Capítulo 6 - Correntes Invisíveis

1325 Words
Charlotte Spencer A dor não diminuiu nem quando me joguei no sofá, tentando recuperar o fôlego. Meu corpo inteiro ainda parecia pesado, como se algo invisível estivesse amarrado a mim, puxando cada grama de energia que restava. Era diferente de tudo o que já havia sentido — não era apenas exaustão física, mas algo que se infiltrava em minha alma. Fechei os olhos, tentando me acalmar. "Você está bem", pensei. "Foi só um susto. Você está cansada, só isso." Mas no fundo, eu sabia que estava mentindo para mim mesma. Algo estava errado, terrivelmente errado. Minha mente se agarrou ao diário. A ideia de que ele pudesse ser a origem de tudo isso era tentadora, quase reconfortante. Afinal, se fosse ele, havia uma solução simples: distância. Mas quanto mais eu tentava me convencer de que era o diário, mais a dúvida se enraizava. Eu o larguei sem pensar, sequer me lembrava de onde, e o vazio que sentia não parecia se conectar com ele. Era mais profundo. Mais pessoal. A noite parecia interminável. Cada minuto se arrastava como uma eternidade. Quando finalmente consegui adormecer, fui imediatamente jogada em outro pesadelo. Eu estava de volta ao campo vasto e morto que havia visto antes. A grama n***a rangia sob meus pés, e o céu vermelho parecia pesar sobre mim. No horizonte, sombras se moviam, mas nunca se aproximavam o suficiente para serem vistas claramente. Podia sentir suas presenças, contudo. Elas estavam lá, me observando, esperando. Então, as vozes começaram novamente. "Você se esqueceu, Charlotte..." — Esqueci o quê? — gritei para o vazio, minha voz ecoando inutilmente. As sombras começaram a se mover mais rápido, rodopiando ao meu redor como um tornado, mas sem nunca me tocar. O som delas era ensurdecedor, mas ao mesmo tempo, um sussurro direto no meu ouvido. Era como se estivessem dentro de mim, mexendo em memórias que eu não sabia que tinha. E então, como antes, uma imagem se formou. Era diferente desta vez. Não havia sangue ou corredores intermináveis. Em vez disso, vi um rosto. Não o dele, não o homem de cabelos vermelhos que parecia assombrar minha mente. Era outro. Familiar e estranho ao mesmo tempo. Era o rosto de uma mulher. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas havia algo de implacável em sua expressão. Ela segurava algo — não consegui ver o que era —, mas sabia que era importante. A cena piscou e desapareceu antes que eu pudesse entender o que estava vendo. Acordei com um sobressalto, minha respiração pesada e o peito apertado. O relógio marcava 6h22. Ainda estava escuro lá fora, mas uma luz fraca começava a tingir o céu. Eu me levantei lentamente, sentindo cada músculo do meu corpo gritar em protesto. Meu corpo inteiro parecia prestes a se desfazer. A dor era tão intensa que ofuscava até meus pensamentos. Minhas mãos escorregaram do balcão, e eu caí de joelhos no chão da cozinha. O som da minha respiração entrecortada preenchia o silêncio do apartamento, mas então veio algo novo. Um ronco grave e baixo — o som de um motor se aproximando. Meu coração disparou, não por esforço, mas por medo. O som parou abruptamente, seguido pelo eco de passos pesados. Olhei para a porta do apartamento, onde a luz do corredor filtrava sob a madeira. Em seguida, o barulho quebrou o silêncio. Primeiro o ranger da tranca, depois o som da porta se estilhaçando, ecoando como um trovão nos meus ouvidos. Antes que eu pudesse reagir, ele estava ali. Samael. Ele entrou como uma força da natureza, trazendo consigo uma energia que dominava o ambiente. Sua presença era sufocante, mas não de maneira r**m. Era como se o próprio ar ao meu redor estivesse vivo, pulsando com o calor que irradiava de seu corpo. — Por que sempre assim? — ele murmurou, sua voz carregada de irritação, mas também com algo mais... preocupação? Ele me olhou rapidamente, mas seus olhos logo se moveram para os cantos da sala, analisando cada sombra, como se procurasse algo que eu não conseguia ver. Minha mente queria gritar, perguntar o que ele estava fazendo ali, mas antes que eu pudesse dizer uma palavra, um arrepio percorreu meu corpo quando ele se aproximou. O calor que emana dele é... descomunal. Ele parecia estar sempre febril, como uma chama viva envolta em uma forma humana. Quando ele se abaixou para me pegar nos braços, o calor dele me envolveu como um casulo. Era quase insuportável, mas ao mesmo tempo, inexplicavelmente confortável, como se meu corpo, tão drenado de energia, estivesse absorvendo força dele. — Me solta... — murmurei, sem muita convicção. Ele ergueu uma sobrancelha, mas ignorou o pedido. — Cale a boca, Charlotte. Não temos tempo para suas queixas. — Sua voz era afiada, mas carregava algo mais profundo, um peso que eu não conseguia identificar. Ele me pegou nos braços com facilidade, como se eu não fosse nada mais do que uma folha de papel. Seus braços eram fortes, e o calor irradiava tão intensamente que me fez estremecer. Era como estar perto de uma fogueira em uma noite gelada, o tipo de calor que penetrava a pele e atingia os ossos. — O que... está acontecendo? — consegui murmurar, minha voz falhando. — Pelo jeito, você abriu a porta para outras coisas também. Criaturas que não têm o menor interesse em te deixar viva. Meu coração vacilou. Criaturas? O que ele queria dizer com isso? — Você está me dizendo que... — minha voz vacilou. — Que algo mais está aqui? Ele me olhou de relance, e a intensidade em seus olhos me fez estremecer novamente. — Não apenas algo. Muitas coisas. E, no momento, todas estão brincando com a sua mente. — Ele balançou a cabeça, os dentes cerrados em frustração. — Típico. Humanos mexendo com coisas que não entendem. Eu queria gritar, discutir, exigir respostas, mas o calor que irradiava dele estava me deixando confusa, quase sonolenta. Sua proximidade era sufocante, mas também estranhamente reconfortante. Era como se ele estivesse me mantendo viva, mantendo meu corpo funcionando quando tudo em mim queria desistir. Quando ele abriu a porta do apartamento, senti o vento frio da noite bater em meu rosto. Mas mesmo o frio parecia insignificante perto do calor dele. Samael caminhava com passos rápidos e firmes, como se soubesse exatamente para onde estava indo. — Onde... estamos indo? — consegui perguntar. — Para um lugar sagrado. — Ele me lançou um olhar que parecia misturar frustração e exasperação. — Não gosto da ideia, mas não há outra escolha. Não posso te proteger aqui. — Sagrado? — Minha mente lutava para acompanhar. — Por que isso ajudaria? — Porque sua mente é fraca. — Ele disse isso como uma constatação simples, sem qualquer intenção de suavizar as palavras. — Essas coisas estão atacando sua mente. Elas sabem que você é a chave para mantê-los neste mundo. E eu... — Ele hesitou por um momento, como se as palavras lhe custassem. — Não posso deixar que te matem. Antes que eu pudesse responder, o ronco da moto que ele havia trazido ecoou novamente. Ele me colocou na moto com cuidado, e mesmo o couro do assento parecia frio em comparação com o calor febril dele. Samael subiu na frente, e, sem cerimônia, puxou minha mão para envolvê-lo pela cintura. — Segure-se. O motor rugiu, e a moto disparou pela noite. Eu queria perguntar mais, queria entender, mas o calor dele e a velocidade com que estávamos indo tornaram tudo um borrão. O vento da madrugada cortava minha pele, mas não importava. O calor de Samael era como uma barreira, protegendo-me de tudo, exceto de mim mesma e dos pensamentos que giravam na minha cabeça. A última coisa que me lembro antes de ceder à exaustão foi a sensação de seu corpo firme e quente contra o meu, e o som grave de sua voz, murmurando algo que eu não consegui entender.
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