se moveu. Apenas ficou ali, os olhos âmbar fixos nos meus, como se estivesse esperando para ver até onde eu teria coragem de ir. Havia algo em sua expressão que me confundia — uma mistura de desafio e aceitação, como se ele quisesse que eu tocasse, mas ao mesmo tempo soubesse que isso seria impossível. Quando meus dedos estavam a centímetros de sua pele, ele sorriu. Não o sorriso predatório de antes, mas algo mais sombrio, quase triste. — Você nunca saberá — disse ele, a voz baixa e suave, mas carregada de uma profundidade que me fez hesitar. Antes que minha mão pudesse alcançar sua pele, ele simplesmente... desapareceu. Não houve som, nem movimento. Era como se ele nunca tivesse estado ali. O espaço onde ele estava agora parecia vazio, mas ainda carregado com o calor e a energia que ele havia deixado para trás. Meu braço permaneceu estendido por um momento, tremendo no ar vazio, enquanto minha mente tentava acompanhar o que havia acabado de acontecer.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD