Capítulo 5 - O Sussurro do Inferno

1766 Words
Charlotte Spencer Ele desapareceu. Simples assim. Não houve som, nenhum rastro. Um momento ele estava ali, com aquele olhar ardente e sorriso predatório que parecia consumir toda a sanidade que eu ainda tinha, e no seguinte... vazio. O quarto estava novamente silencioso, mas o ar parecia carregar sua presença, como se ele tivesse se impregnado nas paredes, no chão, no próprio espaço ao meu redor. Eu fiquei paralisada por alguns segundos, o lençol ainda apertado contra meu corpo, enquanto meu coração batia como um tambor em ritmo de guerra. Então, um impulso irracional tomou conta de mim. Saltei da cama e fui direto para a porta do quarto, verificando a tranca. Ainda estava girada, firme. O trinco não havia sido tocado. Atravessei o pequeno corredor até a porta da entrada e fiz o mesmo. Trancada. Olhei pelas janelas da sala, puxando as cortinas para verificar o lado de fora. Apenas as ruas silenciosas de Red Hollow, com a luz amarelada dos postes iluminando as calçadas vazias. Nenhum sinal de movimento, nem de qualquer intruso. — Está tudo trancado, Charlotte — murmurei para mim mesma, tentando convencer minha mente a parar de girar. — Tudo seguro. Ele... ele não pode ter entrado. É impossível. Mas, então, como explico o que acabei de vivenciar? A presença dele era tão real quanto o chão sob meus pés. O som da voz dele ainda ecoava em meus ouvidos, como uma melodia perturbadora que não conseguia esquecer. Meus dedos ainda tremiam, não de medo, mas de algo mais profundo, algo que eu não queria nomear. Caminhei de volta para o quarto, passando lentamente pelos corredores enquanto verificava cada janela, cada possível entrada. Tudo estava exatamente como deveria estar. Nada fora de lugar, nenhuma evidência de que alguém — ou algo — havia estado ali. Sentei-me na beirada da cama, esfregando as têmporas com as pontas dos dedos. Era a única explicação lógica: minha imaginação estava brincando comigo. Talvez eu estivesse ficando louca. Todo aquele estresse da faculdade, os livros que lia obsessivamente, o diário antigo com suas palavras estranhas. Talvez eu tivesse criado tudo isso na minha mente, como uma espécie de válvula de escape. — É isso, Charlotte — disse, tentando impor convicção às minhas palavras. — É só sua imaginação criativa. Você está cansada, e a mente cansada prega peças. Mas no fundo, algo em mim sabia que isso não era verdade. Suspirei, deixando meu corpo cair de volta no colchão, a cabeça afundando no travesseiro. Fechei os olhos, tentando ignorar o calor que parecia ainda pairar no quarto, como um resquício dele. Mas era impossível. Toda vez que eu fechava os olhos, via o sorriso dele, aqueles olhos âmbar que pareciam perfurar minha alma. “Você está bem, Charlotte. Ele não existe. É tudo coisa da sua cabeça.” Mas quanto mais eu repetia essas palavras para mim mesma, menos elas soavam verdadeiras. A noite avançava, e o silêncio no apartamento era opressor. Tudo parecia normal, mas também... errado. Era como se as sombras no quarto tivessem se alongado, como se houvesse algo esperando, escondido, no canto mais escuro. Eu virei para o lado, puxando o lençol até o queixo, tentando me encolher em mim mesma. Talvez o sono me trouxesse algum alívio. Talvez, ao acordar, tudo isso parecesse menos real. Mas o sono não trouxe descanso. Assim que comecei a adormecer, senti algo diferente. Não o calor que havia sentido antes, mas um frio súbito, como se a temperatura do quarto tivesse despencado. No meu subconsciente, algo começou a se agitar. Sons distantes, baixos, como um murmúrio. E então, eles ficaram mais claros. "Charlotte..." Meu nome ecoou pelo vazio, tão nítido que me fez abrir os olhos, mas não estava mais no meu quarto. Pelo menos, não parecia estar. Estava escuro, mas não a escuridão normal da noite. Era uma escuridão densa, sufocante, viva. Meu corpo estava preso, mas não fisicamente. Era como se algo invisível estivesse me segurando, me prendendo no lugar. Ao longe, sussurros começaram a surgir, uma cacofonia de vozes que não consegui distinguir. Algumas eram suaves, outras raivosas, mas todas pareciam focadas em mim. "Você não lembra..." O pânico tomou conta de mim. Não lembro o quê? O que elas queriam dizer? As vozes se tornaram gritos, as sombras ao meu redor começaram a dançar, como se tivessem uma vida própria. E então, no meio da escuridão, surgiu uma luz. Não uma luz comum, mas um brilho vermelho, pulsante, como o coração de algo monstruoso. Eu gritei, mas o som foi engolido pelo vazio. E então, como se as vozes tivessem se cansado de mim, elas sumiram, deixando apenas o silêncio. Acordei sobressaltada, o corpo suado e trêmulo. Estava novamente no meu quarto. As velas ainda estavam apagadas, o relógio piscava as 03h33. A realidade estava de volta, mas o medo não havia ido embora. Porque no fundo, eu sabia que aquilo não era apenas um sonho. Algo estava errado. Algo havia sido desencadeado, e eu não sabia como parar. Minhas mãos apertaram o lençol com força enquanto eu tentava me convencer novamente: tudo isso é coisa da sua cabeça. Você está imaginando coisas. Mas então, ouvi novamente. Fraco, distante, quase imperceptível. "Você não lembra..." E dessa vez, não consegui ignorar. Ele desapareceu. Simples assim. Não houve som, nenhum rastro. Um momento ele estava ali, com aquele olhar ardente e sorriso predatório que parecia consumir toda a sanidade que eu ainda tinha, e no seguinte... vazio. O quarto estava novamente silencioso, mas o ar parecia carregar sua presença, como se ele tivesse se impregnado nas paredes, no chão, no próprio espaço ao meu redor. Eu me sentei na cama, tentando acalmar minha respiração enquanto meus olhos fixavam o diário na mesa de cabeceira. Era ele. Tinha que ser ele. Desde que o trouxe para casa, tudo começou a mudar — os sonhos, as vozes, a sensação de que algo estava me observando. Eu precisava me livrar daquele maldito livro antes que ele me destruísse. Sem pensar duas vezes, levantei-me da cama e puxei o casaco pendurado na cadeira. O relógio marcava 3h47 da madrugada, mas eu não me importava. Não havia como dormir com aquele peso pairando sobre mim. Peguei o diário com mãos trêmulas, enfiei-o na bolsa e saí de casa. As ruas de Red Hollow estavam cobertas por uma fina neblina que parecia absorver a luz fraca dos postes, tornando tudo indistinto. O ar estava frio e úmido, o tipo de noite que fazia as pessoas se trancarem em casa, mas para mim, o mundo parecia mais vazio do que nunca. Caminhei sem rumo, guiada apenas pelo desejo de me afastar o máximo possível do diário. O peso dele na minha bolsa parecia aumentar a cada passo, como se estivesse resistindo à ideia de ser abandonado. Depois de alguns minutos vagando pelas ruas desertas, avistei uma lixeira enferrujada na esquina de uma rua estreita e m*l iluminada. Era um lugar esquecido, onde ninguém prestaria atenção. Perfeito. Parei em frente à lixeira e abri a bolsa. O diário parecia brilhar sob a luz fraca, como se estivesse zombando de mim. Respirei fundo, tentando ignorar o frio que rastejava pela minha espinha, e joguei o livro com força na lixeira. O som abafado do impacto foi quase libertador. Por um instante, senti um alívio esmagador, como se um peso enorme tivesse sido tirado dos meus ombros. — Adeus, problema. Mas o alívio foi breve. Continuei caminhando, ainda tentando processar tudo o que havia acontecido nas últimas horas. Mas, conforme me afastava, algo estranho começou a acontecer. A princípio, era apenas uma leve fraqueza, como se eu estivesse cansada demais. Minhas pernas começaram a pesar, e minha respiração ficou curta. Tentei ignorar, mas a sensação só piorou. Um suor frio escorreu pela minha testa, e meu coração começou a bater descompassado. — O que... está acontecendo? — sussurrei, tentando me apoiar em uma parede próxima. Meu corpo parecia ser drenado de energia. Era como se algo estivesse sugando minha força vital, deixando-me vazia por dentro. Minhas mãos tremiam descontroladamente, e a visão começou a embaçar. O frio que me envolveu era diferente do ar noturno. Era gélido, como se estivesse vindo de dentro de mim. Minha cabeça girava, e a cada passo que eu tentava dar, a sensação piorava. Meus joelhos cederam, e eu caí na calçada, ofegante. O chão úmido estava gelado contra minha pele, mas eu m*l conseguia senti-lo. Minha mente estava nublada, e um pensamento irracional tomou conta de mim: seria o diário? Mas quando tentei me lembrar do lugar onde o larguei, percebi que sequer sabia ao certo. Ele estava em uma esquina qualquer, jogado em uma lixeira como algo descartável. Não havia nada de especial naquele ato. E, ainda assim, eu me sentia como se estivesse morrendo. A rua ao meu redor estava vazia. Ninguém apareceu para me ajudar, ninguém para testemunhar o que estava acontecendo. Só eu, sozinha, sentindo como se o próprio fôlego da vida estivesse escapando de mim. Com esforço, tentei me levantar, mas meu corpo não obedecia. Cada músculo parecia fraco, exausto. Era como se eu estivesse sendo drenada por algo invisível, algo que não fazia sentido. E então, no meio do vazio, ouvi novamente. "Charlotte..." A voz era baixa, quase um sussurro, mas clara o suficiente para me fazer congelar. Olhei ao redor, mas não havia ninguém. Apenas a neblina densa e o som distante de um gato remexendo em uma lata de lixo. "Você não se lembra..." A frase ecoou dentro de mim, tão familiar quanto os sonhos que me assombravam. Um arrepio percorreu minha espinha, e um medo primordial tomou conta de mim. O que eu não lembrava? O que aquelas vozes queriam dizer? A escuridão parecia se fechar ao meu redor, e minha mente vacilava entre a consciência e o apagamento total. Mas, de alguma forma, lutei para me levantar. Cambaleando, comecei a andar de volta para casa, sem sequer saber como estava conseguindo. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas uma coisa era clara: isso não era sobre o diário. Era algo maior, algo que estava ligado a mim de uma forma que eu ainda não conseguia compreender. Quando finalmente alcancei a porta do meu apartamento, eu estava quase desabando. Tranquei-me lá dentro e deslizei até o chão, tremendo e tentando controlar a respiração. Minhas mãos estavam geladas, meu corpo inteiro parecia prestes a apagar. A sensação de vazio continuava, mas junto com ela havia uma pergunta que não me deixava em paz: o que eu fiz? E por que sinto que o pior ainda está por vir?
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