Diário de Samael
13 de Novembro, Red Hollow, 02h43
Como é curioso o destino — um demônio caído, outrora temido e reverenciado, agora enjaulado em um corpo mortal. Não por correntes, não por magia ancestral ou pela vontade divina, mas por uma criatura frágil de pele delicada e feições angelicais. Um ser humano. Charlotte Spencer.
Deixe-me começar do princípio. Minha existência nas profundezas do submundo era, até então, uma eternidade de monotonia e vazio. O submundo... como posso descrevê-lo? Imagine um local onde não há som, mas o eco do que poderia ter sido; onde as sombras não dançam, mas se arrastam, como espectros exilados. Não há horizonte, apenas escuridão líquida que consome tudo e todos. Um vazio sem forma, sem propósito. Eu, Samael, o primeiro a cair, fui relegado a essa prisão de sombras, um castigo por minha arrogância e, claro, pela rebeldia que ousa contestar as regras de um Criador silencioso.
No submundo, o tempo é irrelevante. Os dias não começam nem terminam. Apenas existem. Não há dor, mas também não há prazer. Apenas um nada eterno que, aos poucos, corrói a mente e a alma. Eu suportei esse vazio até o momento em que uma brecha foi criada. E então... ouvi a voz dela.
Não, a princípio não era uma voz, mas um murmúrio. Palavras em uma língua antiga, balbuciadas com hesitação. E então veio a frase fatal, a chave que abriu o portal entre o vazio e o mundo humano. Lux in tenebris. Das sombras para a luz. A luz me queimou quando fui arrancado do submundo, como uma lâmina quente atravessando a carne. Mas eu não me importava. Eu estava livre. Ou assim pensei.
14 de Novembro, Red Hollow, 03h17
Liberdade é um conceito enganoso. No instante em que atravessei o véu para o mundo humano, percebi que minha existência havia sido reduzida a um vínculo. Eu podia sentir a corda invisível me puxando, arrastando-me para ela — Charlotte Spencer. Minha invocadora. Minha prisão.
Eu sabia o que precisava fazer. É simples, de fato. Para quebrar o vínculo e caminhar livremente sobre a Terra, eu deveria destruir a pessoa que me invocou. Um ato fácil, quase automático. Já fiz isso antes, inúmeras vezes, com aqueles tolos que ousaram me chamar. Humanos são frágeis. Ossos estalam como gravetos sob minhas mãos, e seus gritos são pouco mais que música para meus ouvidos.
Mas com ela... não foi assim.
Quando a vi pela primeira vez, confesso, hesitei. Não por medo, nem por misericórdia — atributos que estão muito longe de mim. Não. Foi algo mais primitivo. Algo que eu não queria admitir.
Ela estava deitada, enroscada em um lençol branco, como um anjo caído que havia se perdido em um mundo de mortais. Sua pele era de uma palidez etérea, quase translúcida sob a luz suave da lua. Seu cabelo dourado espalhava-se como uma coroa quebrada sobre o travesseiro, e seus olhos... malditos olhos azuis. Azuis como os céus que me foram negados.
Tudo nela me enojava. Sua fragilidade, sua quietude, seu cheiro doce que parecia implorar por p******o. Feições angelicais em um mundo onde anjos não têm lugar. Ela era, em todos os sentidos, o oposto do que eu deveria venerar ou respeitar.
E, no entanto, não consegui esmagá-la.
Por quê? Essa é a pergunta que me atormenta. Será que minha hesitação foi causada pela fraqueza que o vínculo inflige em mim? Ou foi algo mais? Desejo? Não, não pode ser isso. Eu desprezo tudo o que ela representa. Mas ao mesmo tempo...
Eu a quero.
Sim, admito, mesmo que apenas para estas páginas. Eu quero destruí-la, mas também quero possuí-la. Quero desfazer cada fio da sua existência enquanto me afundo nela. E essa contradição é uma tortura que nunca experimentei antes.
Agora estou preso a ela. Sinto o vínculo pulsar entre nós, como um fio invisível que nunca pode ser cortado. É uma prisão diferente do submundo, mas não menos c***l.
Charlotte Spencer, você será minha ruína. Ou talvez... eu seja a sua.
Fim
Samael
O mundo humano tem um cheiro peculiar — algo entre ferro e vida, sangue e promessas quebradas. Cada respiração parece carregada com uma energia que eu não sentia há eras. Mas também há fraqueza, uma suavidade em tudo que me enoja. As cidades são escuras, mas não como o submundo. Lá, a escuridão é infinita, uma ausência completa de luz. Aqui, ela é pontuada por neon, fumaça de cigarro e sussurros de humanidade.
Depois de fugir daquele apartamento — daquele quarto onde minha fraqueza nasceu com olhos azuis e cabelos dourados —, senti a necessidade de me reconectar com o que eu era. Precisava explorar este mundo, entendê-lo, sentir sua pulsação. Mas o vínculo... ah, o maldito vínculo. Ele pulsava em mim, como uma corrente invisível me puxando de volta para ela. Quanto mais eu me afastava, mais fraco me sentia. Era como se algo vital estivesse sendo arrancado de mim.
Eu precisava ignorar.
Encontrei uma Harley Davidson estacionada perto de um beco m*l iluminado. Uma máquina imponente, n***a como o céu sem estrelas do submundo. O dono — um homem corpulento e de meia-idade — estava inclinado sobre ela, conferindo algo no motor. Sorri. Um sorriso que sabia que seria minha marca neste novo mundo. Ele ergueu os olhos, confuso, mas antes que pudesse reagir, eu já havia avançado.
— Desculpe, amigo, mas vou precisar disso.
Toquei sua testa com dois dedos, e sua mente apagou como uma vela ao vento. Ele desabou no chão com um grunhido pesado. Humanos são pateticamente fáceis de manipular. Um simples toque e eu posso controlar suas mentes, seus corpos... suas almas. Claro, no estado em que estou, não seria prudente gastar energia assim. Mas esta máquina era necessária, um sacrifício justificável.
Subi na moto, a jaqueta de couro rangendo enquanto minhas mãos seguravam o guidão. Liguei o motor, e o rugido me fez sorrir novamente. Ah, como é bom sentir algo tangível, algo que responde ao meu comando sem hesitação. Puxei o acelerador, e a Harley me lançou para frente como uma fera obediente.
As ruas de Red Hollow eram um mosaico de decadência e beleza esquecida. As lâmpadas de vapor de sódio projetavam uma luz amarela sobre as calçadas rachadas, e as janelas das lojas estavam cobertas de poeira e pôsteres desbotados. A cidade tinha um charme sujo, um tipo de abandono que eu podia respeitar. Não era celestial, mas também não era o inferno. Era um meio-termo. Um limbo.
Depois de rodar pelas ruas por algum tempo, avistei um pub no final de uma rua estreita. As luzes internas estavam fracas, e a placa de "fechado" pendia de forma preguiçosa na porta. Mas o som de um violão ainda escapava do interior, misturado com o barulho de copos sendo empilhados.
Estacionei a Harley e entrei. A porta rangeu, e o barman, um homem magro com olhar cansado, ergueu a cabeça com uma mistura de irritação e cansaço.
— Já fechamos.
— Não para mim — respondi, minha voz carregada com uma suavidade ameaçadora.
Ele hesitou, mas um simples olhar meu foi suficiente para fazê-lo recuar. Meus olhos são uma arma que raramente preciso usar, mas quando o faço, é sempre eficaz.
No canto, três músicos estavam guardando seus instrumentos. Um deles segurava um violão, o outro um contrabaixo, e o terceiro, um saxofone. Pareciam exaustos, mas isso não me importava.
— Continuem — ordenei, caminhando até uma mesa próxima e me jogando em uma cadeira. — Quero música.
O homem com o violão olhou para mim, confuso.
— O que...? Amigo, estamos fechando.
Ergui uma sobrancelha, e ele se calou.
— Não perguntei se queriam tocar. Eu disse para tocarem.
Eles se entreolharam, mas começaram a tocar. O som era melancólico, carregado com uma tristeza que parecia combinar com o ambiente decadente do pub. Cruzei as pernas, apoiando os cotovelos na mesa enquanto absorvia cada nota.
Mas então, o maldito vínculo começou a gritar dentro de mim novamente. Era como um fio de ferro quente amarrado ao meu peito, puxando, exigindo que eu voltasse para ela. Para Charlotte.
Minha respiração ficou pesada. Era irritante, degradante. Eu deveria ser poderoso, indomável. Mas aqui estava eu, enfraquecendo com cada segundo que passava longe daquela garota. Minha energia, minha força... tudo estava ligado a ela. Era humilhante.
Tentei ignorar o peso em meu peito, mas a raiva crescia dentro de mim. Apertei os punhos, minhas unhas deixando marcas na mesa de madeira velha.
— Sam — disse o barman, hesitante. — Quer algo para beber?
Ah, sim. Para eles, eu era apenas "Sam". Um nome curto, comum, fácil de lembrar. Não poderia me apresentar como Samael. Os humanos não entenderiam. Eu precisava de discrição, mesmo que minha essência gritasse por caos e destruição.
— Whisky. Sem gelo — respondi, minha voz baixa, mas firme.
Ele trouxe o copo, e eu o segurei por um momento, observando o líquido âmbar sob a luz fraca. Pensei em Charlotte novamente. Ela não deveria ter esse poder sobre mim. Não deveria ter despertado algo que eu julgava morto há séculos.
Fechei os olhos por um momento, sentindo a música preencher o vazio que a distância dela estava criando. O desejo de voltar e matá-la era forte. Mas o desejo de... entendê-la, de possuí-la, era ainda mais forte.
Eu sou Samael. O rebelde. O destruidor. Mas esta garota... esta maldita garota está me transformando em algo que eu não reconheço.
E isso, talvez, seja pior do que qualquer inferno.