Entre Versos e Silêncios
Autora: ANGELINA CACHINENE
Sinopse:
Helena Moreira é uma escritora introspectiva, dona de uma pequena livraria herdada da avó. Vive cercada por livros, poesia e um silêncio que escolheu para proteger seu coração. Após uma desilusão amorosa, prometeu nunca mais confiar em promessas bonitas.
Mas sua rotina muda ao conhecer André Velasco, um renomado jornalista investigativo que decide se afastar da cidade grande para escrever seu primeiro romance. Ele entra na livraria por acaso — ou talvez por destino — e se encanta pela mulher que fala pouco, mas diz tudo com os olhos.
Entre cafés, palavras não ditas e cartas deixadas entre páginas, os dois constroem uma conexão feita de fragmentos sinceros. Mas um segredo do passado de André ameaça silenciar essa nova história antes mesmo do primeiro capítulo.
Será que o amor pode florescer mesmo entre os silêncios mais profundos?
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Capítulo do Elenco:
Helena Moreira – 30 anos. Dona da livraria “Entre Palavras”. Ama poesia, tem um sorriso tímido e guarda cicatrizes invisíveis. Seus olhos verdes dizem mais do que sua boca permite.
André Velasco – 35 anos. Jornalista premiado que se esconde por trás da ironia e das palavras afiadas. Vem de um passado cheio de reviravoltas, mas carrega um coração leal e inquieto.
Dona Matilde – Avó de Helena (falecida). Sua presença ainda é sentida na livraria, através de cartas antigas, receitas de bolos e memórias carinhosas.
Rafaela – Melhor amiga de Helena e dona de uma cafeteria ao lado. Alegre, expansiva e sempre pronta para dar conselhos, mesmo sem ser solicitada.
Lucas Freitas – Ex-noivo de Helena. Um advogado ambicioso que fez da traição o ponto final de uma história m*l contada.
Ricardo Salles – Editor de André. Impaciente, mas fiel ao talento do escritor. Pressiona André a terminar seu romance enquanto lida com crises editoriais.
CAPÍTULO UM — A Primeira Página
A campainha da livraria soou com seu habitual tilintar suave, interrompendo a tarde morna de sábado. Helena estava debruçada sobre o balcão de madeira, imersa em uma velha edição de Vinícius de Moraes, quando ergueu os olhos e o viu.
Ele não parecia um cliente qualquer. Usava jeans escuros, camisa branca com as mangas dobradas até os cotovelos, e os cabelos castanhos bagunçados como quem enfrentara uma ventania ou uma confusão interna. Tinha os olhos atentos de quem observa mais do que fala.
— Boa tarde — disse ele, com um leve aceno de cabeça.
— Boa — respondeu Helena, voltando o olhar para o livro, como fazia sempre que se sentia invadida demais.
André percorreu os corredores da pequena livraria em silêncio. Passava os dedos pelas lombadas, folheava um ou outro exemplar com a familiaridade de quem respeita os livros. Parou em frente à estante de romances nacionais, e dali puxou um título de Clarice Lispector. Sorriu. Ela era a preferida de sua mãe.
— É a dona daqui? — perguntou, virando-se de súbito.
— Sim.
— Gosto do cheiro. De papel antigo e café.
Helena assentiu. — A combinação perfeita para quem quer se esconder do mundo.
André ficou em silêncio por um instante, como se pesasse aquelas palavras. Depois, aproximou-se do balcão e colocou o livro ali.
— Na verdade... eu tô tentando escrever um livro. E acho que precisava de um lugar assim. Um lugar onde as palavras tenham peso, e o silêncio também.
Ela o observou com mais atenção dessa vez. Havia algo nele... algo partido, mas firme. Algo que ela reconhecia.
— Se está atrás de silêncio, está no lugar certo — respondeu com suavidade, empacotando o livro com papel kraft e barbante.
— E se eu estiver atrás de respostas? — perguntou ele, quase num sussurro.
Ela não respondeu. Apenas deslizou o pacote até ele e disse:
— Os livros respondem melhor que as pessoas.
Ele sorriu.
— Então acho que vou voltar. Ainda tenho muitas perguntas.
E saiu, deixando para trás o tilintar da porta... e uma inquietação nova no peito de Helena.
Ela não sabia seu nome.
Mas sabia que, naquele dia, a primeira página de uma nova história havia sido escrita.
CAPÍTULO DOIS — As Entrelinhas do Café
Dois dias depois, o tempo parecia mais frio e o céu anunciava chuva. Helena organizava os livros da vitrine com sua costumeira atenção aos detalhes, quando ouviu a voz que, de forma curiosa, sua mente ainda guardava.
— Achei que o silêncio aqui era por conta dos livros. Mas talvez venha da dona também.
Helena virou-se. André estava parado à porta, dessa vez com um casaco marrom e um caderno de anotações nas mãos.
— E você achou isso r**m? — retrucou ela, cruzando os braços, séria.
— Pelo contrário. O silêncio de algumas pessoas é um descanso.
Ela mordeu o canto do lábio, tentando esconder o riso que ameaçava escapar.
— Vai querer outro livro?
— Na verdade, quero um café. A Rafaela me disse que você prepara o melhor da rua... e que às vezes deixa o açúcar de lado, como faz com as pessoas.
— Ela fala demais.
— Fala, sim. Por isso a conversa com ela dura mais que capítulos de um livro russo.
Helena finalmente sorriu, e ele notou. Havia uma beleza serena no modo como ela desviava o olhar, como se guardar sentimentos fosse um hábito antigo.
— Senta aí — disse ela, apontando a pequena mesa no canto da livraria. — Vou preparar. Mas aviso que não sou boa com receitas ou simpatias.
Enquanto ela se afastava, André abriu seu caderno. Nele, rabiscara fragmentos soltos: "Ela é como poema antigo, daqueles que a gente lê devagar, com medo de não entender."
Helena voltou minutos depois com duas canecas fumegantes. Colocou uma diante dele e sentou-se na cadeira oposta.
— Você está mesmo escrevendo um livro? — perguntou, interessada.
— Tentando. É mais difícil do que parece. Palavras me traem. Escapam do controle.
— Palavras não traem. As pessoas sim.
O silêncio caiu entre eles como uma pausa cheia de sentidos. Do lado de fora, a chuva começou a cair, suave.
— Eu já tentei me calar com elas — disse ela, depois de um tempo. — Mas livros sempre me convencem a voltar.
André a observava com olhos atentos, sem pressa. — E você, Helena... já foi personagem de alguma história?
Ela sorriu, mas seu olhar ficou distante.
— Fui. Mas preferi reescrever o final.
Ele não insistiu. Apenas anotou mais uma frase em seu caderno.
“Talvez ela seja o capítulo que ele precisava escrever para se curar.”
CAPÍTULO TRÊS — Onde as Palavras se Aproximam
O convite veio de forma inusitada: um bilhete preso entre as páginas de um livro devolvido.
“Se quiser falar sem pressa, ou apenas ouvir o som da cidade adormecendo... estarei no banco sob a árvore da praça às 18h.”
Assinado apenas com uma letra: A.
Helena encontrou o bilhete ao fechar a livraria naquela tarde. Leu duas vezes, e por um momento, pensou em ignorar. Mas algo dentro dela — talvez a mesma voz que lhe dizia quando um cliente precisava de ajuda mesmo sem pedir — sussurrou que ela devia ir.
Quando chegou à praça, o sol já beijava o horizonte e o ar carregava aquele frio sutil de fim de tarde. E lá estava ele. André, sentado no banco de madeira, com o casaco dobrado sobre os joelhos e um livro aberto no colo.
— Achei que poderia mudar de ideia — disse ele, ao vê-la se aproximar.
— Quase mudei — confessou, sentando-se ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa.
Ficaram alguns minutos em silêncio. Um silêncio confortável, daqueles que apenas duas almas em sintonia conseguem compartilhar sem pressa ou desconforto.
— Sabia que esse é o único lugar da cidade onde o pôr do sol parece mais lento? — comentou ele, apontando para o céu avermelhado.
— Talvez o tempo desacelere onde as pessoas ainda ouvem umas às outras — disse ela, fitando o horizonte.
André sorriu.
— Gosto de estar aqui com você, Helena. Gosto da sua calma, da forma como escolhe as palavras como se fossem preciosas.
Ela o olhou com cuidado, como se quisesse ler além das entrelinhas.
— Eu gosto de estar com você também, André. Mas ainda não sei se estou pronta para... mais palavras.
— Tudo bem — respondeu, com a serenidade de quem entende limites. — Podemos começar com silêncios compartilhados.
Ela respirou fundo. Ali, naquela praça, não havia cobranças. Só o som do vento, das folhas secas arrastando pelo chão... e dois corações começando a se reconhecer.
Antes de irem embora, André estendeu a ela o livro que trazia. Dentro, uma marca de página escrita à mão:
“Nem todo capítulo precisa começar com um beijo. Alguns começam com respeito.”
Helena guardou o livro contra o peito.
E naquele instante, a amizade deles floresceu. Não por urgência, mas por verdade.
CAPÍTULO QUATRO — Corações com Margens
O inverno começava a se insinuar pela cidade, cobrindo os dias com névoa leve e o aroma constante de café quente. Helena, com as mãos enluvadas, caminhava ao lado de André pelas ruas estreitas que levavam até o coreto da cidade. A livraria estava fechada naquele dia — uma pausa rara — e o silêncio entre eles era agora mais íntimo que antes.
— Você sempre anda em silêncio? — perguntou ele, com um meio sorriso.
— Às vezes as palavras atrapalham a paisagem — ela respondeu.
André riu, genuinamente. — Justo. Mas hoje... queria ouvir um pouco mais da sua história, se puder.
Helena parou. O vento soprou leve, como se pedisse delicadeza.
— Nunca contei isso a ninguém, pelo menos não assim — começou, olhando para o chão antes de encará-lo. — Eu ia me casar. Há três anos. A cerimônia já estava marcada, vestido escolhido, convites enviados...
— E?
— Descobri que o homem que eu amava também amava... minha prima. Há pelo menos um ano. — Ela soltou um riso seco. — Eles me mandaram uma carta conjunta. Disseram que não queriam mentir mais. Que preferiam ser felizes juntos.
André cerrou o maxilar, sem dizer nada. Apenas caminhou um pouco mais perto, deixando seu ombro roçar no dela.
— Desde então, me fechei no que posso controlar: minha livraria, minha rotina... e o silêncio. É seguro.
— Não gosto do que fizeram com você — disse ele, baixo.
— Eu também não gostava. Mas aprendi a agradecer. Porque, se não fosse por isso, talvez eu ainda estivesse tentando caber onde nunca houve espaço pra mim.
André segurou o caderno contra o peito, hesitante.
— Posso te contar meu segredo agora?
Ela assentiu.
— Vim pra cá porque fui afastado da redação depois de uma matéria que envolvia corrupção política e ameaças à minha vida. Minhas fontes desapareceram. Meu nome virou manchete. Eu fugi. — Ele fez uma pausa. — Só que aqui... eu estou respirando de novo. E isso tem muito a ver com você.
Helena ficou em silêncio. Não por medo, mas por não saber o que dizer àquele homem que, aos poucos, estava desarmando as paredes que ela demorou tanto para erguer.
— Você confia em mim, Helena?
Ela o olhou nos olhos. Não respondeu. Mas estendeu a mão e segurou a dele.
E naquele toque, entre histórias quebradas e verdades reveladas, os dois compreenderam que estavam caminhando para algo mais do que amizade.
Um sentimento que nascia devagar, mas firme. Como os melhores versos. Como o amor que vale a pena ser escrito.